Dois anos depois do acidente aéreo que deixou quatro mortos em Manoel Urbano, no interior do Acre, a investigação sobre a queda da aeronave ainda segue sem conclusão. De acordo com o relatório mais recente do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), as apurações chegaram a 55% de andamento, mas até agora não há uma definição oficial sobre o que provocou a tragédia.
O acidente ocorreu no dia 18 de março de 2024, quando um avião de pequeno porte, modelo Cessna Skylane 182, caiu pouco depois de decolar do município de Manoel Urbano com destino a Santa Rosa do Purus. Sete pessoas estavam a bordo no momento da queda. Quatro delas morreram, sendo uma ainda no local do acidente e as demais após dias e até meses de internação.
No ano passado, quando a tragédia completou um ano, ainda não havia qualquer informação oficial divulgada sobre o andamento da investigação. Agora, com dois anos do acidente, o Cenipa informou que o caso avançou parcialmente, mas continua sem conclusão.

Segundo o órgão, o relatório divulgado é preliminar e ainda pode passar por mudanças até a publicação do documento final. O Cenipa também destacou que a investigação tem como foco principal a prevenção de novos acidentes, e não a responsabilização criminal ou civil dos envolvidos.
No documento, o órgão explica que a intenção é propor, quando necessário, recomendações de segurança para evitar que situações semelhantes voltem a acontecer. Até o momento, porém, nenhuma recomendação oficial foi emitida.
As equipes de investigação seguem analisando dados relacionados aos sistemas e componentes da aeronave, além do desempenho técnico humano. Também estão sendo observados fatores ligados ao aeródromo, à operação do avião, à manutenção e aos possíveis reparos realizados na aeronave antes do voo.
O que aconteceu
O acidente aconteceu logo após a decolagem. Conforme informações divulgadas pelo governo do Acre à época, a aeronave caiu em uma área de difícil acesso, a cerca de um quilômetro da cabeceira da pista de Manoel Urbano.
O avião envolvido no acidente era um Cessna Skylane 182, modelo com capacidade para transportar, no máximo, quatro pessoas. Apesar disso, seis passageiros e o piloto estavam dentro da aeronave no momento da queda, o que levantou questionamentos sobre excesso de ocupantes e possível sobrecarga.
Outro ponto que chamou atenção foi a situação legal da aeronave. Segundo o Registro Aeronáutico Brasileiro (RAB), da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), o avião de prefixo PT-JUN possuía registro para serviço aéreo privado. Ou seja, não poderia operar como táxi aéreo.
Além disso, o Certificado de Verificação de Aeronavegabilidade (CVA) estava vencido desde 1º de junho de 2019. Na prática, isso significa que a aeronave não estava regular para atuar no transporte remunerado de passageiros, como ocorria naquele tipo de voo entre municípios isolados.
Em regiões como Santa Rosa do Purus, onde o acesso é limitado e muitas vezes só pode ser feito por barco ou avião, esse tipo de transporte aéreo é bastante utilizado. Ainda assim, as regras de segurança e regularidade continuam sendo exigidas.
As vítimas

Das sete pessoas que estavam a bordo, quatro morreram em consequência do acidente.
A primeira vítima fatal foi Sidney Estuardo Hoyle Vega, de 73 anos, empresário peruano. Ele morreu ainda no local da queda. Sidney retornava do casamento da filha, Lívia Hoyle, realizado quatro dias antes.
Também morreu Suanne Camelo, de 30 anos, comerciante. Ela sofreu queimaduras em mais de 90% do corpo e foi a primeira vítima a ser transferida de Manoel Urbano para Rio Branco. Suanne não resistiu e morreu nove dias após o acidente.
Outra vítima foi Amélia Cristina Rocha, de 28 anos, biomédica. Ela foi encaminhada para o Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) de Manaus, com mais de 70% do corpo queimado. Antes de embarcar, Amélia chegou a comentar com uma amiga que estava com medo da viagem. Após mais de dois meses de luta pela vida, ela teve piora no quadro de saúde e morreu no dia 24 de março.
O piloto da aeronave, Valdir Roney Mendes, de 59 anos, também está entre as vítimas. Com mais de 30 anos de experiência na aviação, ele sofreu queimaduras em cerca de 40% do corpo e ficou internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em Manaus. Valdir morreu em 12 de julho de 2024, após mais de três meses internado.
Quem sobreviveu

Três pessoas sobreviveram ao acidente.
Mateus Jeferson Fontes, noivo de Suanne Camelo, foi transferido para o Centro de Tratamento de Queimados no dia 24 de março. Ele recebeu alta médica em 4 de abril e retornou a Rio Branco no dia seguinte. Na época, a mãe dele informou ao g1 que Mateus teria pulado da aeronave antes da queda.
Bruno Fernando dos Santos, dentista e marido de Amélia Cristina, também sobreviveu. Ele recebeu alta do Pronto-Socorro de Rio Branco no dia 25 de março. Meses depois, homenageou a esposa com uma tatuagem.
A terceira sobrevivente foi Deonicilia Salomão Kalisto Kaxinawá, estudante e menor de idade na época. Ela voltava das férias em Manoel Urbano e foi a que sofreu ferimentos menos graves. Recebeu alta do hospital do município no dia 25 de março. Segundo a tia da adolescente, ela não queria embarcar porque viajaria sentada junto às malas.
Ainda segundo a reportagem, o g1 tentou contato com Bruno Fernando e familiares de Deonicilia, mas não obteve resposta. Já a mãe de Mateus informou que ele prefere não comentar o caso.
Caso segue sem respostas definitivas

Mesmo dois anos após a tragédia, ainda não há uma resposta oficial sobre o que causou a queda do avião. O que já se sabe é que a aeronave operava em situação irregular, levava mais pessoas do que o permitido e caiu poucos instantes depois da decolagem.
A expectativa agora é pela conclusão do relatório do Cenipa, que deverá apontar de forma mais detalhada os fatores que contribuíram para o acidente. Até lá, familiares das vítimas e a população acreana seguem aguardando respostas sobre uma das tragédias aéreas mais marcantes já registradas no estado.


