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A próxima democracia (por Gustavo Krause)

Por Metrópoles 26/10/2025 09:27
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E 32 teses para o futuro política na era figital. São título e subtítulo do livro recém-lançado de autoria de Silvio Meira e Rosário Pompeia. A obra nasce clássica. Tem valor duradouro. É atemporal. Mais precisamente, ensina Harold Bloom (1930-2019), porque amplia nossa vida e nela se encaixa a definição de Ítalo Calvino (1923-1985): “Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”.

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Para os que acompanham a consistente trajetória de Silvio/Rosário, Rosário/Silvio, a obra é a culminância de ideias postas em O que é estratégia?.. (Silvio Meira, Recife: Paradoxum, 2021) e Marketing do Futuro (Rosário Pompeia e Silvio Meira – São Paulo: Actual, 2024). Ao longo da vida profissional, tornaram-se mestres em criar inquietações e gerar provocações de braços com o pensamento complexo e a refutabilidade do conhecimento que é o avesso das certezas dogmáticas. Em relação ao tempo, buscam presentificar a fluidez do porvir.

O compromisso com o valor da obra está evidente na escolha do apresentador e do prefaciador, Gerson Camarotti e Joaquim de Arruda Falcão.

Camarotti são vivências, alimentadas por décadas de um reto exercício profissional que o colocou, desde muito jovem, cara a cara com a política acontecendo, a realpolitik, no que tem de grandeza e miséria. Sabe, como poucos, ler escrever e comunicar os fatos políticos.

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Joaquim são excelências do pensador que explora as profundezas da complexidade. Cultiva a língua portuguesa como vigilante e imortal guardião. Faz o uso das letras como se notas musicais fossem na composição textos/partituras para o deleite do leitor.

Em seguida, vem o esforço da leitura. A substância do livro é nutrida, pelo rigor acadêmico, ancorado em vasta bibliografia composta por pensadores clássicos, modernos e pós-modernos em sólida articulação interdisciplinar. Com o mesmo rigor, é a abordagem histórica da democracia, na origem, agonia, resistência, morte e no destino da ressureição. Um trajeto ciclotímico. Agora agravado pelo ambiente subversivo/disruptivo das inovações tecnológicas e a emergência da sociedade em rede na era figital.

Figital não é apenas um criativo neologismo (o físico, o digital e o social). Sintetiza uma nova era. Um ambiente trepidante que não admite rigidezes. Nele a política é uma conversação permanente em “turbulenta paisagem na era figital” em que, afirmam o(a)s autore(a)s, “o sentimento não pode ser de complacência, nem de desespero paralisante, mas sim de urgência lúcida”.

O ponto de partida é o Manifesto do Futuro da Política. Não se limita a uma análise. Trata-se de uma declaração de princípios, intenções, articulado com “um chamado à ação” de modo a enfrentar 16 Sinais de Colapso tendo na sequência os 16 Princípios para a Nova Política e 32 Teses para Refundar a Política e a Democracia.

Cabe uma ressalva: se o leitor imagina que vai encontrar um prato feito ou uma receita de bolo está redondamente enganado. Cada conceito ou proposição obedece à dialética das contraposições, estimulando o pluralismo do debate.

No entanto, o livro não tem pontas soltas. A proposta de reconstrução da política agrupa os 16 princípios em quatro pilares interdependentes e estratégicos. Passa do diagnóstico para a oferta de uma nova arquitetura. Enfrenta o desafio de apontar caminhos interconectados com cinco grupos temáticos que abrange as 32 teses. De forma clara e coerente, o texto enfrenta o desafio de oferecer rumos para responder o “porquê” da crise, articulando “o quê” da resposta, e delineando o “para onde” da transformação de modo a encarar a questão mais prática e urgente do “como”.

Cada enunciado revela uma cuidadosa e consistente definição. Tomo como exemplo apenas dois sinais emblemáticos de colapso da política: “Personalização extrema: o político como marca individualizada e produto de consumo; a desconexão geracional: a falha na transmissão de valores democráticos”. Assim, ocorre ao longo de toda obra: foco na essência de cada conceito e a preocupação em operacionalizar potencialidades positivas da era das redes, plataformas e ecossistemas figitais.

Para os autores, “a imersão na paisagem da crise” revelou uma “arquitetura de esperança”. Aí reside, afirmam, a possibilidade “de adaptação de um sistema robusto concebido para navegar a complexidade dos ecossistemas em rede: o método AEIOU (Pompeia; Meira, 2024) […] um sistema operacional para ação política e inovação cívica”. E complementam, advertindo que o acrônimo A (Ambiente), E (Estratégia), I (Interações), O (Operações), U (Unificação) não é um plano, mas um processo. O método não prescreve ‘faça isto’, mas ‘descubra’ como pensar e agir para resolver este problema, e provê os processos para tal”.

Antes de finalizar, um esclarecimento: não tive pretensão de fazer uma resenha. Alertou o juízo que me resta. Porque este é um livro aberto e em permanente aperfeiçoamento. O artigo, ainda que precário e superficial, é um singelo registro de reconhecimento ao mérito dos seus autores que merecem o que propõem, ao final, para democracia: gestos de um amplo e diversificado cultivo.

 

Gustavo Krause foi ministro da Fazenda 

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