A recente denúncia envolvendo um advogado e vereador no Acre voltou a acender um debate que já vinha sendo alimentado por diversas reportagens ao longo dos últimos anos: a atuação da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional Acre (OAB-AC) em casos envolvendo seus próprios membros.
O episódio mais recente, que trata de uma denúncia de ameaça contra o presidente da entidade, teve rápida repercussão e resposta institucional. No entanto, essa agilidade passou a ser comparada com outros casos divulgados pela imprensa, levantando questionamentos dentro da própria advocacia.
Entre os que trouxeram esse debate à tona está o advogado e vereador Maycon Moreira, que, com base em reportagens já publicadas, questiona se há uniformidade nos critérios adotados pela OAB em processos disciplinares.
Um dos casos mais emblemáticos citados é o do advogado Ismael Tavares, preso na Operação Boi de Ouro sob suspeita de integrar uma quadrilha especializada no furto de gado no interior do Acre. Mesmo após a prisão e a imposição de medidas cautelares — como uso de tornozeleira eletrônica, restrição de circulação e recolhimento domiciliar — o profissional permanece com registro ativo na Ordem.
A situação ganhou ainda mais repercussão pelo fato de sua defesa ser conduzida por Andrias Sarkis, presidente do Comitê de Ética da própria OAB no estado, o que, segundo reportagens, gerou desconforto entre advogados e levantou dúvidas sobre possíveis conflitos de interesse.
Outro episódio citado envolve o secretário-geral da OAB, Talles Vinícius de Souza Sales, que teria sido alvo de denúncia de assédio, com a existência de gravações divulgadas pela imprensa. O caso gerou questionamentos sobre a condução interna da entidade diante de acusações envolvendo membros da própria direção.
Também foi lembrado o caso do advogado Talles Damasceno Magalhães de Souza, preso sob suspeita de vazar informações sigilosas para organizações criminosas. Segundo reportagens, mesmo diante da gravidade das acusações, o Tribunal de Ética não teria instaurado procedimento investigativo.
Outros episódios amplamente divulgados reforçam o debate. Entre eles está o caso da advogada Vania do Nascimento Barros, conduzida à delegacia após tentar entrar com um celular em unidade prisional, sendo acusada de violar o artigo 349-A do Código Penal.
Já o advogado Antônio Djan Melo ganhou notoriedade após atropelar quatro pessoas em Rio Branco, com indícios de embriaguez ao volante, tendo sua prisão preventiva decretada.
O advogado Rodrigo Machado Pereira também foi citado em reportagens após ter mandado de prisão expedido por descumprimento de medida protetiva em favor de sua ex-esposa, após denúncias de ameaças.
Outro caso que teve grande repercussão foi o do advogado João Figueiredo Guimarães, de 74 anos, flagrado tentando entrar com cartas, documentos e cerca de meio quilo de drogas em um presídio. O histórico do advogado inclui ainda outros processos e passagens anteriores pela polícia.
A lista segue com os advogados Levi Bezerra de Oliveira e Kamila de Araújo Lopes, presos pela Polícia Federal na Operação Columba, suspeitos de atuarem como intermediários de comunicação entre membros de organizações criminosas dentro e fora dos presídios.
Diante desse conjunto de casos, reportagens apontam que todos esses profissionais mantinham, ou ainda mantêm, registro ativo na OAB, o que tem gerado críticas dentro da própria classe.
A entidade, por sua vez, sustenta que nem toda infração criminal implica automaticamente em sanção disciplinar, especialmente quando não há relação direta com o exercício da advocacia. A OAB também argumenta que as apurações seguem ritos internos e, em muitos casos, tramitam sob sigilo.
No entanto, críticos desse entendimento afirmam que, em vários dos episódios citados, os advogados teriam se valido justamente de suas prerrogativas profissionais para cometer as supostas infrações, o que, na visão deles, exigiria atuação mais firme da entidade.
É nesse cenário que surge o questionamento envolvendo o caso do advogado Maycon Moreira. Segundo sua defesa, a suspensão de seu registro profissional teria ocorrido de forma célere, com base em um boletim de ocorrência ainda sem conclusão de inquérito policial.
A defesa sustenta ausência de provas materiais e aponta inconsistências na denúncia, além de questionar o fato de outros processos, inclusive contra a própria denunciante, não terem sido julgados com a mesma rapidez.
Para os advogados que acompanham o caso, o debate vai além de uma situação isolada. Trata-se, segundo eles, de discutir princípios fundamentais como presunção de inocência, contraditório, ampla defesa e devido processo legal — pilares que deveriam nortear a atuação de qualquer instituição jurídica.
Nos bastidores da advocacia acreana, cresce o sentimento de que há necessidade de maior transparência e uniformidade nos critérios adotados pela Ordem.
Enquanto isso, a pergunta segue ecoando entre profissionais do direito e também nas reportagens que vieram à tona: a OAB no Acre tem atuado com o mesmo rigor em todos os casos ou há diferenças na forma como cada situação é tratada?
Mais do que uma crise pontual, o debate revela um desafio institucional: garantir que a aplicação da ética e da disciplina dentro da advocacia seja não apenas firme, mas também equilibrada e imparcial.
Porque, no fim das contas, o que está em jogo não é apenas a conduta de alguns profissionais — mas a credibilidade de toda a instituição.


