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Pesquisadores confirmam descoberta de nova espécie de inhambu exclusiva da Serra do Divisor, no Acre

Por Cris Menezes 04/12/2025 16:46 Atualizado em 04/12/2025 16:46
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Foto: Luis Morais/divulgação

Uma descoberta científica inédita coloca o Acre novamente no centro da biodiversidade amazônica pesquisadores confirmaram oficialmente, em publicação na revista Zootaxa, a existência de uma nova espécie de inhambu encontrada somente no topo da Serra do Divisor, entre 300 e 500 metros de altitude. Popularmente batizada como sururina-da-serra (Slaty-masked Tinamou), a ave habita um dos ambientes mais isolados e singulares da Amazônia uma verdadeira “ilha no céu”. A informação foi divulgada inicialmente pelo G1.

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A confirmação da espécie é resultado de anos de investigações. As primeiras pistas surgiram em 2021, quando os ornitólogos Fernando Igor de Godoy e Ricardo Plácido registraram um canto desconhecido durante expedição. O som não correspondia a nenhuma espécie catalogada.

“Eles sabiam que havia algo ali. Aquele canto não se encaixava em nada que conhecíamos”, conta o pesquisador Luís Morais, autor principal do estudo e o primeiro a fotografar a nova ave.

Foto: Luis Morais/divulgação

Godoy relata que o encontro foi inesperado. Durante uma visita para produzir ilustrações de um guia sobre a serra, decidiu fazer uma caminhada ao entardecer.
“Ouvi o canto logo no primeiro dia. Trabalhei muitos anos no Acre e reconheço bem a avifauna. Eu sabia que era algo novo”, relembra.

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Ele tentou registrar o som, chamando o animal para perto. Apesar de ver apenas um vulto devido ao anoitecer, a gravação enviada a especialistas manteve aceso o indício da descoberta.

A confirmação só veio anos depois, quando a equipe conseguiu observar, gravar e documentar o animal de perto.
“Quando finalmente vi esse bicho, foi chocante. Totalmente diferente de tudo que conhecemos. Entre aves, descobrir uma espécie realmente nova é muito raro”, afirma Morais.

Um dos aspectos mais surpreendentes é o comportamento extremamente manso da sururina-da-serra. Diferente de outros inhambús, conhecidos por serem ariscos, a nova espécie praticamente não demonstra medo.

“Ele não reconhece humanos como ameaça. Podemos chegar a quatro ou cinco metros e ele continua caminhando”, descreve Morais.

O comportamento se explica pelo ambiente isolado, onde quase não existem predadores naturais como onças ou gatos-do-mato. Assim como o icônico dodô — embora sem parentesco próximo — a sururina evoluiu em um ambiente sem ameaças, tornando-se dócil e vulnerável.

Habitat único e risco elevado

A nova espécie habita apenas as formações altomontanas da Serra do Divisor, ambientes raríssimos na Amazônia, caracterizados por solo arenoso, alta umidade, ventos constantes e vegetação de campinaranas.

Esse habitat tão específico faz com que a sururina esteja naturalmente ameaçada. Qualquer alteração ambiental pode ter impacto devastador. Entre os riscos apontados pelos pesquisadores estão:

“Pequenas mudanças podem destruir o ambiente inteiro de uma só vez”, alertam.

População reduzida

Segundo o artigo, a população estimada da espécie é de pouco mais de 2 mil indivíduos, o que a coloca entre as aves amazônicas mais sensíveis a distúrbios ambientais.

Valor científico e alerta de conservação

A descoberta reforça a importância da Serra do Divisor como um dos maiores centros de biodiversidade da Amazônia. Para os pesquisadores, a sururina-da-serra se torna um símbolo da fragilidade de espécies altamente adaptadas a ambientes únicos — que podem desaparecer mesmo dentro de áreas teoricamente protegidas.

“É um lembrete poderoso de como a Amazônia ainda guarda mistérios extraordinários, mas também de como essas espécies podem estar à beira do desaparecimento”, conclui Morais.

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