O time Enactus da Universidade de Brasília (UnB) conquistou o primeiro lugar em duas categorias do Evento Nacional Enactus Brasil (Eneb) 2026 com o projeto Karambu, desenvolvido com o Quilombo Mesquita. A iniciativa venceu o Prêmio Marqueterie de Comunicação e a categoria do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 10, voltada à redução das desigualdades.
O Eneb é o maior evento da Enactus Brasil, parte de uma organização internacional presente em mais de 30 países que impulsiona o protagonismo universitário por meio do empreendedorismo social. Neste ano, entre 133 times e 176 projetos, o Karambu se destacou pelo impacto direto no coletivo de mulheres da comunidade quilombola.
Durante o diagnóstico realizado com a comunidade, os estudantes identificaram um problema recorrente: o coletivo de mulheres do quilombo produzia cerca de 4 mil ovos caipiras por semana, mas enfrentava dificuldades para comercializar toda a produção, o que gerava desperdício e prejuízos financeiros.
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Para solucionar o problema, o Projeto Karambu atuou em duas frentes:
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- Comercialização direta: conectou as produtoras a feiras, universidades e o público. A garantia de compras recorrentes criou uma fonte de renda estável e autônoma.
- Economia circular: desenvolveu uma tecnologia de bioinsumo fertilizante que aproveita integralmente os ovos que seriam descartados. O produto é voltado para o enriquecimento do solo e ações de reflorestamento no Cerrado.
Segundo Elisangela, integrante do coletivo de mulheres, a parceria trouxe impactos imediatos. “Foi muito bom, porque quando começou a não escoar mais, tivemos dificuldade para comprar a alimentação das galinhas. Depois que vocês vieram e passaram a comprar os nossos ovos, conseguimos manter a criação, comprar a ração e também utilizar o dinheiro para ajudar na renda da família.”
Esse impacto sustentável garantiu a vitória no ODS 10 (Redução das Desigualdades), além de dialogar com os ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável) e ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis).
Já a vitória no Prêmio Marqueterie de Comunicação reconheceu o trabalho desenvolvido para registrar e preservar a memória do território. A equipe produziu um acervo composto por fotografias, vídeos, áudios e textos que documentam práticas culturais, saberes ancestrais e a relação da comunidade com o Cerrado.
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Por que trabalhar com o quilombo?
A aproximação entre a Enactus UnB e a comunidade começou após pesquisas sobre comunidades tradicionais do Distrito Federal e Entorno. Durante três meses, estudantes participaram de eventos culturais, realizaram visitas frequentes e conheceram o coletivo de mulheres do Quilombo Mesquita.
A gerente do projeto Karambu e diretora de comunicação da Enactus UnB, Júlia Beda, explicou ao Metrópoles que o grupo percebeu que os desafios da comunidade iam além das questões econômicas. “Tínhamos a certeza de que queríamos trabalhar com o resgate da memória dessa comunidade, que ao longo dos anos foi reduzida a um apagamento histórico que vinha prejudicando sua cultura e território”, contou.
“Conforme caminhamos junto a comunidade, buscamos coletar a partir da escuta, novas informações baseadas em oralidade geracional, entendendo como cada família ali presente, carrega as histórias de participação de seus ancestrais na construção de Brasília e como isso se estrutura dentro de seus costumes”, contou Júlia.
