9 de junho de 2026

Geoglifos do Acre podem se tornar Patrimônio Mundial e impulsionar turismo na região

Geoglifos do Acre podem se tornar Patrimônio Mundial e impulsionar turismo na região

Misteriosas figuras geométricas esculpidas no solo há mais de dois mil anos, os geoglifos do Acre despertam fascínio e curiosidade. Compostos por círculos, quadrados e octógonos, esses desenhos milenares, espalhados pelo estado, podem receber reconhecimento internacional como Patrimônio Mundial da Unesco, consolidando seu potencial turístico.

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Atualmente, mais de mil geoglifos já foram identificados na região, mas apenas 462 foram oficialmente registrados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Em 2018, o geoglifo do Sítio Arqueológico Jacó Sá foi tombado como patrimônio cultural do Brasil, destacando-se entre os mais estudados.

Descobertas e relatos locais

O Sítio Arqueológico Jacó Sá, localizado próximo a Rio Branco, foi descoberto por moradores que inicialmente acreditavam que as formações eram naturais. Edmar Queiroz, filho de Jacó Sá e atual proprietário da área, lembra do momento em que percebeu as estruturas no solo.

“Cheguei aqui aos 9 anos, e hoje estou com 75. Quando limpamos a terra para o plantio, vimos essas valas, mas não faziam sentido para nós. Pensávamos que era obra da natureza”, conta.

A real importância do local só foi revelada anos depois, quando o professor Alceu Ranzi, da Universidade Federal do Acre (Ufac), sobrevoou a região e identificou os padrões geométricos. “Ele veio pessoalmente no dia seguinte para investigar e encontrou várias outras estruturas semelhantes”, explica Edmar.

Outros proprietários de terras na região também descobriram geoglifos ao limpar terrenos para cultivo. Raimundo da Silva, conhecido como “Tequinho”, percebeu a presença de uma dessas formações ao preparar sua terra para plantação. O sítio arqueológico em sua propriedade se tornou referência para pesquisas e turismo, atraindo visitantes do Brasil e do exterior.

Outro caso notável é o de Severino Calazans, de 103 anos, proprietário de um sítio arqueológico cortado pela BR-317. Ele recebe turistas frequentemente e reforça a importância da preservação: “Sempre trato bem os visitantes e peço que respeitem a estrutura. Ninguém sabe ao certo para que serviam os geoglifos, mas o mistério nos instiga”, comenta.

Importância histórica e preservação

Stênio Cordeiro, superintendente do Iphan no Acre, ressalta que a preservação dos geoglifos é essencial para a compreensão da ocupação humana na Amazônia. “O tombamento do Sítio Jacó Sá teve um caráter representativo, com o objetivo de proteger esse patrimônio. Além do valor histórico, os geoglifos têm um enorme potencial turístico, gerando emprego e renda para a população local”, explica.

Dos 462 geoglifos catalogados, 56 estão em Rio Branco. No entanto, muitos ainda aguardam registro, principalmente por estarem em áreas de difícil acesso dentro da floresta. A expectativa é que o reconhecimento pela Unesco amplie a visibilidade dos sítios arqueológicos e fortaleça sua preservação.

O que dizem os pesquisadores?

Antônia Barbosa, arqueóloga do Iphan no Acre, afirma que os geoglifos foram projetados para serem vistos do alto, possivelmente para rituais e cerimônias. “Sabemos que não eram estruturas defensivas nem habitações. A teoria mais aceita é que serviam para eventos religiosos e cultos. Os formatos geométricos e o tamanho impressionante reforçam essa hipótese”, explica.

Pesquisas etnográficas também indicam que algumas comunidades indígenas atuais consideram esses locais sagrados e evitam entrar neles. Além disso, os estudos mostram que os geoglifos foram construídos há pelo menos 2.500 anos, em áreas planas e afastadas de rios, o que descarta o uso para plantio ou moradia.

Ainda há questionamentos sobre como essas estruturas foram feitas sem ferramentas modernas. A hipótese mais provável é que os povos antigos usavam instrumentos de madeira para escavar o solo e criar as valetas que formam os desenhos.

Geoglifos e o turismo

Os sítios arqueológicos do Acre já atraem muitos visitantes, especialmente estrangeiros. “Os turistas se encantam com a grandiosidade dessas estruturas e questionam como foram construídas no meio da floresta”, relata Antônia Barbosa.

O reconhecimento pela Unesco pode impulsionar ainda mais o turismo na região. Em outubro, a série Ancient Apocalypse, da Netflix, destacou a importância dos geoglifos, aumentando o interesse pelo tema. A Secretaria de Estado de Turismo e Empreendedorismo (Sete) promoveu debates sobre a preservação desses sítios e seu potencial econômico.

Marcelo Messias, secretário da Sete, destaca que os geoglifos são um convite para conhecer o passado da Amazônia. “Eles representam um legado da humanidade e oferecem oportunidades para turismo sustentável, geração de empregos e preservação cultural”, afirma.

Geoglifos próximos a Rio Branco abertos à visitação

Para quem deseja conhecer os geoglifos, algumas estruturas podem ser visitadas com relativa facilidade:

  • Geoglifo Baixa Verde II: Localizado a 28 km de Rio Branco, na BR-317, tem formato quadrado com trincheiras de 14,7m de largura e 1,5m de profundidade.

  • Geoglifo Severino Calazans: Situado a 4,5 km do Baixa Verde II, também na BR-317, possui um quadrado de 230m de lado e trincheiras de 12m de largura.

  • Geoglifo Jacó Sá: Um dos mais famosos, a 8 km do Severino Calazans, é composto por dois quadrados e um círculo.

  • Geoglifo Tequinho: Conhecido internacionalmente, fica 11 km à frente do Jacó Sá, acessível pela Vila Pia, e apresenta dois grandes quadrados com trincheiras triplas.

Com o avanço das pesquisas e o possível reconhecimento pela Unesco, os geoglifos do Acre se consolidam como um dos mais importantes vestígios arqueológicos da Amazônia, unindo história, cultura e turismo.

Via Agência de Notícias do Acre.