24 de junho de 2026

Hereges de ontem e de hoje (por Gaudêncio Torquato) 

Hereges de ontem e de hoje (por Gaudêncio Torquato) 
Hereges de ontem e de hoje (por Gaudêncio Torquato) 

Em 1376, um dominicano, Nicolau Eymerich, nascido em Gerona, reino da Catalunha e Aragão, fez um manuscrito, chamado de Manual dos Inquisidores, que é um relato da crueldade da igreja nos tempos da Inquisição. 50 anos depois de Gutemberg ter inventado a prensa de impressão com tipos móveis (1503), o manuscrito foi impresso em Barcelona, na Espanha.

Trata-se de uma minuciosa coletânea a respeito do conceito de heresias, a lógica inquisitorial, os truques, a pressão dos inquisidores, os indícios para reconhecimento dos hereges, entre outras coisas.

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Para se ter uma ideia do escopo do livro, selecionamos alguns truques dos hereges para responderem aos inquisidores sem confessar. O primeiro consiste em responder de maneira ambígua: “pode ter acontecido, pode não ter acontecido; não me lembro, mas é possível que tenha sido assim”. O segundo truque consiste em responder acrescentando uma condição: “se minha conversa foi gravada, então, conversei”. O terceiro truque consiste em se fingir de surpreso: “puxa, não sabia disso”. O quarto truque consiste numa autojustificação: “como eu vivia viajando, não pude participar das reuniões”. O quinto truque consiste em fingir demência ou súbita debilidade física: “eu não respondi à pergunta que o senhor me fez na reunião passada porque passei mal, minha pressão arterial baixou”.

Alguns políticos brasileiros são conhecidos por sua matreirice na técnica da entrevista. Respondem apenas aquilo que querem. O modelo mais citado para este caso é o ex-governador e ex-prefeito de São Paulo, Paulo Maluf. É conhecido pela arte de dizer o que não foi perguntado e não dizer o que todos querem ouvir.

Jânio Quadros, por sua vez, era perito na arte de se fazer de surpreso. Perguntado por Leon Eliachar se o oval da Esso é mesmo oval ou aval, Jânio se toma de surpresa e arremete: “sugiro-lhe, amistosamente, uma consulta a qualquer psicanalista. O Brasil é tão mencionado nesse seu questionário, quanto a Esso”. Foi uma tremenda gozação. E diante da pergunta: “qual será seu slogan, 50 anos em 5 ou 5 anos em 60”? Jânio não hesita: “50 anos em 5, mais o pagamento dos atrasados”.

O truque de mudar as palavras das perguntas tem sido comum no meio político. Ao político, é perguntado algo assim: “o senhor vai dizer tudo que sabe aos Procuradores”? E ele responde: “quem diz a verdade, tem tudo a seu favor. Quem não deve, não teme”. O truque de deturpar as palavras é usual. Exemplo: “o sr. acredita que o relatório do Banco Central não vai condená-lo?” Resposta: “o relatório pode ser uma peça de condenação ou de inocência. Se não comprova nada sobre minha pessoa, sou inocente. Quem me condena não é o Banco. É a imprensa”.

O truque da autojustificação, na área política, é uma espécie de artimanha que procura encobrir a verdade: “o senhor favoreceu fulano de tal, que tem uma grande folha corrida no campo da corrupção”. E o político responde: “sou uma pessoa que acredita nos outros; sou de boa-fé, sempre procurei ajudar. Se alguém utilizou de minha boa-fé, certamente não foi com minha aprovação. Se soubesse que fulano era corrupto, não teria lhe dado ajuda”.

Nos grandes inquéritos, nos depoimentos nas Cortes Judiciais e nas CPIs de impacto, depoentes conseguem, frequentemente, driblar os interrogadores.

Pois bem, assistimos, nos últimos dias, a um jogo com muitos dribles entre interrogados e interrogadores no campo de uma Corte Judicial. O centroavante, na linha do ataque, fustigou com muita habilidade um time de oito jogadores. Foi um jogo muito disputado.

Deixemos a metáfora de lado.

O depoimento de alguns réus da trama golpista do 8 de janeiro na 1ª Turma do STF, dado na última terça feira, traz à tona os truques dos hereges descritos pelo dominicano Nicolau Eymerich. Assistimos a uma sessão recheada dos advérbios “não, talvez, sim”, sob a sombra de lembranças tardias e amnésias seletivas. O tenente coronel, Mauro Cid, parecia amnésico ao responder ao ministro-relator, Alexandre de Moraes, esquecendo eventos e situações de alta significação, como entrega de uma caixa com dinheiro ao general Braga Netto; desconhecimento de conversas que ele mesmo teve com generais; autojustificação (em um depoimento anterior, deixara de responder a uma pergunta do ministro Alexandre porque sua pressão arterial baixara; ou não tomara conhecimento por estar viajando. Noutras vezes, dava respostas ambíguas (“não me lembro, mas pode ter sido assim”).

O ex-presidente Jair Bolsonaro usou o mesmo método: respostas ambíguas; negação de fatos (edição da minuta do golpe, negação de ação contra a Constituição); desculpas por ter se excedido na acusação de que o ministro Alexandre e outros ministros do STF terem recebido dinheiro.  Fez até chiste.

Mesmo tentando ser o Bolsonaro “paz e amor”, será difícil que o STF o inocente por suas práticas contra o Estado Democrático de Direito.

 

Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista e professor emérito da ECA-USP