Início / Versão completa
Geral

Tempestades, dívidas e urnas: o Brasil de 2026 (por Gaudêncio Torquato

Por Metrópoles 21/12/2025 08:27
Publicidade

O fim de ano se aproxima sob o impacto de chuvas torrenciais que castigam diversas regiões do país, revelando a fragilidade histórica da infraestrutura urbana e a incapacidade crônica do poder público de prevenir tragédias anunciadas. Mas, para além das águas que transbordam rios e invadem cidades, o Brasil enfrenta um outro dilúvio — o das incertezas políticas e econômicas, que se acumulam no horizonte nacional.

Publicidade

No plano político, o cenário permanece rigidamente polarizado. Mesmo mostrando cenários em que o presidente Lula leva vantagem, ganhando o pleito nos primeiro e segundo turnos, as pesquisas de opinião continuam a mostrar a intensa polarização que se arrasta desde as eleições de 2022, reproduzindo uma clivagem que deixou de ser apenas eleitoral para se tornar estrutural, emocional e identitária. Trata-se de uma divisão que bloqueia consensos mínimos, empobrece o debate público e transforma qualquer agenda em campo de batalha ideológica.

Essa polarização entre lulistas e bolsonaristas já projeta sua sombra sobre 2026. Embora o calendário eleitoral ainda pareça distante, o país vive, na prática, um estado permanente de pré-campanha. Lideranças políticas calculam cada gesto à luz da disputa futura, partidos evitam decisões impopulares e o discurso radical tende a se intensificar. O centro político, fragmentado e sem narrativa consistente, luta para se fazer ouvir em meio ao ruído dos extremos.

No Congresso, a consequência é um ambiente de negociação instável e pragmática, no qual o apoio se constrói mais por conveniência momentânea do que por projetos de longo prazo. O Executivo governa sob pressão contínua, enquanto o Judiciário é frequentemente empurrado para o centro da arena política, assumindo protagonismo em temas que deveriam ser resolvidos pela via institucional tradicional.

Publicidade

No campo econômico, os sinais tampouco oferecem alívio. O rombo nas contas públicas aprofunda-se e já dá mostras de ter alcançado um ponto crítico. Dados recentes do Banco Central indicam que a dívida do setor público consolidado registrou alta de um ponto percentual em setembro, atingindo 78,1% do Produto Interno Bruto (PIB) — o equivalente a R$ 9,75 trilhões. É um patamar elevado para um país emergente, sobretudo em um contexto de crescimento modesto e forte pressão por gastos sociais.

O avanço da dívida limita a capacidade de investimento do Estado, pressiona a política monetária e alimenta desconfianças quanto à sustentabilidade fiscal. Mais do que um indicador técnico, trata-se de um problema político. Em ano pré-eleitoral, cresce a tentação do gasto fácil, das promessas generosas e das soluções simplistas, enquanto diminui a disposição para ajustes impopulares, porém necessários.

O risco é evidente: 2026 pode se transformar em uma eleição plebiscitária, centrada em paixões e ressentimentos, com pouco espaço para um debate sério sobre responsabilidade fiscal, reformas estruturais e adaptação do país aos desafios climáticos, tecnológicos e demográficos. A insistência na lógica do confronto tende a produzir vencedores eleitorais, mas não soluções duradouras.

Entre enchentes que expõem a ausência de planejamento, uma polarização que paralisa o diálogo e uma dívida pública que estreita o campo de escolhas, o Brasil encerra o ano imerso em dúvidas. O desafio que se impõe não é apenas vencer a próxima eleição, mas recuperar a capacidade de pensar o médio e o longo prazo, resgatar a confiança nas instituições e substituir o grito pela razão.

Sem isso, seguiremos atravessando tempestades — climáticas, políticas e fiscais — sempre com a sensação de que o pior pode estar logo adiante.

 

Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor-emérito da ECA-USP e consultor político

Recomendado
Publicidade
Ver matéria completa no site
Página AMP gerada pelo Tupa AMP Pro com componentes válidos para AMP. Scripts comuns do tema são bloqueados nesta versão para reduzir erros de validação.