Os alvos da Carbono Oculto tentaram ocultar indícios de crimes após a deflagração da primeira fase da operação, o que acabou saindo como um “tiro no pé”. As mudanças de condutas geraram o efeito contrário do esperado, e forneceram ao Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo (MPSP), provas cabais das irregularidades.
Segundo apurou o Gaeco, tanto gerentes e operadores do esquema, como executivos do núcleo financeiro e gestores de fundos de investimentos, criaram um rastro documental ao tentar alterar rotinas e parcerias financeiras. Os novos achados levaram à Operação Crédito Oculto, um desdobramento da investigação, deflagrada nessa quinta-feira (24/9).
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MPSP deflagra operação Crédito Oculto, terceira fase da Carbono Oculto, em SP e mais 6 estados
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Entenda o esquema
- A operação mira uma estrutura criada para esconder os verdadeiros donos da usina sucroalcooleira Itajobi, no interior de São Paulo, e viabilizar a compra da distribuidora de combustíveis Terrana.
- Os líderes do esquema, segundo as autoridades, seriam Roberto Augusto Leme da Silva, conhecido como “Beto Louco”, e Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”. Os dois estão foragidos.
- A aquisição da Terrana teria como objetivo ocultar dinheiro ilícito do crime organizado para financiar a expansão societária do grupo, especialmente a atuação de Beto Louco e Mourad no setor de postos de combustíveis.
- O grupo criou empresas de fachada colocadas no nome de um “laranja” e criou uma operação financeira circular para dar aparência de legalidade às operações.
- Nessa operação financeira, o fundo de investimentos Radford tinha como cotista único a usina Itajobi, controlada, na prática, por Beto Louco e Primo. O dinheiro foi aplicado em Certificados de Depósito Bancário Vinculados (CDBVs) emitidos pelo banco Genial.
- Com lastro nos Certificados de Depósito Bancário Vinculados (CDBVs), o Banco Genial emitiu créditos e simulou um empréstimo em favor das empresas de fachada. O valor foi usado na compra da distribuidora de combustíveis Terrana.
- As autoridades alegam que, como o único cotista do Radford era a Usina Itajobi, tratou-se de uma operação circular: o grupo emprestou dinheiro a si mesmo por meio do fundo e do banco para simular um financiamento legítimo de mercado.
Tentativas de dispersão
Logo após as primeiras apurações, o banco Genial renunciou à administração do fundo de investimentos Radford. O fundo era utilizado exclusivamente pela Usina Itajobi, do interior de São Paulo, para operações irregulares que levaram à aquisição da Terrana, uma das maiores distribuidoras de combustíveis do país.
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A instituição financeira também liquidou os Certificados de Depósito Bancário Vinculados (CDBVs) e cedeu os créditos das Cédulas de Crédito Bancário (CCBs), no valor de R$ 160 milhões, diretamente ao próprio Fundo Radford.
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Além disso, executivos do banco apagaram conversas de WhatsApp por receio de fiscalizações da Secretaria da Fazenda (Sefaz) referentes aos pagamentos recebidos da Aster Petróleo, distribuidora de combustíveis alvo da primeira fase da Carbono Oculto.
Paulo Narcélio Simões do Amaral e Gunar Marcondes da Silva – respectivamente o testa-de-ferro e o contador e gestor contábil de Mohamad Hussein Mourad, o Primo, e Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, líderes do esquema, na compra da Terrana – criaram um plano de emergência para “desvincular” a distribuidora do grupo criminoso.
O plano, segundo apurou o Gaeco, previa mudança urgente de endereço, demissão de colaboradores da empresa de fachada 7Seven, contratação de servidor de tecnologia da informação (TI) separado e alteração de telefones.
Ioná Patrícia Andrade, ex-funcionária da Aster, se desligou da empresa dois dias após deflagração da primeira fase da Carbono Oculto ao ver seu nome ser veiculado em reportagens sobre a Terrana. Mesmo “desligada”, ela adotou o nome falso de Camila Junqueira em aplicativos de mensagem para continuar operando na retaguarda da empresa.
