12 janeiro 2026

Manoel Carlos deixa a TV brasileira sem seu maior cronista das emoções

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A morte de Manoel Carlos, neste sábado (10), encerra um capítulo decisivo da teledramaturgia nacional — mas não fecha o livro. Aos 92 anos, Maneco se despede deixando uma obra que nunca dependeu de grandes vilões caricatos ou reviravoltas mirabolantes para fisgar o público. Seu território sempre foi outro: o das emoções miúdas, dos conflitos íntimos, das dores que não fazem barulho, mas moldam destinos.

Manoel Carlos foi o autor que apostou, com convicção, que a vida comum também rende grandes histórias. Enquanto outros buscavam o extraordinário, ele mergulhava no cotidiano: relações familiares atravessadas por silêncios, amores que não cabem em definições simples, escolhas erradas feitas por pessoas bem-intencionadas. Seu texto exigia atenção, paciência e sensibilidade — e, em troca, oferecia identificação.

Nenhum símbolo de sua obra é mais forte do que as Helenas. Repetir o nome nunca foi falta de imaginação, mas um gesto autoral claro. A Helena de Maneco não era uma mulher só: era muitas. Mãe, amante, profissional, filha, contraditória, falha, amorosa, exausta. Ao longo das décadas, essas protagonistas funcionaram como um espelho emocional para o público feminino — e também como um convite para que o público masculino aprendesse a ouvir.

Outro traço fundamental de sua dramaturgia foi o espaço. O Leblon, recorrente em suas novelas, não era apenas cenário, mas extensão psicológica dos personagens. Apartamentos, salas de estar, mesas de jantar e corredores tornavam-se campos de batalha emocional. As grandes viradas raramente aconteciam em público; surgiam em conversas baixas, olhares interrompidos, frases mal resolvidas.

Manoel Carlos também foi um autor de riscos. Colocou em pauta temas delicados quando ainda não eram consenso, sem o discurso didático ou panfletário. Preferia provocar pelo afeto. Não explicava demais, não julgava seus personagens — deixava que o público fizesse isso. E talvez por isso suas novelas continuem sendo lembradas mais pelas emoções que despertaram do que por seus enredos específicos.

Seu ritmo, muitas vezes criticado por ser “lento”, era, na verdade, coerente com sua proposta narrativa. Maneco escrevia como quem acredita que sentimentos precisam de tempo para amadurecer. Seu texto não corria atrás da urgência do ibope; confiava na conexão emocional construída capítulo a capítulo.

Com sua partida, a televisão perde um autor que entendia a novela como espaço de escuta, não apenas de espetáculo. Manoel Carlos escreveu personagens que envelheciam, erravam, insistiam, desistiam e recomeçavam — como a vida real. Seu maior legado talvez seja esse: ter provado que, quando a dramaturgia respeita a complexidade humana, ela atravessa gerações.

Maneco se vai. As emoções que ele ensinou o Brasil a reconhecer ficam.

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