17 de junho de 2026

Queda de audiência do horário eleitoral levanta discussão sobre fim da propaganda na TV

Queda de audiência do horário eleitoral levanta discussão sobre fim da propaganda na TV

A audiência do horário eleitoral está menor este ano do que em 2016, quando houve a última disputa municipal. De acordo com dados do Kantar Ibope Media, há quatro anos, 39,48% dos domicílios sintonizaram o programa. Agora, são 33%, seis pontos a menos, o que significa uma perda de 16% de espectadores. Os números levantam uma discussão sobre a reformulação do formato com a defesa, inclusive por parte de profissionais de marketing político, do fim dos blocos de propaganda.

O levantamento do Ibope considerou a média de audiência dos blocos de propaganda do início da tarde e da noite de 9 a 29 de outubro deste ano em comparação com 26 de agosto e 15 de setembro de 2016, nas 15 principais regiões metropolitanas do país. A eleição municipal anterior foi realizada em outubro. O Ibope ressalta que mudança de data da eleição deve ser considerada para a análise da variação de audiência.

Os programas eleitorais dos candidatos a prefeito são exibidos em dois blocos diários de 10 minutos, às 13h e às 20h30m, de segunda a sábado. Além disso, ainda há 70 minutos diários, inclusive aos domingos, reservados para inserções de 30 e 60 segundos durante a programação de candidatos a prefeito e a vereador.

Responsável em disputas passadas pela comunicação de campanhas ao governo da Bahia de Jaques Wagner (PT) e Rui Costa (PT) e também de candidatos de outros partidos, Sidônio Palmeira entende que os blocos de programas teriam de acabar e a propaganda eleitoral deveria se dar apenas nas inserções, que possuem muito mais efetividade:

— Defendo que acabem os programas, que são os que têm mais gastos e menor audiência. O retorno disso é muito pequeno para o gasto que se tem. O certo seria manter só as inserções.

Para Palmeira, os gastos com comunicação das campanhas políticas poderiam ser reduzidos em cerca de 50% sem os blocos de programas.

— Não conheço outro lugar do mundo que tem esse horário eleitoral gratuito (com blocos de propaganda). Em vez de ajudar, termina distanciando até o político porque fica uma coisa chata — afirma.

O profissional de comunicação, que rejeita o rótulo de marqueteiro, afirma que pesquisas qualitativas feitas por campanhas que já participou mostram que os programas têm apenas 20% do alcance das inserções.

— A inserção a pessoa assiste naturalmente. Não há nenhuma perda objetiva de informação se tirarmos os programas. Haveria um ganho do ponto de vista econômico e de imagem das eleições. A propaganda eleitoral não precisa ser tão invasiva.

Cientista político e professor da Universidade Federal do Paraná, Sérgio Braga concorda com Sidônio.

— A propaganda teria que ser mais dinâmica e compatível com os novos tempos. Precisava ser menos estático. As inserções tem um impacto muito maior. Essa coisa de enfileirar os partidos todos ao mesmo tempo acho que traz para o eleitor dificuldade de saber quem está falando.

Braga afirma que estudos mostram que ao longo do anos a televisão vai perdendo a importância para a internet. Ele acredita que para compensar o fim dos programas o número de inserções poderia aumentar.

— O programa é um formato mais desgastado. Acaba sendo a hora que a pessoa sai da televisão para fazer outra coisa — disse.

Candidato a presidente da República pelo Novo em 2018, João Amoêdo defende o fim completo da propaganda eleitoral, inclusive das inserções:

— Por princípio defendo que o horário eleitoral, dito gratuito, fosse extinto. É custo para o cidadão com muito pouco retorno. Com os debates, com interesse das emissoras e da imprensa pelas candidaturas e com o enorme crescimento das mídias sociais já há muita fonte de informação.

Apesar de nem os partidos nem a Justiça Eleitoral pagarem pela veiculação da propaganda no rádio e na televisão, os programas geram custos porque as emissoras podem abater do Imposto de Renda a quantia que arrecadariam com comerciais tradicionais que seriam exibidos no horário do programa dos candidatos. A estimativa é que a renúncia fiscal para a exibição da propaganda eleitoral este ano seja de R$ 538 milhões.

— Defendo que os gastos, com a renúncia fiscal, deveriam ser priorizados para outras áreas mais relevantes para o cidadão — completa João Amoêdo.

Pesquisa do Datafolha realizada no mês passado mostrou que 49% dos eleitores de São Paulo afirmaram não ter interesse no horário eleitoral gratuito dos candidatos a prefeito exibido na TV. Outros 33% têm um pouco de interesse e 17% afirmaram possuir grande interesse.

 

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O Globo