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Chineses vencem maior lote do megaleilão de transmissão de energia, e Eletrobras fica fora

Por Redação 16/12/2023 14:12 Atualizado em 16/12/2023 14:12
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Os chineses da State Grid foram os protagonistas do maior leilão de transmissão de energia realizado no país, nesta sexta-feira, na B3, em São Paulo. Eles arremataram sozinhos o lote 1, o maior dos três blocos licitados, com investimentos estimados em R$ 18,1 bilhões, 83% do total de R$ 21,7 bilhões previstos para todos os lotes. A concessão tem prazo de 30 anos.

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Analistas apontavam a Eletrobras como forte concorrente pelo alto volume de investimentos necessários, mas a companhia nem chegou a entrar na disputa por esse lote. Privatizada, a companhia fez propostas apenas para os lotes 2 e 3, mas acabou sendo superada pelos concorrentes e não arrematou nenhum deles.

O leilão foi considerado um sucesso por especialistas, embora tenha tido baixa concorrência pelo elevado volume de investimentos requeridos. O certame terminou com um deságio médio de 40,85% sobre a máxima Receita Anual Permitida (RAP) de R$ 3,8 bilhões.

A RAP é o valor anual a ser recebido pelas empresas pela prestação dos serviços, e esse montante é pago pelos consumidores, uma vez que está embutido na conta de luz.

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Com o desconto oferecido pelos chineses (39,90%), serão pagos por ano, somando os três lotes, R$ 2,28 bilhões às empresas, o que representa uuma redução de cerca de R$ 1,5 bilhão em relação ao valor máximo. Ao longo dos 30 anos, a economia para o consumidor final será da ordem de R$ 37,9 bilhões.

O RAP do lote 1, o maior de todos era, de R$ 3,2 bilhões e a State Grid fez um lance de R$ 1,9 bilhão. Vencia a disputa quem oferecesse o maior desconto sobre a RAP máxima estabelecida pelo edital.

100 anos em um, diz presidente da Aneel

 

O presidente da Aneel, Sandoval Feitosa, afirmou que esse expressivo deságio vai permitir uma expressiva economia para o consumidor brasileiro na conta de luz. Ele disse que com mais esse leilão, além do realizado em junho passado e o que vai acontecer em março de 2024, o país reconfigura seu sistema de transmissão de energia, com mais de 17 mil km de novas linhas.

— São 10% de todo o sistema de transmissão. Em menos de um ano contratamos mais do que levamos cem anos para construir — afirmou ele, reafirmando que a região Nordeste é a jova fronteira de energia renovável do país.

Também fizeram propostas pelo lote 1 a Cymi, Construções e Participações e Consórcio Olympus, formado por Aluar e Mercury Investiments.

Megaleilão de energia — Foto: Editoria de arte

‘Não somos aventureiros’

Ramon Haddad, vice presidente da State Grid Brazil, lembrou que este também foi o maior leilão do qual a empresa já participou. Ele afirmou que a proposta oferecida pelo lote 1, com elevado deságio, foi muito estudada e permite que a empresa consiga implementar o novo sistema de transmissão no país.

Haddad observou que os recursos a serem investidos são de responsabilidade da State Grid no Brasil, e que já estão sendo estudados vários formatos de financiamento. Mas ele admitiu que qualquer movimento dos controladores chineses para ajudar na captação de recursos são bem vindos.

— Não somos aventureiros. Esse foi o deságio possível para conseguirmos a implementação dessa tecnologia — afirmou.

Ele disse que a proposta da empresa no Brasil é de longo prazo e, mesmo com o elevado investimento previsto no lote 1, a companhia mantém interesse no novo leilão de transmissão que será realizado em março de 2024.

A State Grid foi ao leilão na B3 com uma comitiva de mais de 70 pessoas e comemorou com muito barulho a vitória do maior lote do leilão.

Já na disputa pelos outros dois lotes, chamou a atenção o fato de a Eletrobras não ter levado nenhum deles.

O lote 2 foi vencido pelo Consórcio Olympus, composto por Alupar e Mercury Investiments. O consórcio ofereceu R$ 239,5 milhões, deságio de 47% sobre RAP máxima de R$ 451,9 milhões. O lote também recebeu propostas da Eletronorte (subsidiária da Eletrobras) e Mercury Investiments e FIP Warehouse

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, participa do megaleilão de transmissão de energia na B3 — Foto: Divulgação

O lote 3 foi o único a ir para a disputa viva-voz entre a espanhola Celeo Redes Brasil e a Eletrobras. Saiu vencedora a Celeo com lance de R$ 101 milhões, deságio de 42,39% em relação à RAP de R$ 175,6 milhões.

O ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira, presente ao evento, afirmou que o sucesso do leilão mostra que o Brasil voltou a dialogar com o mundo e que ele acredita na política de busca de soluções para a sociedade entre o setor privado e público. Ele disse que só este ano foram contratados quase R$ 40 bilhões em investimentos em linhas de transmissão no país.

