Armas destinadas à rede investigada pelo atentado contra o tenente Ronickson Pimentel dos Santos, das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), teriam sido compradas em nome de colecionadores, atiradores desportivos e caçadores (CACs) usados como laranjas.
A suspeita aparece em uma denúncia anônima enviada às autoridades, por meio do Disque Denúncia (181), após o ataque contra o oficial da Polícia Militar (PM), ocorrido em 27 de junho na cidade de São Caetano do Sul, no ABC.
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Arte/Alfredo Henrique/Metrópoles
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Golias durante fuga, acompanhado da esposa e de duas filhas, além de um homem
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Ronickson Pimentel dos Santos
Polícia Militar/Câmera de segurança/Reprodução6 de 7
Ronickson Pimentel, tenente da Rota baleado na cabeça, e a esposa, Cintia Pimentel
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O relato orienta os investigadores a procurarem os locais relacionados ao roubo da motocicleta usada no crime e afirma que, quando localizadas, as armas seriam identificadas como compradas por CACs em nome.
A informação, porém, ainda não é apresentada no processo como uma conclusão da Polícia Civil. Também não há, nos documentos analisados pelo Metrópoles, números de série, registros de aquisição, nomes dos supostos laranjas ou laudos que permitam relacionar uma arma específica aos disparos contra Pimentel.
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do Metrópoles SP
A hipótese depende, portanto, de diligências policiais, rastreamento dos armamentos e confronto balístico.
Ordem de dentro da cadeia
Como revelou o Metrópoles, a denúncia que menciona os CACs também atribui a um homem preso no Centro de Detenção Provisória IV (CDP-IV) de Pinheiros a ordem para o atentado.
O detento é identificado no relato como ligado ao Primeito Comando da Capital (PCC). Segundo o denunciante, ele teria transmitido as determinações ao próprio filho, que as repassaria a comparsas em liberdade.
O material de análise produzido a partir da denúncia confirma que o suposto mandante estava preso no CDP-IV de Pinheiros desde setembro de 2025 e que havia contra ele um mandado relacionado a um homicídio qualificado.
O relatório também registra denúncias anteriores associadas ao nome dele, como suspeitas de tráfico de drogas, roubo, homicídio e latrocínio (roubo seguido de morte). A alegação de que o detento teria ordenado o ataque contra Pimentel permanece sob investigação.
Ataque com divisão de tarefas
Pimentel foi ferido na cabeça por um tiro, disparado pelo garupa de uma motocicleta. Ele foi socorrido em estado grave, condição na qual permanecia até a publicação desta reportagem.
A Polícia Civil concluiu, ainda no início da apuração, que a tentativa de homicídio não teria sido cometida isoladamente. O ataque mobilizou pessoas e veículos com funções diferentes, segundo representação encaminhada à Justiça.
Além da dupla responsável pelos tiros, os investigadores identificaram um Renault Logan branco que teria acompanhado a motocicleta até ela ser abandonada nas proximidades da favela de Heliópolis, na zona sul paulistana.
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Um Fiat Palio e um GM Astra também teriam se deslocado de maneira coordenada durante a ação. Os veículos foram relacionados, respectivamente, a Marcos Vinicius Dias Machado e Carlos Roberto Ferreira, presos temporariamente durante as investigações. As defesas de ambos foram procuradas pelo Metrópoles, mas não se manifestaram sob a alegação de que o caso segue em segredo de Justiça.
Segundo o Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), a estrutura preliminarmente identificada envolvia os dois ocupantes da moto, o motorista do Logan e os condutores dos demais veículos de apoio.
Luiz Henrique de Oliveira Nascimento foi preso posteriormente, sob suspeita de participação na ocultação da motocicleta utilizada no atentado. Para isso, teria recebido R$ 100. Como revelou o Metrópoles, os três foram transferidos de uma Delegacia de São Caetano do Sul, para o sistema prisional, após denúncias sobre um possível plano de resgate.
Fuzis para resgatar presos
Outras denúncias anônimas incorporadas ao processo indicaram que integrantes do PCC discutiam retirar Marcos, Carlos e Luiz Henrique da custódia policial.
O plano teria envolvido fuzis, veículos blindados e integrantes da chamada “sintonia final de rua”, além de lideranças criminosas com atuação na zona leste da capital paulista e em Heliópolis.
As denúncias afirmavam que ao menos dois presos estariam fornecendo informações à Polícia Civil. Por isso, integrantes da facção teriam avaliado resgatá-los ou matá-los antes que a investigação avançasse.
A Polícia Civil usou os relatos para sustentar que a permanência dos suspeitos na delegacia colocava em risco os próprios presos, policiais civis, outros custodiados e moradores da região.
Após decisões judiciais divergentes, a Justiça autorizou a transferência do trio para um Centro de Detenção Provisória ou para “outra unidade considerada adequada”.
Na decisão, o juiz Heitor Moreira de Oliveira mencionou notícias reiteradas sobre um plano de resgate armado e afirmou haver risco iminente à segurança da delegacia.
Armas registradas em nome de terceiros
A utilização de laranjas para comprar armas legalizadas permitiria que o verdadeiro destinatário do armamento permanecesse oculto nos sistemas oficiais.
Nesse tipo de fraude, uma pessoa formalmente autorizada adquire a arma, mas repassa o equipamento a terceiros sem registrar a mudança de posse. A origem lícita da compra pode, assim, dificultar inicialmente a identificação de como o armamento chegou a grupos criminosos.
No caso Pimentel, entretanto, não há, até o momento, elemento apresentado nos autos que permita afirmar que esse caminho foi efetivamente utilizado.
Para confirmar a denúncia, os investigadores precisam ainda localizar as prováveis armas, identificar numeração, fabricante e calibre, consultar os registros e reconstituir a cadeia de aquisição, posse e transferência.
Também seria necessário comparar o material com cápsulas deflagradas, projéteis e demais vestígios recolhidos após o atentado, além de verificar se os proprietários formais comunicaram furto, roubo ou extravio.
Até que isso eventualmente ocorra, a referência a CACs e laranjas é um dos elementos que compõem o mosaico das investigações.
Mortes durante buscas
Desde o atentado, integrantes da Rota mataram suspeitos apontados como envolvidos no caso durante diferentes ações policiais.
As mortes passaram a provocar questionamentos sobre a preservação de provas e a possibilidade de os suspeitos contribuírem para esclarecer quem planejou e financiou a tentativa de assassinato.
Em uma dessas ocorrências, policiais militares mataram o homem apontado como responsável por conduzir a motocicleta ocupada pelo atirador. A Polícia Civil solicitou imagens das câmeras corporais usadas pelos agentes, mas foi informada de que os registros não estavam disponíveis.
Outros materiais, entre eles o celular utilizado pelo próprio Pimentel, também peças relevantes para a reconstrução do caso.
A apuração busca identificar o atirador, os responsáveis pela logística e os possíveis autores intelectuais. Hércules da Costa Siqueira, conhecido como Golias ou Peruca, é apontado como o principal suspeito de ter efetuado os disparos e segue foragido. A Secretaria da Segurança Pública (SSP) oferece recompensa de R$ 50 mil para quem der informações que resultem na localização do suspeito.
A defesa de Rafael Rodriguez Prado Balbino não foi localizada.
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Alfredo Henrique.

