21 janeiro 2026

Não existe banheiro em SP

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No auge da violência do cartel de Pablo Escobar, a cidade de Medellín, na Colômbia, atingiu cerca de 400 assassinatos por 100 mil habitantes em um ano. Como comparação, São Paulo teve 5 homicídios por 100 mil em 2024. Os corpos tombaram como folhas secas no outono e um rio de sangue tomou o  município.

Pablo Escobar morreu em 1993. A partir dos anos 2000, sucessivos prefeitos, não importava a legenda, adotaram políticas públicas que são exemplo em todo mundo. Desabaram sobre as periferias investimentos em infraestrutura social, bibliotecas, parques, programas educacionais, transporte público eficiente. Grande parte do orçamento para a Educação e a Cultura –  o hip-hop e o grafite se transformaram em orgulho e identidade. Vinte anos depois, a taxa de homicídios caiu para 19 a cada 100 mil. E qual foi uma das primeiras ações da nova gestão? Construir e manter banheiros públicos limpos, com módulos sanitários móveis no Centro. Quem contou essa história foi Célio Turino, historiador e idealizador dos Pontos de Cultura, durante uma palestra no Sesc.

Tornou-se um clássico o filme de Wim Wenders, “Dias Perfeitos”. O cotidiano estoico de Hirayama (Koji Yakusho) cativou parte de uma classe média ocidental ansiosa por sentido, carente de introspecção, ameaçada por falsas urgências fúteis. Frente ao desencanto do mundo, limpar banheiros com rigor e atenção, saborear as belezas da rotina e cultivar a fotografia foi um bálsamo para pessoas que, ao mesmo tempo, desprezam e exploram esses trabalhadores. Ninguém sonha esfregar privadas, mas sim passar um fax em Tóquio.

Não há essa preocupação em São Paulo. Rareiam banheiros públicos na cidade. É uma metrópole que sobrevive dos botecos. São eles que salvam na hora do aperto. Sintoma disso são perfis nas redes sociais que mostram os melhores banheiros da cidade: shoppings, hotéis, cinemas, centros culturais, a absoluta maioria de lugares privados. Há salva-vidas em algumas estações de metrô – não em todas – terminais de ônibus, parques e só. Pesquise no google quantos  banheiros públicos existem na sua cidade.

Essa ausência só escancara, uma vez mais, a política higienista comum a todas as prefeituras paulistanas. Na região central, por exemplo, seriam as pessoas em situação de rua as mais beneficiadas.  Há dois anos, o então subprefeito da Sé, coronel Alvaro Camilo, disse à Folha de São Paulo que o tema está sendo estudado e “o que acontece com banheiro público é vandalismo, uso inadequado e consumo e tráfico de drogas. É muito difícil. As pessoas não têm sentimento de pertencimento e não cuidam do espaço adequadamente”.

Pertencimento? A ausência de algo tão básico mostra como o direito à cidade é restrito, que o espaço público não é para todos, destinado à circulação e o consumo. Mas, sempre haverá um boteco para aliviar as angústias do corpo. Se comprar alguma coisa, está liberado o uso. Se não comprar, é preciso pedir e depender do humor do funcionário. Se ele não for com a sua cara, aí não há alternativa. É correr para qualquer lado.

 

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