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Tradutores relatam falhas em provas on-line do Cebraspe

Tradutores relatam falhas em provas on-line do Cebraspe
Michael Melo/Metrópoles

Candidatos do primeiro Exame de Aptidão para Tradutores e Intérpretes Públicos (TIPS) 2026 procuraram o Metrópoles para relatar falhas técnicas e operacionais durante as provas aplicadas pelo Centro Brasileiro de Pesquisa em Avaliação e Seleção e de Promoção de Eventos  (Cebraspe).

A instituição executa a prova. O Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte (MEMP), por meio do DREI (Departamento Nacional de Registro Empresarial e Integração), fiscaliza.

À reportagem, os candidatos relataram dificuldades para acessar o sistema da prova, falhas no reconhecimento facial, interrupção no monitoramento e travamentos durante a realização do exame.

As reclamações, no entanto, começaram nos testes obrigatórios do sistema — que aconteceram no dia 6 de junho. A primeira prova oficial foi aplicada em 7 de junho, e a substitutiva foi em 9 de agosto.

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do Metrópoles

Entenda o caso

Já no primeiro exame oficial, aplicado no dia 7 de junho, participantes disseram que parte dos problemas que ocorreram no pré-teste se repetiu.

Em um dos registros de atendimento obtidos pela reportagem, uma candidata informou que a tela travou e ela não conseguia digitar. O chamado foi encaminhado à área de tecnologia. Quando o sistema voltou, o tempo da questão já estava acabando.

Para os participantes, a conta é simples. Os minutos que deveriam ser usados para traduzir e revisar foram gastos tentando fazer a plataforma funcionar.

Há também quem precisou repetir o reconhecimento facial várias vezes, teve a sessão interrompida ou recebeu aviso de que o monitoramento não estava ativo.

A candidata entrevistada afirma que muita gente passou pelos mesmos problemas, mas preferiu não falar. Segundo ela, existe receio de reclamar publicamente e sofrer alguma consequência. Por isso ela também pediu anonimato.

Mesmo assim, a reportagem teve acesso a protocolos, históricos de atendimento, mensagens e capturas de tela. Uma das participantes enviou ao Cebraspe o registro do atendimento e pediu que os logs técnicos fossem preservados.

Eliminações geram dúvidas

Outro ponto que preocupa os candidatos são as eliminações por suposto uso de aplicativos ou softwares.

Relatos recebidos falam de sistemas de monitoramento que identificaram programas no computador. Em um dos casos, uma participante afirma que foi eliminada porque o sistema apontou o AnyDesk, mesmo ela dizendo que não usa o programa desde 2025. Ela conta que entrou depois em um mandado de segurança coletivo com cerca de 40 pessoas.

Dúvidas dos candidatos afetados são objetivas: o que o sistema detectou? O programa estava só instalado ou rodando na hora da prova? Teve análise humana antes da eliminação? O candidato teve acesso ao registro que embasou a decisão?

Em um exame com instabilidade relatada, uma eliminação automática pesa ainda mais.

Sair do sistema eliminava?

Há também relato de orientação dada durante a prova. Segundo a candidata, em alguns casos os participantes foram orientados a sair do sistema para tentar resolver um problema. Ela afirma, ainda, que alguns teriam sido desclassificados automaticamente depois disso.

Um detalhe chamou atenção dos candidatos. O próprio sistema que deveria garantir a segurança da prova dificultou registrar as falhas.

Com o LockDown ativo, ferramentas de captura de tela ficaram bloqueadas. Na primeira aplicação oficial, a candidata conseguiu fazer alguns registros.

Quem precisava provar a falha dentro da plataforma não conseguia gerar a prova dentro da plataforma.

Respostas sumiram?

O salvamento das respostas também foi alvo de reclamação.

Candidatos dizem que precisaram salvar os textos várias vezes. Alguns afirmam que, na tela de conferência, o conteúdo não era exatamente o que tinham digitado. Houve ainda relatos de trechos que desapareceram após desconexão ou travamento.

Problemas voltaram em agosto

Depois de diversas reclamações sobre os mesmos problemas — que ocorreram durante a aplicação do pré-teste e do primeiro exame oficial — o Cebraspe aplicou uma prova substitutiva em 9 de agosto.

Mesmo depois das críticas, candidatos relataram novos travamentos, dificuldade para digitar, falhas no monitoramento e inconsistência no horário de encerramento.

Em um atendimento, uma candidata contou que o ambiente travou. Quando voltou, o tempo da questão acabou logo depois. A preocupação era saber se o tempo perdido seria compensado.

As provas eram equivalentes?

Além da parte técnica, surgiram dúvidas sobre a diferença entre as provas de junho e agosto.

Participantes perceberam variação na extensão e na dificuldade dos textos, inclusive entre idiomas diferentes. Isso não prova, sozinho, que uma prova foi mais difícil. Mas levanta a questão sobre quais critérios o Cebraspe usou para garantir equivalência.

Também é preciso entender como foram definidos tamanho do texto, complexidade e tempo para tradução e revisão.

Orientações e recursos

Candidatos citaram ainda dúvidas nas instruções. Temas como marcação de gênero e número, uso de parênteses e formatação foram mencionados. Uma candidata salvou o documento exibido na tela inicial.

Os problemas não pararam na prova. Houve relato de dificuldade para acessar o sistema de recursos. Em um caso, apareceu a mensagem de que o CPF não estava habilitado. Depois, o Cebraspe reabriu o prazo para recursos sobre o padrão de respostas. Falta saber quantos candidatos tiveram problema para recorrer.

Contrato de R$ 2,2 milhões e fiscalização

O contrato com o Cebraspe vai até dezembro de 2026 e prevê organização, segurança, fiscalização e correção de falhas.

A reportagem questionou quanto já foi pago, quanto foi gasto com tecnologia e qual foi o custo da aplicação de agosto. Também perguntou se houve notificação, multa ou glosa após os problemas de junho.

E os registros?

O exame gera logs de acesso, imagens, registros de monitoramento, atendimentos e dados das eliminações.

Perguntamos ao Cebraspe e ao MEMP por quanto tempo esses dados ficam guardados, quem tem acesso e se o candidato pode pedir as informações da própria prova. Esses registros são essenciais para separar um caso isolado de uma falha mais ampla.

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O que dizem Cebraspe e MEMP

Cebraspe e MEMP foram procurados.

Em nota enviada ao Metrópoles, o MEMP afirmou que o Exame TIPS foi estruturado em conformidade com a legislação vigente.

A pasta informou ainda que a execução técnica do certame foi contratada com o Cebraspe, mas que, até o momento, nenhum pagamento foi autorizado.

Sobre os relatos de candidatos a respeito da aplicação das provas, o ministério disse acompanhar a situação junto à banca.

Também afirmou que a fiscalização do contrato está em andamento para apurar eventuais intercorrências e garantir a lisura do processo, sem custos adicionais para a pasta.


Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Álvaro Luiz.

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