O dia em que a novela parou de parar o Brasil
Quatorze anos depois, a novela voltou. O Brasil, porém, já não é o mesmo.
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Nina (Débora Falabella) e Carminha (Adriana Esteves) estarão na continuação de “Avea novela. (Globo/Estevam Avellar)
Em 2012, uma família inteira parava diante da televisão para descobrir o que aconteceria depois do intervalo. Em 2026, a mesma família voltou a se reunir na sala. Só que, dessa vez, havia uma diferença, pois, enquanto a novela passava na televisão, metade da família estava assistindo a outra coisa no celular. 14 anos atrás todos se reuniam diante de uma televisão. O pai tinha 38 anos. A mãe, 35. A avó, 67. O filho mais velho, 14. A caçula, 8. Às nove da noite, a casa mudava de dono. A panela podia esperar. O telefone tocava sozinho. O adolescente largava o videogame reclamando. A menina se ajeitava no chão. A avó segurava o controle remoto como quem segurava uma escritura. Começava Avenida Brasil. E havia uma coisa particularmente cruel naquela televisão: os comerciais.
Quando a cena chegava ao ponto em que alguém finalmente descobriria alguma coisa, aparecia o comercial. A família levantava em disparada. Banheiro. Geladeira. Cozinha. Panela. Volta para a sala. “Já voltou?” “Não.” “Agora?” “Agora!” E ninguém perdia.
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Adriana Esteves como Carminha na novela “Avenida Brasil”, da Globo, em 2012Crédito: Reprodução Globo Cauã Reymond estará em “Avenida Brasil 2”, novela da GloboCrédito: Reprodução Instagram @tvglobo Eliani Giardini confirma estar no elenco da continuação de “Avenida Brasil”Reprodução: Globo Débora Falabella como Nina em “Avenida Brasil”Reprodução/Globo
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Naquele tempo, o entretenimento tinha hora para começar, hora para terminar e cinco minutos de intervalo para a família conversar sobre a própria novela. Carminha transcendia a televisão. Ficava na escola, na padaria, no escritório, no ônibus, na conversa do almoço. Até quem não assistia precisava saber quem era essa vilã para conseguir participar da conversa.
Nesse contexto da época, já existia internet, o Twitter (que hoje é X) e até memes. Mas a televisão ainda tinha uma vantagem que hoje parece quase uma extravagância, porque conseguia fazer milhões de pessoas olharem para a mesma coisa ao mesmo tempo. Assim, a novela dava o assunto e o país alimentava a continuidade.
Quatorze anos depois, a mesma sala recebeu Avenida Brasil de volta. O pai tinha 52. A mãe, 49. A avó, 81. O menino de 14 tinha 28. A menina de 8 tinha virado mãe. E havia duas crianças novas na sala. Uma delas apontou para a televisão. “Quem é essa?” Carminha apareceu. A avó respondeu: “Essa mulher parou o Brasil.”
O neto continuou olhando para o celular. “Parou como?” Dona Nair tentou explicar. Não encontrou uma medida. Como se mede um país parado? Talvez fosse pela quantidade de panelas que quase queimaram. Ou pelo número de crianças mandadas dormir depois da novela. Ou pelo silêncio que tomava conta de uma sala inteira quando alguém dizia: “Fica quieto, vai começar.”
Em 2026, a novela voltou cercada de uma máquina que em 2012 ainda era pequena demais para competir com ela. O anúncio chegava pelas redes sociais. As cenas apareciam nos portais. Os memes nasciam quase instantaneamente. O público comentava antes mesmo de o capítulo terminar.
Na sala, surgiu uma dúvida que seria impensável para Dona Nair quatorze anos antes. “Tem no Globoplay?” “Tem.” “Então eu vejo depois.”
A avó olhou para a televisão. Em 2012, ninguém dizia “eu vejo depois”. Depois era o futebol. Depois era o jornal. Depois era amanhã. Hoje, depois pode ser daqui a dez minutos.
A novela ainda está no ar e alguém já cortou a melhor cena para postar na internet. Outro já explicou o que aconteceu. Um terceiro fez um meme. Um quarto contou o que acontecerá amanhã. E, se ninguém quiser esperar, o capítulo está lá no streaming.
A novela não precisa mais esperar pelo público. O público também não precisa mais esperar pela novela. Dona Nair pegou o controle. “Vocês não querem assistir?” O neto sorriu. “Eu estou assistindo.”Ela apontou para o celular: “Isso aí é outra coisa.” “É a mesma coisa”, respondeu o guri.
Dona Nair ficou olhando como quem entende mas acha tosco. A televisão continuava grande. A sala continuava ali.Carminha continuava sendo Carminha, mas adaptada com as novas exigências da agenda do politicamente correto para que não virasse pauta de cancelamento e que afetasse a credibilidade da obra.
Mas o mundo tinha aprendido a fazer barulho demais para uma única novela mandar nele. Em 2012, alguém teria levantado no intervalo.Em 2026, ninguém levantou.
A novela voltou. Os personagens voltaram. A memória voltou. Só não voltou aquele Brasil que, por duas horas, conseguia fazer uma coisa quase impossível hoje: ficar olhando para o mesmo lugar. Vai ver o paradoxo mais curioso da volta de Avenida Brasil é que ela conseguiu parar uma história no tempo mas não conseguiu parar uma nação outra vez.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: Leo Dias por Guilherme Silva.