Os investigadores identificaram ainda que os gestores dos fundos de investimento usados pelo esquema promoveram uma migração em massa dos fundos mantidos na administradora Reag para novas administradoras (como Altinvest, Trustee, BLF e Banvox) para pulverizar o patrimônio. A Reag também foi alvo da primeira fase da Operação da Carbono Oculto, sob suspeita de ter sido instrumentalizada para integrar a estrutura criminosa.
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Tiro no pé
A representação do Ministério Público à Justiça que culminou na Operação Crédito Oculto mostra que, ao tentar se desvincular dos primeiros investigados, os integrantes da estrutura criminosa acabaram por fornecer ao Gaeco e ao Juízo provas cabais das irregularidades.
Os investigadores citam, por exemplo, que o banco Genial eliminou a figura do intermediário financeiro (holdings de fachada) e expôs a relação circular do grupo ao ceder as CCBs diretamente para o Fundo Radford. Isso deixou claro que o dinheiro enviado pelas holdings de fachada à Itajobi, para comprar a Terrana, tinham origem na própria usina e na quadrilha.
O “plano de emergência” criado por Paulo Narcélio e Gunar Marcondes, encontrado no celular de Marcondes, também se tornou prova cabal. O operador formulou uma lista de “afazeres” para segregar a Terrana, o que serviu como uma confissão por escrito das táticas de ocultação do grupo.
A exclusão das mensagens pelos executivos do banco Genial e a troca de nome de Ioná para Camila Junqueira também forneceram aos promotores a evidência do conhecimento da ilegalidade e da intenção deliberada de fraude para escapar das investigações.
Para o Juízo da 2ª Vara Criminal de Catanduva, no interior paulista, essa movimentação apressada materializou o periculum in mora (risco concreto de ocultação patrimonial). Este foi o principal fundamento para decretar as buscas e o congelamento dos fundos na Operação Crédito Oculto.
” O periculum in mora é concreto e já se materializou: após a operação, o Banco Genial retirou-se da estrutura e cedeu os créditos, a 7Seven foi ‘desidratada’, os fundos do grupo migraram entre administradoras e os investigados articularam estratégia de desvinculação da distribuidora”, destacou o magistrado.
A Justiça expediu mandados de busca e apreensão contra 27 alvos, sendo 13 pessoas físicas e 14 pessoas jurídicas, além de ter autorizado a apreensão de celulares, computadores, mídias digitais, documentos, arquivos em nuvem, quantias em dinheiro em espécie e bens de luxo sem comprovação de origem lícita.
Os mandados são contra endereços espalhados por sete estados, sendo São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso e Santa Catarina.
O que dizem os envolvidos
As defesas de Roberto Leme e Mohamad Hussein ressaltaram que os dois não foram alvos da operação deflagrada pelo Gaeco nessa quinta-feira e desconhecem os fatos em investigação.
Em nota ao Metrópoles, o Banco Genial esclareceu que Humberto Tupinambá “não integra a Diretoria e não é sócio da instituição desde maio de 2026”. “Todas as informações relacionadas às operações envolvendo o Fundo Radford, inclusive aquelas relacionadas às empresas Berna e Branson Holdings, que estavam em poder da instituição, foram fornecidas pela própria Genial ao Gaeco-SP. Em relação às operações mencionadas, também foram realizadas as comunicações cabíveis ao Coaf”, diz o banco.
O Genial informou, ainda, que ao tomar conhecimento dos fatos, adotou medidas adicionais de governança e controle, “incluindo a instauração de processo de Inspetoria interna, a revisão da governança das operações de crédito, o afastamento do então diretor dos respectivos processos decisórios e sua posterior destituição”.
Após a deflagração da Operação Carbono Oculto, a Genial diz ter renunciado à administração do Fundo Radford e manteve sua postura de colaboração com as autoridades, fornecendo as informações e os documentos solicitados.
A reportagem busca contato com outros citados na investigação. O espaço segue aberto para atualizações.
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Milena Vogado.
