Início / Versão completa
Geral

Os “salvadores da pátria e o estado-espetáculo (Gaudêncio Torquato) 

Por Metrópoles 07/09/2025 08:27
Publicidade

O que Milei, Lula, o falecido ditador de Uganda, Idin Amin Dada e o Caudilho da Espanha, Francisco Franco, têm em comum? Pois é, um governante da direta, outro da esquerda, um dos mais sanguinários ditadores da história e o ex-mandachuva espanhol têm um encontro marcado na porta do céu. Os quatro, em seu tempo de governança, consideram-se (consideravam-se) enviados de Deus para “salvar” seus países.

Publicidade

Sinal dos tempos. O nome de Deus nunca foi tão usado pela esfera política, principalmente em tempos de crise. Deus é sempre a referência de homens que carregam em sua alma a pretensão da onipotência.  Alguns exemplos.

Começo com Javier Milei, argentino que habita a Quinta de Olivos (residência dos presidentes), representando o ultraliberalismo e que, nos últimos tempos, tem mostrado sua face esotérica, como descreve o jornalista Juan Luis González, em seu livro “As Forças do Céu, Segredos, Confissões e Perigos da Primeira Presidência Messiânica”.

Místico, solitário, cercado por quatro pets clonados do cão Conan, seu falecido xodó, e ancorado na irmã Karina, real comandante do projeto político, Milei é um mistério: abomina as religiões tradicionais, e ninguém sabe de suas atividades diárias, vai à Casa Rosada uma vez por semana, recebe poucas pessoas, cercando-se de um núcleo de fiéis amigos que compartilham de seu esoterismo. Prometendo apenas governar e refundar o país, dolarizar a economia, cortar gastos público e enterrar a “casta política”, Milei usa uma retórica de tons quase religiosos: o inimigo é o Estado, e a liberdade individual é o paraíso a ser conquistado.

Publicidade

Tanto Milei quanto Lula se apresentam como homens providenciais, guiados por uma missão histórica ou divina, podem redimir os maldes coletivos e refundar a Nação.

O segundo é o palanqueiro que tentará buscar seu quarto mandato como presidente. Luiz Inácio se acha um predestinado. Contam-se 10 exemplos de declarações em que Lula se compara a Deus. A última foi sobre o sofrido Nordeste: “ Deus deixou o sertão sem água” porque sabia que ele seria presidente do Brasil para resolver o problema histórico.

Quando não se compara a Deus, Lula avisa aos seus fiéis que não é tão fiel a eles: “não tenho vergonha, muito menos tenho razão para não dizer que mudo de posição… prefiro ser considerado uma metamorfose ambulante”. Para sua base, Lula continua sendo o guia capaz de salvar o Brasil das forças do atraso, do autoritarismo e do neoliberalismo (onde se agasalha Javier Milei). Explicando: se Lula encarna um messianismo de raízes populares e de esquerda, Javier Milei surge na Argentina como o profeta do antipetismo local e do ultraliberalismo.

A identidade ideológica do ciclo lulista vem mudando de posição desde o primeiro mandato, quando ainda se podia dizer que iniciava ali o percurso da esquerda. Hoje, os próprios petistas consideram que o Lula 3 caminha pela trilha de centro-direita, como garante José Dirceu, um dos fundadores do PP, ex-deputado e ex-chefe da Casa Civil do primeiro governo petista.

Assim falou Dirceu: “Lula montou um governo que não é de centro-esquerda, é um governo de centro-direita. Eu falo isso e todo mundo fica indignado dentro do PT. Mas essa é a exigência do momento histórico e político que nós vivemos”.

O terceiro “enviado de Deus” é o ex-ditador de Uganda, Idi Amin.  Conta-se dele uma historinha. Dizia ao povo que falava com Deus nos sonhos. Certo dia, um jornalista lhe fez uma pergunta: “O senhor tem com frequência esses sonhos? Conversa muito com Deus”? Lacônico, respondeu: “Só quando necessário”. O “enviado de Deus” assassinou cerca de 500 mil pessoas.

O quarto é o ditador Francisco Franco, que usava a Providência Divina para se afirmar: “Deus colocou em nossas mãos a vida de nossa Pátria para que a governemos”. Não satisfeito, mandou cunhar nas moedas: “Caudilho da Espanha pela graça de Deus”.

