9 de julho de 2026

Espetáculo aborda o medo e a realidade de quem convive com o vírus HIV

Marcada para o dia 3 de outubro, no Espaço de Convivência do Teatro Vivo em São Paulo, a estreia de “Um Pequeno Incidente”, dirigida por Marco Antônio Pâmio e protagonizada por Rafael Primot e José Pedro Peter. A peça tem como proposta abordar “de maneira sensível, o medo e a realidade em torno de quem convive com o vírus HIV”.

A história sobre dois homens, na faixa dos 35 a 40 anos e de personalidades bem diferentes, que estão aguardando na área de espera de um centro de atendimento do SUS, os seus respectivos resultados de teste rápido.

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Este encontro, ao acaso, unirá os dois de uma forma inesperada e criará um laço entre eles por toda a vida. O ano de 2025 marca os 40 anos do início do combate a Aids no Brasil. A seguir, uma conversa com Rafael Primot:

Por que se fala tão pouco sobre a AIDS atualmente nos palcos e nas produções do audiovisual? Como mudar esse cenário?

RP – Acho que se fala pouco sobre a AIDS, porque existe um certo desconforto coletivo em revisitar essa ferida. E hoje, com os avanços dos tratamentos, parece que se instalou uma espécie de silêncio. Como se a AIDS tivesse virado passado, como se já não fosse preciso olhar para ela.

Só que essa ausência também cria um apagamento: das vidas que foram interrompidas, das histórias que nunca chegaram a ser contadas e, principalmente, do impacto que essa geração teve na arte, na política e na nossa liberdade de existir e de se relacionar.

Também existe uma resistência concreta: patrocinadores acreditam que o público pode rejeitar o tema, que “não é comercial”, e muitos artistas ainda carregam medo ou preconceito de associar a própria imagem à essa discussão – nos deparamos com esse discurso, veja só!

É como se falar de AIDS ainda fosse uma marca indesejada, na vida e no currículo, quando, na verdade, deveria ser um ato de coragem e responsabilidade.

Mudar esse cenário passa por resgatar essas narrativas com coragem e afeto. Não se trata só de falar da doença, mas de dar voz às pessoas que viveram e vivem com HIV, de trazer para os palcos e para as telas a humanidade que, muitas vezes, foi reduzida a estatística.

Acho que o teatro e o audiovisual têm uma força única para desmontar preconceitos e devolver dignidade. O caminho é olhar para essas histórias não como uma “pauta esquecida”, mas como parte fundamental da nossa memória coletiva — e também como algo vivo, que ainda pulsa, que ainda precisa ser contado para que as novas gerações não cresçam na ilusão de que a AIDS deixou de existir.

Recentemente, a HBO Max estreou uma série (‘Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente’) sobre o tema. É pouco né?

RP – É pouco, porque ainda temos um silêncio enorme em torno do tema. Mas, ao mesmo tempo, é muito. É histórico! Pela primeira vez no Brasil temos protagonistas gays (e atores assumidamente gays em papéis principais), em uma série de grande orçamento na TV, feita com cuidado, realismo e brilho.

Isso muda a régua. Abre um precedente. Mostra que é possível tratar da AIDS e das relações homoafetivas com dignidade, profundidade e força estética, sem cair em estereótipos ou narrativas marginalizadas.

Então eu vejo assim: é pouco diante do tamanho da urgência, mas é muito diante da conquista simbólica que representa. É um passo enorme, e precisa ser entendido como porta de entrada para que outras histórias venham, para que o tema deixe de ser exceção e passe a fazer parte do nosso repertório cultural de maneira contínua.

Qual a proposta de vocês para a temporada de Um Pequeno Incidente? Ela pode chegar a outros cenários mais populares, como escolas?

RP – A proposta da temporada de Um Pequeno Incidente é justamente ampliar o alcance dessa discussão. A peça nasce para os palcos, mas não queremos que ela se restrinja apenas a um público já acostumado a frequentar teatro.

Nosso desejo é que ela circule, que vá até onde a conversa sobre AIDS e preconceito ainda é tabu. A juventude de hoje não viveu o impacto da epidemia nos anos 1980 e 1990 e, muitas vezes, cresce acreditando que a AIDS não existe mais ou que é um assunto distante da sua realidade.

Levar a peça para teatros variados, empresas, escolas, quem sabe, é plantar uma semente de consciência, empatia e responsabilidade afetiva.

Aproximar o tema das novas gerações, dialogar com comunidades diversas, criar rodas de conversa depois das sessões. Fazer o teatro cumprir a sua função de ponte: entre gerações, entre classes sociais, entre realidades.

Além da peça, como estão seus planos profissionais?

RP- Além de Um Pequeno Incidente, sigo envolvido em diferentes frentes. No teatro, estou desenvolvendo novos textos e projetos que dialogam com questões sociais e afetivas, sempre buscando esse equilíbrio entre humor, drama e reflexão.

Em janeiro estreio HABITAT, com texto de minha autoria com Fernanda de Freitas e Rogério Brito sob direção de Éric Lenate e Lavínia Pannunzio. Clarice e Nelson, com texto meu circula pelo país e este mês estreia em Porto Alegre com Carol César e Marcos Pitombo, depois de temporada no Poeirinha.

Também dirigi o monólogo de humor sobre maternidade com Wanessa Morgado e texto de Andrea Baititucci.

No audiovisual, tenho roteiros em andamento, séries e filmes em fase de desenvolvimento e captação. É um momento de bastante criação e de colocar em prática ideias que venho maturando há anos.

Me interessa muito transitar entre linguagens — do palco à tela — e levar sempre comigo esse olhar para personagens complexos, para histórias que provocam, que emocionam e que possam abrir conversas necessárias.

Então, os planos profissionais estão nesse caminho: multiplicar possibilidades e continuar contando histórias que importam, na TV, teatro ou cinema, sempre com empatia e propósito.