Convenham…
A julgar pelo peso que o assunto ocupa no noticiário, sobretudo no colunismo, deveria ter comparecido à Avenida Paulista, neste 7 de setembro, para pedir a cabeça de Alexandre de Moraes, mais gente do que naquele histórico 15 de fevereiro de 2003, quando se estima que entre 10 milhões e 15 milhões de pessoas se juntaram em várias cidades do mundo contra a guerra do Iraque. E, no entanto, dados os nomes da extrema direita presentes, o claro clima de insuflação contra o Supremo e a mobilização das respectivas máquinas da Prefeitura de São Paulo e do governo do Estado, pode-se, afirmar sem receio: FLOPOU.
Segundo levantamento feito pelo Monitor do Debate Político da USP/Cebrap, em parceria com a “More in Common”, a manifestação reuniu, no auge da concentração, 28.500 pessoas, com margem de erro de 12% para mais ou para menos — logo, entre 25.100 e 32 mil. E não foi mixuruca assim por falta de, digamos, estrelas da extrema direita. Lá estiveram Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, Ricardo Nunes, Silas Malafaia, Nikolas Ferreira, Valdemar Costa Neto… Pode ter sido “pour cause”, não é mesmo?
COMPARANDO
O jogo entre o Santa Cruz — meu time no Estado do glorioso Joaquim Nabuco — e o Botafogo da Paraíba, pela Série C, na Arena de Pernambuco, teve um público auditado de mais de 27 mil pessoas. O Santa ganhou de 1 a zero. Sem golpistas.
Segundo o mesmo monitor, a manifestação bolsonarista juntou 42,2 mil em 2025 e 45,4 mil em 2024, com a mesma margem de erro. Logo, a de hoje foi 32,46% menor do que a do ano passado e 37,22% inferior à do retrasado. E olhem que, então, ainda não se confundia, em setores da imprensa, o Supremo com a Bastilha…
Obviamente, não estou aqui a tomar a presença de público como medida única da gravidade da crise — até porque, caras, caros e cares, o que se vive hoje na Corte tem um alcance que vai além do que o calor ou a frieza das ruas podem perceber. Estamos diante de uma encruzilhada institucional: saber se o Supremo seguirá sendo régua do devido processo legal ou se vai ceder a práticas de justiçamento aliadas à linguagem do fanatismo religioso, ele próprio um mal em si.
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do Metrópoles
No artigo de ontem aqui, escrevi:
“O calendário é sempre muito importante nessas decisões. O 7 de Setembro de Flávio já nascia com cara de mais um mico. As duas decisões de Mendonça inflamam os espíritos.”
Pois é… Eis o público que Flávio conseguiu reunir na semana em que Mendonça jogou no ventilador um mero relatório do seu “aparato” que fez mira no ministro Alexandre de Moraes; no procurador-geral da República, Paulo Gonet, e no diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Ontem, em pleno domingão, véspera do ato, o incansável enviou oficialmente a sua petição ao Supremo. Ganhou de novo títulos nos veículos de imprensa e no Fantástico. O conjunto valia por uma convocação. Vamos ver qual será a patranha desta terça.
Jamais conto a história que não houve e raramente apelo ao “e se…” Mas vou me permitir aqui o exercício lúdico: “E se Mendonça tivesse respeitado o devido rito legal em vez de ter produzido feitos de óbvio apelo eleitoreiro em favor de Flávio?” Os manifestantes de seu candidato teriam lotado quantas Kombis?
TARCÍSIO E A COERÊNCIA
Mantenho a minha análise de que Lula segue favorito — até porque a conjunção de fatores buscava derreter a sua candidatura, o que não aconteceu. Os dados da pesquisa Quaest divulgados há pouco, um empate rigoroso em 41% com o candidato do PL no segundo turno, referendam… os dados da pesquisa Quaest da semana passada. Nada de novo, a despeito de tudo. Mas essa questão fica para outra hora.
O ato da Avenida Paulista é revelador. Lá estava Tarcísio, com mobilização óbvia promovida pelo Palácio dos Bandeirantes. Discursou:
“As últimas revelações sobre o Moraes, sobre o Supremo, precisam de resposta. Quando há dúvida acerca da conduta e do exercício da magistratura, uma resposta institucional precisa ser dada. Está na hora de o tribunal se unir para apurar e dar a resposta que a sociedade precisa. A gente precisa relembrar de uma máxima: ‘Absolutamente ninguém está acima da lei; ninguém está acima da Constituição. Banqueiro, senador, ministro, governador e presidente, nenhum está acima da Constituição. Todos precisam se submeter à lei’. Deveria ter uma frase em cada gabinete em Brasília: ‘o preço da grandeza é a responsabilidade’. Se você quer ter grandeza, preste contas, não tenha medo, esclareça. Isso é fundamental neste momento”.
Como discordar do governador de São Paulo? Poderia ele próprio concordar consigo mesmo…
É com base nesses fundamentos que o governador defende anistia aos golpistas e diz aos quatro ventos que seu candidato, Flávio Bolsonaro, já explicou as lambanças do “Dark Horse” e os US$ 13 milhões que Daniel Vorcaro doou, a pedido do candidato, para supostamente fazer o filme?
A extrema direita, como se nota, aproveita-se da janela de oportunidades que lhe abrem fartos setores da imprensa ao estimular a atuação de um justiceiro no Supremo, o super-herói da hora. O resultado, no entanto, ficou muito aquém do esperado. O anterior, Sergio Moro, estava no palanque ao lado de Flávio.
O FEITO DE MENDONÇA
Mas não sou do tipo que ignora méritos. Reconheço aqui, por dever de ofício, que o “Aparato Mendonça” fez muito mais por Flávio do que o próprio candidato e os demais extremistas de direita que o cercam.
A soma das “operações Lulinha e Moraes”, tudo indica, tornou seu candidato competitivo de novo, o que o dito Zero Um não conseguia por conta própria. E, a depender de como atue o Supremo, o ministro operará sozinho a maior transformação da história do tribunal, que pode deixar de se subordinar à Constituição e ao Regimento Interno para consagrar a execução sumária. Em vez da Carta Magna, a pena capital no micro-ondas dos pneus, com o estímulo de parte da imprensa. Faz tempo que esse negócio de fogueira seduz almas fanáticas.
SUBLACERDISMO
O povão não compareceu ao rito público do Tribunal do Ofício Nada Santo na Paulista. Isso não quer dizer que a retórica sublacerdista de “analistas” vá sossegar. Pode até acontecer o contrário: “Não estamos sendo contundentes o bastante…”
Carlos Lacerda, como se sabe, provou do próprio veneno, como sempre acontece nesses casos. Se há coisa a que se resiste por estas plagas é aprender com a história. Por aqui, em certos setores, parafraseando Talleyrand sobre os Bourbons, não esquecer nada nem aprender nada parece uma sentença que nos condena ao passado, com a memória presa para semper no presente eterno.
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Reinaldo Azevedo.

