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Caso Joyce: um ano após a morte de Joycilene, processo segue em sigilo e família luta para que a gerente não seja tratada como “estatística”

Por Cris Menezes 17/11/2025 14:11 Atualizado em 17/11/2025 14:11
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Jaqueline Sousa (irmã) e Eduarda Cavalcante (filha) acusam namorado de Joyce Sousa de violência patrimonial e abusos psicológicos que culminaram na morte da gerente acreana no dia 17 de novembro — Foto: Renato Menezes/g1

Um ano após a morte de Joycilene Sousa de Araújo, de 41 anos, a dor e a busca por justiça ainda fazem parte da rotina da família da gerente, que morreu em 17 de novembro de 2024. O caso segue em segredo de justiça, mas os familiares insistem para que Joyce  como era conhecida  não seja lembrada apenas como mais um número entre mortes consideradas autoprovocadas.

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A irmã, Jaqueline Sousa, reforça que a luta é para que a investigação reconheça o contexto de violência que, segundo a família, Joyce vivia. Eles acusam o então namorado dela, Thiago Augusto Sampaio Borges, de indução ao suicídio, violência psicológica e patrimonial  esta última estimada em cerca de R$ 200 mil.

Joyce morreu no Into-AC após uma parada cardíaca provocada pela ingestão de medicamentos de uso controlado. A família afirma que ela vinha sendo submetida a forte desgaste emocional.

Thiago, que chegou a conversar com o g1 à época, negou todas as acusações e disse ser alvo de calúnia e difamação. Pouco depois, desativou suas redes sociais.

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Investigação segue sob sigilo

A Polícia Civil não informa detalhes sobre o andamento do inquérito, já que o caso corre sob sigilo. As hipóteses investigadas não foram divulgadas.

Enquanto isso, a família organiza nesta segunda-feira (17), data em que o caso completa um ano, uma missa na Catedral Nossa Senhora de Nazaré, aberta ao público.

“Esperamos que a sociedade não se esqueça da Joyce. Ela não era só uma vítima, era uma mulher cheia de vida. Queremos que sua história ajude a evitar que outras famílias passem pelo que estamos passando”, afirmou Jaqueline.

Contexto: relação conturbada e denúncias da família

Joyce e Thiago mantiveram um relacionamento de quase 10 meses, descrito pela família como marcado por abusos emocionais. Antes de morrer, Joyce havia decidido pedir uma medida protetiva contra ele e buscava reaver o carro que estava em nome dela, mas sob posse do suspeito.

Na madrugada de 11 de novembro, por volta das 2h, ela procurou a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) para dar início ao processo de proteção e tentar recuperar o veículo.

A filha, Eduarda Cavalcante, relatou que naquele mesmo dia Joyce parecia aliviada com o passo que estava dando. Ela se arrumou, fez maquiagem e organizou documentos para anexar ao pedido.

Segundo a família, o carro  avaliado em cerca de R$ 100 mil foi colocado no nome de Joyce a pedido do próprio Thiago, pois ele dizia receber um benefício do INSS por burnout, o que impediria colocar despesas no nome dele.

Após repercussão do caso, o veículo e o celular de Thiago foram apreendidos pela Polícia Civil de Minas Gerais em dezembro. Ele chegou a ser preso por falsa identificação e desobediência, mas foi liberado horas depois.

Histórico do suspeito

Consultas feitas pelo g1 apontam que Thiago possui registros de ocorrências e processos nos estados de Minas Gerais e Rio Grande do Norte:

  • Inquérito por violência psicológica contra mulher (2022), arquivado em 2023;

  • Petição criminal por vias de fato (2022);

  • Ação penal por ameaça (2023).

No Tribunal de Justiça de Minas Gerais também há seis processos em nome dele — cinco cíveis arquivados e um criminal.

A família relata ainda que Joyce sofria torturas psicológicas diárias, que a deixavam emocionalmente fragilizada e incapaz de trabalhar. Jaqueline descreveu episódios em que a irmã buscava refúgio no quarto da mãe, afirmando que “não aguentava mais”.

Thiago esteve no Acre duas vezes. Na segunda visita, entre setembro e outubro, teriam ocorrido episódios de importunação sexual contra a filha de Joyce e uso de drogas dentro da casa da gerente, segundo a família.

Mobilização e repercussão

Após a exposição do caso nas redes sociais, o Ministério Público do Acre passou a acompanhar a situação. A família foi recebida pelo órgão em novembro do ano passado e recebeu apoio por meio do Centro de Atendimento à Vítima (CAV).

Em junho deste ano, uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Acre discutiu a alta taxa de feminicídios no estado, utilizando o Caso Joyce como um dos marcos do debate. A discussão incluiu temas como estelionato emocional, violência psicológica e abusos que não costumam aparecer nas estatísticas oficiais.

Durante o encontro, Jaqueline destacou que a morte da irmã não foi contabilizada como feminicídio algo que a família contesta pelas circunstâncias do caso.

“Queremos que esse crime seja nomeado corretamente. Joyce está dentro da estatística de suicídio, mas isso não representa o que ela viveu. Muitas mulheres morrem assim, em relações que são verdadeiras prisões emocionais”, declarou.

Família segue em busca de respostas

Um ano depois, a família de Joyce continua pedindo celeridade e transparência nas investigações, além de mudanças que possam fortalecer a proteção às mulheres em relações abusivas.

Para eles, manter a memória de Joyce viva é parte fundamental da luta por justiça e por transformações sociais que evitem novas tragédias.

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