— Os investimentos têm impacto positivo nos cinco estados onde as linhas serão instaladas e com isso estamos construindo os degraus para garantir energia limpa e renovável para todo o país, especialmente a produzida no Nordeste — disse o ministro citando versos do poeta cearense, Patativa do Assaré.

Novas linhas em cinco estados

Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) , os lotes licitados preveem a construção de nove empreendimentos em cinco estados – Goiás, Maranhão, Minas Gerais, São Paulo e Tocantins. Os prazos de construção variam entre 60 e 72 meses, e a expectativa é de geração de 36,9 mil empregos.

Ao todo, foram licitados 4.471 km em linhas de transmissão para construção, manutenção e operação, sendo 3.007 km de novos linhões e seccionamentos e de 9.840 megawatts (MW) em capacidade de conversão nas subestações.

Tecnologia inovadora

O lote 1, vencido pelo chineses, prevê a construção de 1.513 km de novas linhas de transmissão em corrente contínua e manutenção de outros 1.468 km, atravessando três estados (Maranhão, Tocantins e Goiás). O prazo de conclusão para este lote será de 72 meses, o mais longo já concedido pela Aneel, devido ao porte e à complexidade da obra.

O lote 1 também prevê o uso da tecnologia bipolo, que é nova no Brasil e tem ultra-alta tensão de 800 kV, permitindo o transporte de energia com redução de perdas. No mundo, há apenas quatro fabricantes que oferecem a tecnologia de conversores de corrente contínua em alta tensão, conhecido como “HVDC”.

No Brasil, essa novidade só é utilizada em Belo Monte e operada pela chinesa State Grid num linhão que conecta a hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, ao Rio de Janeiro. Antes disso, o Brasil utilizava a tensão de 600kV nos sistemas de transmissão em corrente contínua.

O lote 2 soma 1.102 km de linhas em Goiás, Minas Gerais e São Paulo e demanda investimentos de R$ 2,5 bilhões. O lote 3 tem 388 km de linhas em São Paulo e requer investimentos de R$ 1 bilhão.

As assinaturas com as empresas vencedoras devem ocorrer em março de 2024.

Saldo é positivo

 

Para Filipe Bonaldo, sócio-diretor da A&M Infra, como era esperado, o primeiro lote teve pouca competição, mas o deságio foi bom. Ele avalia que os chineses têm todas as condições de implementar um projeto dessa magntidude. Nos demais lotes, o deságio ficou próximo de 45%, com players tradicionais.

— Foi um leilão previsível, já que o mercado sabia quem ia entrar e qual seria o deságio esperado. Ainda assim, o deságio foi bom e mostra como o setor é maduro e como a Aneel tem estrutura para oferecer segurança jurídica e atrair investidores internacionais. Estamos passando por um ciclo amplo de projetos de transmissão e muitos players ficam com capacidade de investimento limitada. Isso deverá acontecer no leilão de março e no segundo do próximo ano. As companhias vão ser mais seletivas —analisa.

André Fonseca, chefe de M&A da Thymos Energia, avalia que a concessão de novos lotes de transmissão ajuda a melhorar a segurança e confiabilidade do sistema brasileiro, além de expandir a capacidade de escoamento da energia renovável do Nordeste para as demais regiões do país.

Para João Paulo Pessoa, advogado especialista em direito público e sócio do Toledo Marchetti Advogados o leilão, apesar de não ter contado com um número expressivo de participantes, o que já era esperado pelo mercado por conta dos elevados investimentos, foi um sucesso porque comercializou todos os lotes e com deságios expressivos.

— Muitas empresas que não participaram estão focadas na implementação dos projetos já leiloados e algumas olhando para o próximo leilão em 2024 — afirmou.

A advogada e especialista em infraestrutura do escritório Vernalha Pereira, Aline Klein, avaliou que o alto volume de investimentos limitou o número de concorrentes. A complexidade dos projetos que demandam muita mão de obra em várias regiões do país, em um curto espaço de tempo, também restringiu o número de participantes.

— Ficou confirmado que o elevado valor de investimentos é um fator de restrição da concorrência. Mesmo assim houve competição e o deságio foi significativo — afirmou Aline.

Ampliação da capacidade de interligação

Com esse megaleilão, o governo vai ampliar a capacidade da interligação entre as regiões Nordeste e Centro-Oeste do país para escoar os excedentes de energia do Nordeste (caso do lote 1) e expansão das interligações regionais e da capacidade de escoamento de energia da região Norte/Nordeste, que tem vários projetos de geração solar e eólica.

No primeiro leilão de transmissão deste ano, realizado em junho passado, a Aneel licitou 9 lotes que somam R$ 15,7 bilhões em investimentos. Houve sete empresas vencedoras e a disputa foi acirrada na maioria dos lotes, com participação de grandes players do setor elétrico e novos entrantes.

Por O GLOBO

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