Opinião: Critiquei a repetição na “Dança dos Famosos”, mas há um outro lado nessa história
Depois de apontar a repetição de rostos, é preciso reconhecer: montar um elenco competitivo após mais de 20 anos de quadro virou um desafio para a Globo
*As informações contidas neste texto são de responsabilidade dos colunistas e não expressam necessariamente a opinião do portal LeoDias.
Luciano Huck com parte do elenco da “Dança dos Famosos” (Reprodução/Globo)
Há dois dias, escrevi aqui que a nova “Dança dos Famosos” expunha um velho problema da Globo: a repetição de rostos em seus programas de entretenimento. Quatro dos 16 participantes da temporada de 2026 passaram pelo “Big Brother Brasil” e, olhando apenas para o resultado final da escalação, continuo achando muita coisa.
Mas talvez tenha faltado olhar para o outro lado. E faço aqui uma espécie de mea-culpa. É muito fácil — e faz parte do nosso trabalho — olhar para uma lista pronta e perguntar: “Mas de novo essa pessoa?”. Muito mais difícil é estar do outro lado e conseguir montar, ano após ano, um elenco numeroso de famosos que sejam conhecidos pelo público, tenham apelo, disponibilidade e, principalmente, estejam dispostos e fisicamente aptos a encarar a competição.
Carla Bittencourt
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A “Dança dos Famosos” existe desde 2005. Em mais de duas décadas, mais de 300 celebridades já passaram pelo quadro. Ou seja: uma parte considerável dos nomes óbvios — e até dos menos óbvios — já dançou.
E a conta ficou ainda mais complicada a partir de 2020, quando o “Big Brother Brasil” criou o Camarote e passou a precisar, todos os anos, de famosos dispostos a entrar na casa. Desde então, atores, cantores, atletas e influenciadores passaram a abastecer também o principal reality show da emissora.
É uma concorrência interna por um tipo de participante que não é tão abundante quanto parece. Porque não basta ser famoso.
Para a “Dança”, é preciso ter meses disponíveis para ensaios e gravações. É necessário topar uma rotina fisicamente pesada. Há artistas que convivem com problemas de coluna, joelhos e articulações e simplesmente não podem se submeter a esse esforço. Outros sabem que não têm nenhuma coordenação motora e não querem transformar essa dificuldade em entretenimento para milhões de pessoas.
Há ainda quem não lide bem com competição, julgamento e pressão. Na “Dança”, o participante precisa aprender uma coreografia em poucos dias, se apresentar diante de jurados e receber notas — inclusive notas ruins — diante do país inteiro.
E existe outro complicador: desistências. Uma escalação que parece fechada pode mudar praticamente na véspera. Participantes voltam atrás, surgem compromissos profissionais, questões pessoais ou problemas físicos. A produção precisa trabalhar com alternativas e, muitas vezes, recorrer a quem está disponível naquele momento.
A própria história recente do quadro mostra como o corpo pode interferir nos planos. Gracyanne Barbosa precisou interromper sua participação em 2025 depois de sofrer uma lesão e passar por cirurgia. MC Livinho também não conseguiu seguir naquela edição após sofrer um acidente de moto. Os dois ganharam uma nova oportunidade em 2026.
O “BBB” talvez seja um desafio ainda maior. Se convencer uma celebridade a dançar no “Domingão” já não é simples, imagine convencê-la a abandonar a própria vida por cerca de três meses, ficar confinada, sem celular, sem contato com a família, sendo filmada 24 horas por dia e correndo o risco de sair do programa com uma rejeição capaz de afetar sua imagem e sua carreira.
Desde a criação do Camarote, em 2020, a Globo precisa encontrar famosos dispostos a correr esse risco todos os anos. É por isso que talvez a análise sobre a repetição de rostos precise ganhar uma camada a mais.
Continuo achando que a televisão deve buscar novidades. Continuo acreditando que a “Dança dos Famosos” fica mais interessante quando resgata alguém de quem o público sente saudade, surpreende com um nome improvável ou apresenta uma personalidade conhecida em um lugar onde nunca imaginávamos vê-la.
Mas reconheço: fazer isso depois de mais de 20 anos de quadro, mais de 300 participantes e ainda dividindo o mercado de celebridades disponíveis com o Camarote do “BBB” é um belo quebra-cabeça.
Olhando de fora, parece existir uma quantidade infinita de famosos esperando um convite da televisão. Na prática, a peneira vai ficando cada vez mais estreita: precisa ser conhecido, interessante, disponível, saudável para encarar a rotina, disposto a se expor e, claro, querer estar ali.
Então, sim, quatro ex-BBBs numa mesma edição ainda me passam uma sensação de repetição. Não retiro o que escrevi. Mas, olhando melhor para o tamanho do desafio, admito que talvez seja injusto resumir essa repetição simplesmente a uma falta de criatividade da Globo. Às vezes, repetir não é a escolha mais inventiva. Mas pode ser a escolha possível.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: Leo Dias por Carla Bittencourt.

