O segredo de uma boa entrevista pode ser resumido em três pontos essenciais: a) saber perguntar e o que perguntar; b) saber ouvir para contestar ou não o que foi dito; e c) não deixar passar mentiras. Isso tudo depende do preparo do entrevistador. Requer conhecimento sobre os temas a serem tratados e o alvo de suas perguntas.
Em entrevista, ontem à noite, à TV Record, Flávio Bolsonaro voltou a repetir que nada houve de errado com o financiamento do filme “Dark Horse” por Daniel Vorcaro, o dono do extinto Banco Master e o protagonista do maior escândalo financeiro da história do Brasil. Disse estar tranquilo e negou que o caso tenha envolvido dinheiro público. Vorcaro está preso e ainda não foi julgado, se é que um dia será. Sua vertiginosa ascensão à condição de um dos homens mais ricos do país deveu-se a favores regiamente pagos por ele a figuras públicas em troca de investimentos em seu banco. Trata-se de dinheiro pago pelos contribuintes por meio de impostos; dinheiro desviado.
Flávio considera que a discussão em torno do assunto “é página virada”. Esquece que prometera esclarecer em 30 dias tudo o que fosse preciso para que não restassem mais dúvidas a respeito. Mas já se passaram 100 dias desde então e ele julga que isso não é mais necessário. Aos insatisfeitos, cabe esperar uma decisão da Justiça.
Nada há de estranho no comportamento de Flávio. Primeiro, porque já recuperou os percentuais de voto perdidos nas pesquisas eleitorais. Segundo, porque qualquer coisa que fale só lhe causará prejuízos. Terceiro, porque os jornalistas que o interrogam, na maioria das vezes, se contentam com o que ele fala, desde que fale. A esse tipo de entrevista, o mais corrente, dá-se o nome de “quebra-queixo”. O jornalista quebra o seu ao perguntar, o entrevistado ao responder. E acaba ficando tudo por isso mesmo. A cada um, a sua missão. A do entrevistador, cumprir sua pauta, ou a que lhe deram. A do entrevistado, enganar o distinto público. Bola pra frente.
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do Metrópoles
Na manhã de ontem, em um hotel no centro de São Paulo, Flávio reuniu-se com Gustavo Villatoro, ministro da Justiça e Segurança Pública do governo de Nayib Bukele, de El Salvador, a meca dos candidatos da extrema-direita à Presidência dos seus países na América Latina. Em El Salvador, bandido bom é bandido morto. De acordo com Flávio, Bukele e Villatoro foram responsáveis por “implementar um dos maiores e mais eficazes resgates de soberania e devolver a segurança pública para o povo deles, o povo salvadorenho”. Aqui, acrescentou Flávio, “tem pouco preso. Tinha que ter mais, só não tem mais porque a legislação é frouxa”.
Que nada. A população carcerária no Brasil é de cerca de 965 mil pessoas, segundo o anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. É a terceira maior do mundo e cresce a uma taxa média de 3,3% ao ano desde o início da década. Há superlotação em 28% dos presídios. El Salvador tem 6,4 milhões de habitantes, dos quais 100 mil estão presos. El Salvador vive um regime de exceção permanente, aprovado pelo Congresso, que suspendeu garantias constitucionais como o direito de defesa. Presos são torturados e mortos. A Câmara Constitucional aprovou um regime de reeleição indefinida do atual governo. Donald Trump morre de inveja de Bukele. Pelo visto, Flávio também.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Ricardo Noblat.

