A seca avança na Amazônia e no mundo e deixou de ser um problema restrito às regiões tradicionalmente áridas do planeta. O aumento da frequência e da duração dos períodos de estiagem colocou o fenômeno no centro dos debates da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), realizada em Ulaanbaatar, na Mongólia.
Segundo a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), a frequência e a duração das secas aumentaram quase 30% desde 2000. As projeções indicam que, até 2050, três em cada quatro pessoas no planeta poderão ser afetadas pelo fenômeno.
A preocupação também está relacionada à disponibilidade de água. A demanda global pode superar a oferta em até 40% até 2030, ampliando os riscos para comunidades, atividades econômicas e produção de alimentos.
No Brasil, o problema já aparece em todas as cinco regiões. Em julho de 2026, pelo menos 157 municípios foram classificados em situação de seca severa, caracterizada pela redução acentuada da umidade do solo e pelo estresse hídrico da vegetação, com impactos sobre a agricultura.
O acompanhamento é feito pelo Monitor de Secas, coordenado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), além dos boletins produzidos pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
Para o coordenador-geral de pesquisa e desenvolvimento do Cemaden, José Antonio Marengo, os próximos meses exigem atenção diante da combinação entre redução das chuvas e aumento das temperaturas.
“Vemos a diminuição dos totais de chuvas e o aumento da temperatura. Há um risco de que o desequilíbrio entre precipitação e evaporação leve a situações de agravamento das secas”, explicou.
A situação também é observada em outras partes do planeta. Na Europa, países como Reino Unido, Itália, França, Alemanha, Hungria e Romênia enfrentam condições de seca, enquanto áreas da África, do Oriente Médio e da Ásia também apresentam diferentes níveis de comprometimento.
O fenômeno pode ocorrer de diferentes maneiras. A seca meteorológica acontece quando as chuvas ficam abaixo da média durante um período prolongado. Já a seca agrícola reduz a disponibilidade de água para plantas, lavouras e pastagens.
Há ainda a seca hidrológica, que compromete rios, reservatórios e aquíferos e pode afetar o abastecimento, a geração de energia, a navegação e a biodiversidade.
Os impactos, porém, não são distribuídos de maneira igual. Populações que dependem diretamente dos recursos naturais, como indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, pescadores artesanais e agricultores familiares, estão entre as mais vulneráveis.
Na Amazônia, os efeitos são especialmente preocupantes. Em 2023 e 2024, rios de diversos municípios da região atingiram níveis historicamente baixos, provocando isolamento de comunidades, interrupções no transporte fluvial e dificuldades para o acesso a alimentos e medicamentos.
A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) também chamou atenção para os impactos da estiagem sobre os povos tradicionais. Segundo o coordenador-geral da entidade, Toya Manchineri, a combinação entre secas e queimadas ameaça territórios e modos de vida.
Dados recentes do Cemaden mostram que o número de territórios indígenas afetados pela seca severa aumentou de três, em junho, para 17, em julho. Entre as áreas apontadas estão territórios vinculados aos distritos sanitários especiais indígenas do Alto Rio Negro e Parintins, no Amazonas, além de regiões do Pará, Tocantins e Mato Grosso.
Nos assentamentos rurais, o avanço também foi significativo. O número de áreas afetadas pela seca extrema passou de duas para 44, enquanto os locais classificados com seca severa aumentaram de 102 para 309. Pará, Tocantins, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas concentram grande parte dessas áreas.
Além das estiagens prolongadas, pesquisadores monitoram um fenômeno conhecido como seca-relâmpago. Esse tipo de evento começa rapidamente, costuma ser acompanhado por temperaturas elevadas e pode durar apenas alguns dias ou semanas, mas provocar impactos intensos sobre o solo e a vegetação.
O pesquisador Humberto Alves Barbosa, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), explica que o aumento das temperaturas durante esses episódios pode intensificar a aridez e reduzir ainda mais a cobertura vegetal.
Outro fator de preocupação para os próximos meses é o El Niño. As previsões da Organização Meteorológica Mundial indicam que o fenômeno deve ganhar força entre agosto e outubro de 2026.
O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial apresentam aquecimento anormal, alterando padrões de circulação atmosférica e influenciando a distribuição das chuvas em diferentes regiões do planeta.
No Brasil, o fenômeno pode aumentar o risco de períodos mais secos e quentes em áreas do Norte, Nordeste e Centro-Oeste, segundo pesquisadores. A combinação pode afetar a umidade do solo, a vazão dos rios e favorecer períodos prolongados de estiagem e queimadas.
Os impactos também podem chegar à segurança alimentar. O Programa Mundial de Alimentos (PMA) estima que a seca e outros efeitos climáticos associados ao El Niño podem elevar significativamente a insegurança alimentar em 45 países.
Diante desse cenário, especialistas e organismos internacionais defendem que os governos não concentrem as ações apenas no atendimento às emergências. Entre as medidas consideradas prioritárias estão o monitoramento climático, sistemas de alerta precoce, recuperação de áreas degradadas, gestão integrada dos recursos hídricos e fortalecimento da capacidade de adaptação das comunidades.
O tema deve ganhar espaço nas discussões da COP17 da Desertificação, que reúne países e organizações internacionais para discutir estratégias de enfrentamento à seca e à desertificação.
O Brasil integra, desde 2024, a Aliança Internacional para a Resiliência à Seca (IDRA), criada para ampliar a cooperação entre governos, compartilhar informações e estimular investimentos em medidas de adaptação.
A expectativa é que a conferência incentive ações antecipadas para evitar que os períodos de estiagem se transformem em crises ainda maiores, especialmente nas comunidades que dependem diretamente da água e dos recursos naturais para sobreviver.
Com informações da Agência Brasil.