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O time Enactus da Universidade de Brasília (UnB) conquistou o primeiro lugar em duas categorias do Evento Nacional Enactus Brasil (Eneb) 2026 com o projeto Karambu, desenvolvido com o Quilombo Mesquita
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Mais do que criar soluções para geração de renda, o projeto busca resgatar a história do Quilombo Mesquita, comunidade que participou diretamente da construção de Brasília, mas cuja contribuição permaneceu, durante décadas, pouco conhecida
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Durante três meses, estudantes participaram de eventos culturais, realizaram visitas frequentes e conheceram o coletivo de mulheres do Quilombo Mesquita
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O diagnóstico realizado com a comunidade identificou um problema recorrente: o coletivo de mulheres do quilombo produzia cerca de 4 mil ovos caipiras por semana, mas enfrentava dificuldades para comercializar toda a produção
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O Karambu passou, então, a facilitar a comercialização direta desses ovos, conectando as produtoras a feiras, universidades e mercados urbanos, o projeto criou uma fonte de renda mais estável para o coletivo
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Além disso, a equipe desenvolveu uma tecnologia de bioinsumo fertilizante produzida a partir do aproveitamento integral dos ovos que seriam descartados. O produto é destinado ao enriquecimento do solo e a ações de reflorestamento do Cerrado
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O projeto está na fase final de validação do bioinsumo e pretende iniciar a comercialização do fertilizante ecológico nos próximos meses, ampliando as possibilidades de geração de renda e de recuperação ambiental no Cerrado
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Quilombo Mesquita
Mais do que criar soluções para geração de renda, o projeto buscou resgatar a história do Quilombo Mesquita, comunidade que participou diretamente da construção de Brasília, mas cuja contribuição permaneceu, durante décadas, pouco conhecida.
Localizado a cerca de 8 quilômetros da atual Cidade Ocidental, próximo a Luziânia (GO), o Quilombo Mesquita forneceu alimentos e apoio logístico aos trabalhadores que ergueram a nova capital.
Segundo o livro Quilombo Mesquita – História, Cultura e Resistência, de Manoel Barbosa Neres, moradores da comunidade abasteciam os candangos com frutas, verduras, doces, leite e derivados.
Um dos principais personagens dessa história foi Sinfrônio Lisboa da Costa, falecido em 2015. Ele participou das primeiras etapas da construção de Brasília e relatou sua experiência em um depoimento gravado pela jornalista Daiane Souza.
“Nós fomos abrir as primeiras cantinas para quando chegassem os candangos. Ficamos um mês trabalhando, bandeirando a área. Fomos os primeiros trabalhadores da construção. Quando terminamos essa etapa, fizemos as repartições — cozinhas, hospedagens e escritórios. Então começaram a chegar os trabalhadores.”
De acordo com registros históricos, Costa também hospedou o presidente Juscelino Kubitschek e o engenheiro Bernardo Sayão em sua casa, transformando o quilombo em um importante ponto de apoio durante a construção da capital.
Luiza Marques do Valle, presidente da Enactus UnB, relata que o resgate histórico foi o ponto de partida de tudo.
“Foi conhecendo essa história que passamos a construir uma relação do projeto com a comunidade. Aliás, esse foi o primeiro passo: entender o passado e conhecê-lo o mais a fundo possível para que pudéssemos começar a construir algo que gerasse valor para o futuro”.
Vindo de Minas Gerais para estudar na UnB, Rhauender Mota, gerente do projeto Recalcário (desenvolvido pelo mesmo time), pontua que não conhecia a comunidade até entrar na organização. “O Karambu me mostrou a importância do quilombo e suas contribuições para Brasília e para os saberes tradicionais”, afirma.
A percepção é compartilhada por Raissa Brito, analista financeira do projeto Karambu. Para ela, o trabalho em campo revelou a profundidade do território quilombola.
“Aprendi que o território vai muito além de um espaço físico: ele faz parte da identidade, da história e da resistência das mulheres da comunidade. Preservar esse território é preservar a herança cultural, a ancestralidade e os saberes transmitidos entre gerações”, ressalta.
Próximos passos
O projeto está na fase final de validação do bioinsumo e pretende iniciar a comercialização do fertilizante ecológico nos próximos meses, ampliando as possibilidades de geração de renda e de recuperação ambiental no Cerrado.
Segundo a coordenação, o principal desafio agora é captar apoio institucional, firmar parcerias com centros de pesquisa e atrair investidores para fortalecer as etapas de produção e logística.
“Nossa missão é mostrar que o Cerrado permanece em pé porque existem pessoas que aprenderam a viver com a terra, e não contra ela”, conclui a gerente do projeto.
A população pode acompanhar o trabalho do Karambu e apoiar a iniciativa por meio do perfil oficial do projeto no Instagram, onde também são divulgadas informações sobre a comercialização dos ovos e, futuramente, do bioinsumo.
Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Ana Clara de Lima.

