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“Nunca pensei”: da seringa ao gado, Raimundo vê trabalho do Deracre mudar o Ramal São Raimundo, na Transacreana

Raimundo Braga Nogueira

Raimundo Braga Nogueira

Aos 58 anos, Raimundo Braga Nogueira, conhecido como Caboco, continua morando no Ramal São Raimundo, na Transacreana, em Rio Branco. Foi ali que aprendeu a cortar seringa, ainda criança, e onde hoje cria gado. Pelo mesmo ramal, acompanha o trabalho das máquinas do Deracre na recuperação dos cerca de 15 quilômetros do trecho, dentro da Operação Verão 2026.

“Quem vive no campo sabe como um ramal faz diferença. É por aqui que o produtor tira o que cria e o que planta, que os estudantes vão para a escola e que as famílias chegam à cidade. Quando esse caminho está melhor, facilita a vida de quem depende dele”, afirmou Mailza Assis.

Raimundo olha para o trabalho e lembra de quando aquele caminho era bem diferente. Há cerca de quatro décadas, segundo ele, não dava para passar nem de bicicleta. O jeito era seguir a cavalo.

“Eu nunca pensei que isso aqui fosse chegar até a minha casa. Naquele tempo, a gente não tinha nem como imaginar uma coisa dessas. Hoje eu vejo esse caminho chegando aqui e lembro de como era antes.”

Uma infância na floresta

A relação com o trabalho começou cedo. Aos sete anos, Raimundo acompanhava o padrasto no corte da seringa. Aos dez, já fazia o serviço sozinho.

Naquele tempo, os equipamentos seguiam a cavalo até o barracão, às margens do rio, onde a borracha era pesada e registrada. Parte da produção ficava para acertar as contas com o patrão. Raimundo lembra que, de 60 quilos de borracha, até a metade podia ser descontada. O que sobrava era para viver.

“Era o meu sustento naquela época. Eu trabalhava na seringa, produzia a borracha e era dali que tirava o que precisava para viver.”

Aos 19 anos, casou-se e formou família na região. Depois, deixou a seringa e passou pela agricultura, plantando milho e feijão, fazendo farinha e, mais tarde, criando gado.

Pai de seis filhos, fez questão de que eles estudassem. Ele próprio não teve essa oportunidade. Para chegar à escola, os filhos percorriam um varadouro a pé ou a cavalo, passando por pontes e trechos difíceis.

“Eu nunca estudei porque nunca alcancei a escola. Então eu lutei para meus filhos estudarem. Eu queria que eles tivessem aquilo que eu não tive e que pudessem estudar para ter uma vida melhor.”

Os filhos chegaram ao segundo grau.

Mais famílias pelo ramal

Raimundo também viu a região crescer. Quando era mais jovem, havia poucas famílias espalhadas pelo ramal. Hoje, as casas estão mais próximas umas das outras e o movimento aumentou.

“Hoje mora muita gente aqui. Você anda dois quilômetros e já encontra uma família. Antigamente não era assim, era tudo mais longe, tinha pouca gente morando por aqui.”

Por ali passam moradores e produtores, além dos animais e da produção que seguem para a cidade. É também nesse trecho que Raimundo acompanha o trabalho do Deracre durante a Operação Verão 2026.

O gado

Hoje, Raimundo vive da criação de gado. Os animais saem da propriedade pelo ramal e seguem até a cidade, onde chegam aos açougues.

“O boi sai daqui e vai para o açougue, vai para a cidade. O pessoal quer o boi lá, mas o boi vem daqui. É a gente que cria, que trabalha e tira daqui para levar para a cidade.”

Raimundo lembra de quando fazia esse percurso a cavalo. Agora, acompanha as máquinas trabalhando no mesmo caminho.

“Eu agradeço porque eles estão enxergando nós. A gente está aqui há muitos anos, trabalhando e vivendo desse lugar. Quando a gente vê as máquinas chegando e o caminho sendo recuperado, fica feliz, porque sabe que estão lembrando de quem mora e trabalha aqui.”

Raimundo continua morando onde nasceu. Hoje, vive da criação de gado e vê o ramal bem diferente de quando começou a trabalhar na seringa.

“Foi Deus. Porque tudo que acontece é como Deus quer. A gente vai vivendo, trabalhando, enfrentando as dificuldades e seguindo em frente. Se estou aqui até hoje, é porque Deus quis.”

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