A queda de árvores em São Paulo não é um evento raro. A população se habituou a lidar com troncos e galhos espalhados pela capital, especialmente após tempestades e vendavais, como o ciclone extratropical que, ao passar pela cidade em dezembro, derrubou mais de 500 árvores, segundo o Corpo de Bombeiros.
Entre os problemas, são comuns estragos na rede elétrica com desabastecimento de energia, danos materiais e risco de acidentes fatais. Mas o tema desperta uma dúvida que nem todo paulistano sabe responder: o que ocorre depois que uma árvore cai na cidade?



A Prefeitura de São Paulo possui uma iniciativa para reaproveitar árvores que caem em parques públicos
Rodrigo Tammaro/Metrópoles
Árvores de fora dos parques são reaproveitadas em caráter emergencial
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A primeira etapa do reaproveitamento acontece em um pátio na Vila Leopoldina
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As toras com medidas e características adequadas são separadas para a confecção de móveis
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O restante do material é triturado e transformado em um composto orgânico chamado de cavaco
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O cavaco é utilizado em canteiros de plantas e trilhas, ou enviado para composteiras e transformado em adubo
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A maior parte da madeira recolhida após temporais chega quebrada ou com dejetos, por isso costuma ser transformada em cavaco
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Já as toras apropriadas para a fabricação de móveis são separadas e recebem um primeiro tratamento. Chapas de alumínio evitam rachaduras
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A madeira para fabricação de móveis é enviada para a segunda etapa do reaproveitamento
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Os móveis são fabricados na marcenaria do Parque Anhanguera, na zona norte de São Paulo
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A madeira é cortada em chapas e passa por uma secagem para evitar farpas e empenamento
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Após a secagem, os marceneiros começam a fabricação
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Todos os móveis fabricados são enviados para uso nos parques municipais
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As administradoras dos parques solicitam uma vistoria da prefeitura, que define o que será produzido
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Os móveis são utilizados nas áreas comuns e administrativas dos parques
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Desde o início do programa, em 2024, foram fabricados 45 bancos, 8 escorregadores,
41 conjuntos de piquenique e diversos outros materiais
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Ela pode tanto se transformar em um mobiliário quanto compostagem gratuita à população a partir de uma iniciativa da prefeitura de reaproveitar o material de podas e quedas de árvores em parques municipais.
O que é cavaco
A primeira etapa do reaproveitamento de árvores e galhos na capital paulista, maioria eucaliptos, é o envio para um pátio na Vila Leopoldina, zona oeste de São Paulo, onde o material passa por uma seleção: as toras com medidas e características adequadas são separadas e enviadas para a produção de móveis, que posteriormente serão concedidos a parques públicos.
Já os troncos, galhos e folhas inapropriados para a confecção moveleira — que representam o maior volume — são triturados e transformados em um resíduo vegetal chamado de cavaco.
Esse material triturado pode ser utilizado, por exemplo, para substituir as britas usadas em canteiros de plantas e trilhas nos parques.
“Ao invés de usar pedras para forrar os espaços, usamos essa madeira triturada”, afirma a engenheira florestal Isabel Jorge, que supervisiona o pátio de recebimento de toras.
“A drenagem é melhor, ela previne ervas daninhas e é mais ecológica. Quando o cavaco entra em decomposição, é só substituir. Fica mais prático”, acrescenta ela ao Metrópoles.
Outra alternativa é a compostagem. Esse é o uso mais comum do material de tempestades, já que geralmente a madeira é recolhida com outros resíduos, como plásticos e tecidos.
O cavaco “contaminado” é distribuído para outros espaços de compostagem espalhados pela cidade, onde é misturado com restos de frutas, verduras e legumes oriundos de feiras e transformado em adubo, o que leva aproximadamente 120 dias.
O produto, usado em jardins e praças públicas, é distribuído gratuitamente para a população.
Segundo a Secretaria Municipal das Subprefeituras (SMSUB), a prefeitura possui seis pátios de compostagem. Cada um recebe entre 300 e 400 toneladas de resíduos de poda por ano.
O processo de secagem
No caso da confecção de móveis, o caminho é diferente. O material selecionado no pátio da Vila Leopoldina é transformado em pranchas de madeira e enviado para uma marcenaria do Parque Anhanguera, na zona norte, onde ocorre a segunda etapa do reaproveitamento.
Antes, as pranchas são colocadas para secagem. O processo leva cerca de dois meses com o intuito de preservar a qualidade do material e evitar fiapos ou empenamento. Em seguida, começa a produção, a cargo da empresa Florestana, de acordo com a demanda dos parques gerenciados pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA).
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“Os administradores entram em contato com a SVMA e solicitam os móveis. Nosso arquiteto faz uma vistoria e verifica qual é a necessidade específica daquele parque”, diz a engenheira.
Os móveis são finalizados com verniz naval para aumentar a resistência. Não são pintados porque a intenção é manter o aspecto mais natural e rústico.
A transformação
Desde fevereiro de 2024, foram produzidos pela Florestana:
- 45 bancos
- 8 escorregadores
- 41 conjuntos de piquenique (compostos por uma mesa e dois bancos)
- 201 unidades de cerquinhas
- 3 passarelas
- 15 placas
- 1 guarita de segurança
- 201 unidades de cerquinhas
- Mais de 2 mil bolachas de madeira
- Também foram fornecidos materiais para manutenção dos parques, como o madeiramento de 50 balanços, 48 bancos com estrutura de ferro ou concreto e 13 mesas com estrutura de concreto.
- Para outros tipos de manutenção, foram entregues mais de 110 peças diversas.
Os benefícios
O reaproveitamento de madeira originada de podas e quedas de árvores tem importância ecológica, econômica e social.
Além de diminuir o desperdício, a iniciativa aproveita um resíduo, que seria descartado em aterros, na fabricação de produtos de qualidade, bem como amplia a produção de composto orgânico nas composteiras.
O processo todo economiza matéria-prima, reduz o deslocamento dos caminhões, que se deslocariam a aterros distantes, e gera empregos no município.
Além disso, segundo os profissionais diretamente envolvidos no reaproveitamento de madeira, a principal realização de todo o processo é o fornecimento de produtos de qualidade a frequentadores dos parques.
“Teve uma vez em que eu ajudei a montar móveis no parque Chico Mendes, na zona leste. Montamos três mesas e fomos trabalhar em outra área. Pouco tempo depois, quando a gente passou lá de novo, umas 15 pessoas já estavam usando as mesas”, lembrou o arquiteto Daniel Henrique Conti, que realiza as vistorias para definir quais móveis serão fabricados. “Muitas vezes o pessoal fica esperando e pergunta se a gente vai demorar, porque eles já querem usar. Ficamos bem felizes com isso, porque é um trabalho sendo valorizado e também um retorno para a cidade.”
Uma reforma na marcenaria do Parque Anhanguera promete ampliar o reaproveitamento de árvores na capital. Enquanto isso, a SMVA também estuda formalizar o uso da madeira fora dos parques.
“Espero que aumente cada vez mais, porque é muito gostoso de ver os parques mais bonitos e naturais. Espaços que antes estavam abandonados, hoje têm uma estrutura sensacional por causa do reaproveitamento. Seria preciso definir os detalhes com a secretaria, mas a demanda existe. E a população pode usufruir”, concluiu Isabel.






