Ícone do site YacoNews

Planalto vê abertura com Trump para renegociar tarifaço após eleição

Tarifaço: governo Lula crê que EUA só retomará conversas após eleição
Ricardo Stuckert / PR

O governo brasileiro avalia que a retomada do diálogo com o governo dos Estados Unidos, por meio do telefonema entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump, na sexta-feira (21/8), abre espaço para que a Casa Branca possa negociar de fato as tarifas impostas sobre produtos brasileiros exportados após as eleições presidenciais deste ano.

A nota do Planalto, divulgada após a ligação, afirma que Trump chancelou a retomada das negociações comerciais entre os dois países. O tema foi levado por Lula, que solicitou a conversa. “O presidente Trump concordou com a necessidade de preservar vínculos comerciais fortes e propôs que equipes dos dois países voltassem a se reunir o mais brevemente possível”, diz o comunicado.

O objetivo do presidente Lula com o telefonema era obter o aval do republicano para a retomada das negociações sobre o tarifaço, o que foi alcançado. Logo após a conversa, o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, entrou em contato com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, e os dois combinaram de realizar uma reunião por videoconferência na próxima semana para discutir o tarifaço.

O diálogo entre EUA e Brasil sobre as tarifas estava parado desde o mês passado, quando duas investigações comerciais do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) resultaram na imposição de tarifas adicionais de 25% e 12,5% ao Brasil, podendo chegar a 37,5% para exportações afetadas por ambas.

A alíquota menor, de 12,5%, acusa o Brasil e outras 59 economias de não combater adequadamente o trabalho forçado em determinadas cadeias produtivas. A tarifa de 25%, por sua vez, é direcionada especificamente ao Brasil e aponta supostas práticas comerciais desleais executadas pelo governo brasileiro.

Entre no canal de WhatsApp
do Metrópoles

Receba no seu email as notícias de Boletim Metrópoles

Frequência de envio: Diário

Ver todasVer todas as newsletters

O anúncio da tarifa direcionada ao Brasil elevou as tensões entre os dois países. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, chegou a declarar que a decisão pela implementação da sobretaxa foi tomada porque Lula “não negociou de boa-fé” com as autoridades norte-americanas.

Em reação, o chanceler brasileiro, Mauro Vieira, afirmou que Rubio atacou Lula de forma “grosseira e arrogante”.

O governo Lula sustenta que a motivação do governo dos EUA com a taxação é meramente política, já que o país possui superávit econômico com o Brasil.

Sem efeito a curto prazo

Para interlocutores de Lula, a retomada do diálogo sobre as relações comerciais não deve ter efeitos consideráveis a curto prazo. Isso porque, segundo fontes, a proximidade com o pleito eleitoral brasileiro determina certa cautela do lado norte-americano em relação ao Brasil.

Se o candidato alinhado ao governo dos EUA, Flávio Bolsonaro (PL), vencer a disputa, Trump verá sua estratégia de política externa de dominação ideológica na América Latina se fortalecer, e o cenário das tarifas terá outro contexto.

se Lula conquistar o quarto mandato, a expectativa é de que haverá um caminho aberto de diálogo para voltar a negociar as tarifas.

Se a reeleição do atual presidente for consolidada, o governo petista terá de lidar com mais dois anos de Trump à frente da Casa Branca. O segundo mandato do republicano como presidente dos EUA terminará em 20 de janeiro de 2029. Pela Constituição americana, um presidente pode exercer no máximo dois mandatos, o que o impede legalmente de concorrer novamente ao cargo.

A aposta, portanto, é de que não haverá mudanças nas tarifas até a eleição do próximo chefe do Planalto.

A retomada do diálogo, agora, serve como trunfo para o governo Lula mostrar que há disposição do Brasil para não abandonar a mesa de negociação. Segundo membros do alto escalão do Executivo, a proximidade entre Lula e Trump também reduz a margem de influência de quem atua contra a relação bilateral entre os dois países.

O pedido para a ligação partiu de Lula. Fontes do governo brasileiro avaliaram a conversa como muito positiva, cordial e convergente, sem menções a temas de divergência entre os dois presidentes. Segundo os relatos, Trump chegou a fazer elogios à trajetória política de Lula e acenou ao presidente brasileiro, reforçando que os dois mantêm um canal direto de comunicação. O presidente dos EUA teria dito ainda que Lula pode acioná-lo quando considerar necessário.

8 imagens1 de 8Arte/Metrópoles2 de 8

Lula e Trump em encontro na Casa Branca

Ricardo Stuckert/Presidência da República
3 de 8

Novo embate comercial entre Brasil e Estados Unidos reacende discussões sobre tarifas e leva governo e Congresso a avaliarem estratégias de reação à proposta norte-americana de taxar produtos brasileiros

Ricardo Stuckert/PR4 de 8

Lula e Trump em encontro na Casa Branca

Ricardo Stuckert/Presidência da República
5 de 8

Reunião privada durou cerca de 1h30

Ricardo Stuckert/PR6 de 8

Lula e Trump se encontram nesta quinta nos EUA

Ricardo Stuckert/PR7 de 8

Trump e Lula

Andrew Harnik/Getty Images8 de 8

Os presidentes dos EUA e do Brasil, Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva

Ricardo Stuckert/PR

Tarifaço

Trump comentou sobre eleição brasileira

Como mostrou o Metrópoles, as eleições presidenciais deste ano foram um dos assuntos tratados no telefonema, que durou uma hora e 20 minutos.

Segundo interlocutores do governo brasileiro, o tema foi abordado no início da conversa, por iniciativa do presidente norte-americano. De acordo com os relatos, Trump fez uma referência superficial ao processo eleitoral, para saber como anda a preparação do Brasil para o pleito de outubro.

Em resposta, Lula afirmou que o processo eleitoral tem transcorrido de forma tranquila, que há diversos candidatos na disputa pela Presidência da República e que o sistema eleitoral brasileiro é seguro. O presidente disse ainda que está tudo em ordem no país. Trump não teria feito comentários adicionais sobre o assunto.

Na avaliação de auxiliares de Lula, a troca de impressões sobre a eleição brasileira não passou de um “intercâmbio cordial” entre os dois líderes, em um nível considerado adequado diante da proximidade do pleito.

No final de julho, o Itamaraty negou o visto a dois oficiais norte-americanos que pretendiam fazer uma missão ao Brasil com o objetivo de questionar o sistema eleitoral, a poucos meses da corrida presidencial. A gestão Lula teme que o governo dos EUA tente interferir direta ou indiretamente no processo eleitoral brasileiro e tenta distensionar a relação entre Lula e Trump até lá.

No geral, a conversa foi concentrada em três temas levantados por Lula: o tarifaço sobre produtos brasileiros, o combate ao crime organizado e conflitos globais. Neste último ponto, foram discutidas as situações da Ucrânia e do Oriente Médio, incluindo a guerra envolvendo o Irã.


Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Alice Groth.

Sair da versão mobile