Opinião: “Estrelas da Casa” tem estreia confusa e esquece de apresentar suas próprias estrelas
Globo aposta em nova fórmula, mas programa corre tanto que não dá tempo de o público conhecer — e muito menos torcer — pelos candidatos
*As informações contidas neste texto são de responsabilidade dos colunistas e não expressam necessariamente a opinião do portal LeoDias.
Ana Clara é a apresentadora do “Estrelas da Casa” (Divulgação)
A Globo reformulou completamente o “Estrelas da Casa” para sua terceira temporada. Mudou a dinâmica, abandonou a busca por um vencedor solo, decidiu formar grupos de Pop e Pagode e convocou nomes fortes como Anitta e Junior para tentar dar peso ao projeto. Só esqueceu de uma coisa básica na estreia: contar ao público que programa é esse.
O primeiro episódio, exibido na noite de terça-feira (25), foi corrido, confuso e, em vários momentos, difícil de acompanhar. Havia muita coisa acontecendo, muitas pessoas sendo apresentadas, performances, avaliações e decisões, mas faltava justamente aquilo que deveria ser prioridade numa estreia: fazer o espectador entender quem são aquelas pessoas e por que deveria se importar com elas.
Carla Bittencourt
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O maior desperdício talvez tenha acontecido antes mesmo de os candidatos subirem ao palco. Afinal, como eles chegaram até ali?
O processo de seleção poderia ter sido uma das partes mais interessantes do “Estrelas da Casa”. É justamente nas audições que o público costuma conhecer histórias, identificar talentos, encontrar seus favoritos e, principalmente, criar vínculos. É ali que nasce a torcida.
Em vez disso, o programa entregou candidatos praticamente prontos para o palco. Houve registros das audições disponibilizados em outros espaços e pequenos conteúdos espalhados pela programação e pelas plataformas da Globo, mas a estreia na TV não transformou esse material numa narrativa capaz de apresentar aquelas pessoas de verdade. E isso faz diferença.
“Popstars”, exibido pelo SBT nos anos 2000 e inevitavelmente lembrado diante da proposta atual do “Estrelas da Casa”, entendeu muito bem essa lógica. A formação do Rouge não começou quando cinco meninas já estavam escolhidas. O público acompanhou o caminho até lá. Viu testes, erros, nervosismo, eliminações, evolução e frustração. Quando o grupo finalmente nasceu, aquelas candidatas já tinham uma história diante das câmeras.
No “Estrelas da Casa”, aconteceu quase o contrário: primeiro chegaram os cantores; depois o espectador precisava correr atrás para descobrir quem eram eles. A própria mecânica da competição também não ajudou.
Se a grande novidade desta temporada é formar um grupo, por que a estreia apresentou performances coletivas enquanto as escolhas continuaram essencialmente individuais? O conceito e a execução pareciam andar por caminhos diferentes.
O espectador via um grupo cantando, mas precisava tentar identificar individualmente quem havia ido melhor, quem merecia uma vaga e quem deveria sair. Ao mesmo tempo, Junior e Anitta avaliavam candidatos que mal tinham sido apresentados ao público. Era informação demais para vínculo de menos.
Mas reality show depende de vínculo. Não basta alguém cantar bem. O público precisa saber seu nome, conhecer minimamente sua trajetória, entender de onde veio, perceber suas inseguranças e descobrir alguma razão para torcer por ele. Quando isso não acontece, a eliminação também perde força. Como lamentar a saída de alguém que você conheceu minutos antes?
A pressa foi inimiga da estreia. Talvez o “Estrelas da Casa” tivesse material para dois, três ou até mais programas apenas acompanhando as seletivas. Poderia mostrar os candidatos chegando, as primeiras avaliações, os erros, quem surpreendeu Junior, quem chamou a atenção de Anitta e quem cresceu durante o processo. A seleção poderia ser parte do entretenimento, e não apenas uma etapa a ser vencida rapidamente para que o reality começasse.
Curiosamente, o programa tem bons ingredientes. Anitta funciona muito bem como conselheira justamente porque fala o que pensa e quebra a solenidade das avaliações. Junior tem experiência suficiente para ocupar o papel de mentor. Ana Clara conhece o terreno dos realities e tem agilidade para conduzir um programa ao vivo.
O problema não está necessariamente nas peças, mas na maneira como elas foram organizadas. A sensação deixada pela primeira noite foi a de assistir ao terceiro ou quarto episódio de um programa cuja estreia ninguém viu.
E os números mostram que a reformulação não conseguiu, ao menos de saída, despertar a curiosidade esperada. O “Estrelas da Casa” marcou 11,6 pontos na Grande São Paulo, sua pior estreia desde que foi criado. Em 2024, havia começado com 13,6; no ano passado, com 16,6.
É cedo para decretar o fracasso de uma temporada inteira a partir de uma única noite. O próprio formato prevê mudanças semanais nas formações, novas apresentações e outras etapas da carreira artística, o que pode tornar a competição mais interessante quando o público finalmente conhecer os participantes.
Mas a Globo desperdiçou justamente a oportunidade que uma estreia oferece: ensinar o público a assistir ao programa e dar motivos para que ele queira voltar. Em televisão, principalmente num reality, não adianta apenas reunir bons cantores e criar regras. Antes de formar uma banda, é preciso formar uma torcida. E, na estreia do novo “Estrelas da Casa”, faltou justamente isso.
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Tags:Estrelas da Casa, TV Globo
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Conteúdo reproduzido originalmente em: Leo Dias por Carla Bittencourt.

