9 janeiro 2026

Três anos após o 8 de janeiro, STF já condenou mais de 800 envolvidos na trama golpista

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Três anos após os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) já condenou mais de 800 pessoas envolvidas na tentativa de ruptura da ordem democrática no país. As decisões foram proferidas pela Primeira Turma da Corte e abrangem civis e militares acusados de planejar, incentivar ou executar ações contra as instituições durante o fim do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Os dados foram levantados pelo gabinete do ministro Alexandre de Moraes, relator dos processos ligados à trama golpista, até meados de dezembro de 2025, e ainda podem ser atualizados. Ao todo, a Procuradoria-Geral da República (PGR) apresentou 1.734 ações penais ao STF, dividindo os acusados entre incitadores, executores e integrantes de cinco núcleos estratégicos que teriam sustentado a tentativa de golpe.

Os atos de 8 de janeiro entraram para a história como um dos episódios mais graves da democracia brasileira. Naquele domingo, milhares de apoiadores do ex-presidente, derrotado nas eleições de 2022, invadiram e depredaram as sedes do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal, em Brasília. O objetivo, segundo as investigações, era provocar uma ruptura institucional e impedir a permanência do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no poder, empossado havia apenas uma semana.

As investigações apontaram que o plano golpista começou a ser articulado ainda em 2021, após Lula recuperar seus direitos políticos. Com a confirmação da derrota eleitoral de Bolsonaro, em outubro de 2022, os movimentos passaram a se intensificar, com bloqueios de rodovias, acampamentos em frente a quartéis, atos de violência política e tentativas de atentados, culminando na invasão de 8 de janeiro.

Com o julgamento dos principais núcleos da organização, o STF condenou 29 pessoas ligadas diretamente ao planejamento da tentativa de golpe. Apenas dois réus foram absolvidos por falta de provas. As condenações atingiram integrantes dos núcleos 1, 2, 3 e 4. O Núcleo 1, que inclui o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros sete aliados, já teve as penas executadas. Os demais ainda estão em fase de recursos.

Em 8 de janeiro de 2023, milhares de vândalos apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro invadiram e depredaram a sede dos três poderes da República, em Brasília. Mais de 800 já foram condenados – Marcelo Camargo/Agência Brasil

Entre os crimes reconhecidos pelo STF estão tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado, organização criminosa armada, dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado. Para analisar os casos, a Primeira Turma realizou 21 sessões ao longo de quatro meses.

O Núcleo 5, formado por Paulo Figueiredo, neto do ex-presidente da ditadura João Figueiredo, ainda não teve julgamento marcado. Ele reside nos Estados Unidos.

Condenações de destaque

No Núcleo 1, Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos e três meses de prisão. Também receberam penas elevadas ex-ministros, comandantes militares e ex-integrantes do alto escalão do governo anterior. Já no Núcleo 2, ex-dirigentes da Polícia Rodoviária Federal, assessores presidenciais e militares da reserva também foram condenados a longas penas. Os Núcleos 3 e 4 concentram majoritariamente oficiais das Forças Armadas e agentes de segurança.

Foragidos e extradições

Apesar do avanço dos julgamentos, parte dos condenados segue foragida. Cerca de 60 réus romperam tornozeleiras eletrônicas e fugiram para a Argentina, sendo alvo de pedidos de extradição. Outro caso de destaque é o do ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem, condenado a 16 anos de prisão, que deixou o país e está nos Estados Unidos. O pedido de extradição já está em andamento, e ele perdeu o mandato parlamentar em decorrência da condenação.

Brasília (DF), 11/09/2025 – Sessão na Primeira Turma do STF, no quinto dia de julgamento dos réus do Núcleo 1 da trama golpista, formado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e mais sete aliados – Marcelo Camargo/Agência Brasil

A maior parte das condenações envolve incitadores e executores diretos dos atos de 8 de janeiro. Nesse grupo, já foram registradas 810 condenações. Destas, 395 envolvem crimes mais graves, como organização criminosa e tentativa de golpe de Estado, enquanto 415 dizem respeito a incitação ao crime e associação criminosa.

Entre os condenados está a cabeleireira Débora Rodrigues dos Santos, sentenciada a 14 anos de prisão por participação nos atos e por pichar a estátua “A Justiça”, em frente ao STF. Atualmente, ela cumpre prisão domiciliar.

O STF também homologou mais de 560 acordos de não persecução penal (ANPP), firmados com investigados que estavam acampados em frente a quartéis, mas não participaram da depredação dos prédios públicos. Em troca, os beneficiados devem prestar serviços comunitários, pagar multas entre R$ 1 mil e R$ 5 mil, participar de cursos sobre democracia e estão proibidos de usar redes sociais.

Além das penas individuais, todos os condenados deverão pagar, de forma solidária, R$ 30 milhões para reparar os danos causados ao patrimônio público durante os ataques.

As condenações também acarretam consequências políticas e administrativas. Os réus estão inelegíveis por oito anos. Militares condenados ainda responderão a processos na Justiça Militar, que podem resultar na perda de patentes. Servidores públicos, por sua vez, devem perder os cargos efetivos.

Três anos após os ataques, o STF considera que o conjunto de condenações representa uma resposta institucional inédita e um marco no enfrentamento a tentativas de ruptura democrática no Brasil.

Informações via Agência Brasil.

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