O ditador, que liderou o país de 1930 até sua morte, em 1975, foi marcado por violações dos direitos humanos. Implantou uma ditadura conservadora e autoritária, de características fascistas. Contou com o apoio da Alemanha nazista e da Itália fascista. O franquismo foi caracterizado por conservadorismo, militarismo e um forte sentimento nacionalista, sendo marcado pela perseguição e assassinato de oponentes.

Interessante observar que os “salvadores da Pátria” capricham no uso da linguagem popular e no desempenho como atores, conforme descreve o sociólogo francês Roger-Gerard Schwartzenberg, em seu O Estado-Espetáculo, lançado em 1977.

Na política contemporânea, os governantes deixam de ser apenas administradores da máquina pública. Tornam-se atores em cena aberta, diante de uma plateia que aplaude, vaia e cobra. Schwartzenberg mostra que a política se transformou em dramaturgia, com palco, iluminação, plateia e personagens, sendo o mais poderoso deles o “salvador da pátria”.

Essa figura surge em tempos de crise, quando a sociedade se vê diante de ameaças econômicas, corrupção generalizada ou instabilidade institucional.

O “salvador da pátria” precisa encarnar uma narrativa épica: o herói que luta contra os vilões da vez — elite corrupta, partidos decadentes, o imperialismo e a imprensa “inimiga”. Como num roteiro teatral, seus gestos são calculados, seus silêncios carregados de sentido, seus discursos pensados para emocionar mais do que convencer racionalmente. A política se converte em performance.

O Brasil conheceu o “pai dos pobres” Getúlio Vargas, que transformou o rádio em meio de ligação direta com as massas e terminou sua trajetória com uma carta-testamento que ainda hoje ecoa como ato derradeiro de encenação política. Na Argentina, Perón e Evita fizeram da Casa Rosada um palco de ópera popular, mobilizando descamisados como parte ativa da cena.

Na França, Charles de Gaulle encarnou a grandeza nacional: sua voz grave e seus discursos televisionados reforçavam a imagem de estadista destinado a salvar a pátria em momentos críticos.

No presente, como escrevemos acima, Lula se confunde com uma narrativa de redenção coletiva; já Milei, na Argentina, transforma leões e serras em marca estética de sua cruzada contra o “sistema”.

Em suma, o “salvador da pátria” é a personagem do Estado-Espetáculo. Emociona, cativa, ilude. Porém, como todo espetáculo, sua força depende da manutenção constante da cena. Quando as luzes se apagam, o mito desmorona.

O segundo é o palanqueiro que tentará buscar seu quarto mandato como presidente. Luiz Inácio se acha um predestinado. Contam-se 10 exemplos de declarações em que Lula se compara a Deus. A última foi sobre o sofrido Nordeste: “ Deus deixou o sertão sem água” porque sabia que ele seria presidente do Brasil para resolver o problema histórico.

Quando não se compara a Deus, Lula avisa aos seus fiéis que não é tão fiel a eles: “não tenho vergonha, muito menos tenho razão para não dizer que mudo de posição… prefiro ser considerado uma metamorfose ambulante”. Para sua base, Lula continua sendo o guia capaz de salvar o Brasil das forças do atraso, do autoritarismo e do neoliberalismo (onde se agasalha Javier Milei). Explicando: se Lula encarna um messianismo de raízes populares e de esquerda, Javier Milei surge na Argentina como o profeta do antipetismo local e do ultraliberalismo.

A identidade ideológica do ciclo lulista vem mudando de posição desde o primeiro mandato, quando ainda se podia dizer que iniciava ali o percurso da esquerda. Hoje, os próprios petistas consideram que o Lula 3 caminha pela trilha de centro-direita, como garante José Dirceu, um dos fundadores do PP, ex-deputado e ex-chefe da Casa Civil do primeiro governo petista.

Literalmente: “Lula montou um governo que não é de centro-esquerda, é um governo de centro-direita. Eu falo isso e todo mundo fica indignado dentro do PT. Mas essa é a exigência do momento histórico e político que nós vivemos”.

 

Gaudêncio Torquato é jornalista, escritor, professor-emérito da ECA-USP e consultor

Recomendado
Publicidade
Ver matéria completa no site
Página AMP gerada pelo Tupa AMP Pro com componentes válidos para AMP. Scripts comuns do tema são bloqueados nesta versão para reduzir erros de validação.