Opinião: É hora de reconhecer os acertos de Amauri Soares na Globo
Executivo foi alvo de críticas desde que assumiu o comando da TV aberta, mas participação nos bastidores de “Quem Ama Cuida” revela disposição para ouvir e proteger a criação
*As informações contidas neste texto são de responsabilidade dos colunistas e não expressam necessariamente a opinião do portal LeoDias.
Amauri Soares é o diretor geral da Globo (Divulgação/Globo)
Amauri Soares assumiu o comando da TV Globo em 2020, justamente quando a emissora iniciava uma das transformações mais profundas de sua história. Além da reestruturação provocada pelo projeto “Uma Só Globo”, que aproximou diferentes empresas e plataformas do grupo, o executivo precisou enfrentar os efeitos da pandemia, as mudanças nos hábitos do público e uma nova realidade no mercado artístico.
Nem todas as decisões tomadas desde então foram bem recebidas. Algumas foram conturbadas, outras discutíveis e muitas provocaram resistência dentro e fora da Globo. Eu mesma fui uma das profissionais que mais cobraram Amauri ao longo desses anos. Questionei escolhas, critiquei mudanças e, em determinados momentos, também me deixei contaminar pelo ranço provocado pelos primeiros movimentos de sua gestão. Mas quem cobra precisa igualmente saber reconhecer os acertos. E os bastidores de “Quem Ama Cuida” mostram um lado de Amauri que talvez não tenha recebido a mesma atenção dedicada aos seus erros.
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Como esta coluna já revelou, Walcyr Carrasco e Claudia Souto têm acompanhado atentamente a resposta do público e usado essa repercussão para atualizar os rumos da novela. “Quem Ama Cuida” é, de fato, uma obra viva, em constante diálogo com quem está do outro lado da tela.
Esse movimento pode ser percebido em diferentes núcleos. A trajetória de Francesca (Nathalia Dill) foi definida depois das primeiras reações à personagem; a força dramática de Brigitte (Tata Werneck) ganhou uma dimensão que nem sequer estava prevista inicialmente; e romances como o de Mau Mau (João Vicor Gonçalves) e Felipe (Pietro Antonelli) estão sendo desenvolvidos também a partir da resposta dos telespectadores.
A direção artística de Amora Mautner participa diretamente dessa conversa. Ela, Walcyr e Claudia escutam, avaliam e, quando entendem que existe um caminho mais interessante, não têm medo de mexer na história. Mas essa liberdade criativa não surgiu por acaso. Ela passa também por Amauri Soares.
É o executivo quem oferece respaldo para que os autores e a direção possam conduzir a novela dessa forma. Amauri entendeu que ouvir o público não significa escrever por enquete nem atender indiscriminadamente a todos os pedidos das redes sociais. Significa perceber onde existe uma potência inesperada, quais personagens cresceram além do planejado e que relações despertaram maior envolvimento emocional.
Ele também compreendeu desde o princípio a vocação melodramática de “Quem Ama Cuida”. Percebeu que aquela era uma história sustentada por paixões, vingança, segredos, conflitos familiares e grandes atores. Em vez de tentar enquadrar a obra em alguma fórmula definida por tendências passageiras, deu espaço para que os autores e a direção artística fizessem a novela em que acreditavam.
Amauri intervém pouco no processo criativo e, quando participa das discussões, tem demonstrado disposição para escutar. Walcyr, Claudia e Amora encontram nele um interlocutor atento, não alguém preocupado em impor mudanças apenas para deixar a própria marca.
Amora, aliás, é uma das maiores defensoras de Amauri. Faz isso publicamente, no X, e também nos corredores dos Estúdios Globo. A diretora artística costuma lembrar que parte do sucesso de “Quem Ama Cuida” passa pelo executivo. Talvez seja mesmo necessário prestar mais atenção ao que ela diz.
A contribuição de Amauri começou antes mesmo de a novela entrar no ar. Em um momento no qual a Globo já não mantém um banco de atores com as mesmas dimensões de outras épocas, reunir um elenco de primeiro escalão virou uma operação complexa. Hoje, artistas estão comprometidos com plataformas de streaming, produtoras, cinema, teatro e projetos pessoais. Muitos já não possuem contratos longos de exclusividade com a emissora.
Amauri brigou pelo elenco de “Quem Ama Cuida”. Participou pessoalmente de negociações, cuidou de contratações e trabalhou para viabilizar renovações importantes. O resultado está na tela: uma novela cercada de atores capazes de sustentar o texto, o melodrama e as sucessivas viradas da história.
Isso não apaga as decisões equivocadas de sua gestão. Reconhecer um acerto não significa reescrever o passado, esquecer críticas ou abandonar a independência. Significa apenas fazer uma avaliação mais justa e menos contaminada por impressões que, com o tempo, podem se transformar em verdades absolutas.
Talvez tenhamos nos acostumado a olhar para Amauri apenas por meio das decisões que provocaram desconforto. Quando uma medida desagrada, seu nome aparece imediatamente. Quando um produto funciona, os méritos costumam ser atribuídos exclusivamente aos autores, diretores e atores. Evidentemente, são eles que fazem a obra acontecer. Mas existe também uma engrenagem executiva responsável por oferecer as condições necessárias para que o trabalho floresça.
No caso de “Quem Ama Cuida”, Amauri ajudou a proteger o projeto, viabilizou um elenco difícil de reunir e concedeu liberdade para que autores e direção continuassem construindo a trama durante sua exibição. Há mérito nisso.
Este texto também é um mea-culpa. Depois de tantas cobranças, seria desonesto da minha parte conhecer esses bastidores e fingir que eles não existem. Amauri Soares pode ter errado — e certamente ainda será cobrado quando necessário —, mas não se pode negar sua vontade de fazer a Globo dar certo.
Quando alguém demonstra disposição para ouvir, rever caminhos e defender um projeto no qual acredita, é preciso reconhecer. “Quem Ama Cuida” também carrega as digitais de Amauri Soares. Desta vez, como um acerto.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: Leo Dias por Carla Bittencourt.
