A Itália está fora da Copa do Mundo pela terceira vez consecutiva. Uma tetracampeã mundial fica pelo caminho mesmo em um cenário com mais vagas, mais seleções e um nível de exigência diluído. O que antes seria tratado como acidente passa a se repetir em sequência, até ganhar peso de realidade consolidada: a Azzurra já não consegue garantir presença nem quando o sistema favorece.
ASSISTA O ATUALIZA JÁ ESPORTE DE HOJE (31/03)
Existe algo profundamente desconfortável nessa imagem. Uma seleção que já disputou com o Brasil o topo do mundo, que olhava para a quinta estrela como um destino possível, agora observa o torneio de fora pela terceira vez seguida. Em 2006, levantava a taça sobre a França. Em 1994, tinha Roberto Baggio carregando um país inteiro nas costas. Durante décadas, vestiu uma identidade quase inegociável com organização, defesa imponente, inteligência competitiva, e frieza para decidir.
Veja as fotosAbrir em tela cheia Gianluigi Donnarumma, goleiro da seleção italianaReprodução/X: @Azzurri Sandro Tonali da Itália, comemora o seu gol durante a partida entre Itália e Irlanda do Norte, pela repescagem das Eliminatórias Europeias para a Copa do Mundo 2026Reprodução/AFP DonnarumaReprodução/Instagram/@donnarumma
Buffon; Barzagli, Bonucci, Chiellini; Darmian, Marchisio, Pirlo, Verratti (Thiago Motta), De Sciglio; Balotelli (Parolo), Immobile (Cassano).Reprodução/ESPN Última participação da Azzurra no mata-mata da Copa do Mundo foi em 2006, ano do tetracampeonato italiano.Reprodução/FIFA
Voltar
Próximo
A Itália encerrou mais um ciclo sem conseguir atravessar o ponto de ruptura. E o acúmulo recente reforça a dimensão desse processo. Após o título mundial de 2006, vieram eliminações ainda na fase de grupos em 2010 e 2014. A conquista da Eurocopa em 2021 trouxe um momento de afirmação, mas sem continuidade prática no ciclo seguinte. A ausência no Mundial de 2022 já indicava um deslocamento importante. Agora, a terceira eliminação consecutiva consolida essa trajetória.
Ao longo de sua história, a seleção italiana construiu identidade baseada em organização, leitura tática e capacidade de decidir sob pressão. Gerações lideradas por nomes como Roberto Baggio, Gianluigi Buffon, Fabio Cannavaro e Andrea Pirlo, consolidaram esse perfil ao longo de décadas.
Era uma seleção que intimidava antes da bola rolar. Era estética, tradição, e peso. Era até símbolo cultural. Camisa bonita, jogadores lendários, um campeonato forte, clubes gigantes, uma ideia de futebol que se sustentava. Até no videogame a Itália impunha respeito.
Hoje, o cenário é outro. E ele não se explica apenas por uma geração específica. Em 2010 e 2014, havia talento, nomes grandes, e ainda assim a queda veio na fase de grupos.
O que se vê em campo ajuda a entender o tamanho do problema. Um time que até abre o placar, mas não sustenta. Que tem a chance de matar o jogo e desperdiça. Moise Kean teve o lance do 2 a 0, livre, com espaço, com tempo. A definição não veio. A partir daí, o jogo mudou de dono, e a Itália passou a reagir ao invés de controlar.
As bolas começaram a ser rifadas, a tensão tomou conta. A expulsão escancarou a dificuldade de adaptação. A equipe se partiu, perdeu critério, perdeu calma. O empate chegou como consequência de um acúmulo de erros.
No meio disso tudo, uma figura poderia simbolizar perfeitamente o espírito da Itália clássica que já foi respeitada pelo mundo. Trata-se de Gianluigi Donnarumma. Goleiro de elite. Campeão europeu, protagonista em clube gigante, acostumado a jogos grandes. A Copa de 2026 poderia ser o palco de afirmação definitiva, o momento em que ele deixaria de ser apenas um grande goleiro de clube para se tornar a cara de uma seleção, protagonista de uma campanha, e o tipo de personagem que conduz um país dentro do torneio. Algo próximo do que Erling Haaland tende a representar para a Noruega.
Durante o jogo, esse enredo parecia possível. Defesas importantes, presença, leitura, saídas do gol como líbero, participação ativa. Era o tipo de atuação que constrói heróis em Copa. Tudo parecia se desenhar para ele ser o cara que segura o time e decide nos pênaltis. Mas o futebol, principalmente nesse nível, cobra no detalhe que define destino.
Nas penalidades, Donnarumma não conseguiu acertar. Foi para lados errados, e não conseguiu interferir. Na última cobrança, quando ainda havia margem para manter a Itália viva, acertou leitura de canto e altura, mas a bola passa por baixo do corpo. Um detalhe mínimo que definiu tudo. O símbolo perfeito de uma seleção que chega perto do controle, mas não sustenta até o fim.
Essa Itália até tem talento. Mas falta imposição e identidade clara em momentos decisivos. Isso acaba culminando na incapacidade de transformar contexto em resultado. É um time que joga pressionado, sente o jogo, mas não consegue executar com naturalidade quando o cenário aperta.
Isso pesa ainda mais quando se olha para o contexto. Uma Copa do Mundo ampliada, com 48 seleções, abrindo espaço para países que historicamente sequer sonhavam com a competição. Nesse ambiente, a ausência da Itália deixa de ser apenas surpreendente e passa a ser sintomática.
O banco também carrega simbolismo. Ver alguém como Gennaro Gattuso, que representava intensidade, agressividade, imposição, hoje comandando um time que não consegue sustentar essas características, reforça essa sensação de ruptura.
A Itália redefiniu seu lugar pois deixou de ser inevitável. Antes, era presença obrigatória. Depois, dúvida. E em três ciclos consecutivos sem se classificar para a Copa do Mundo, agora caminha para o ostracismo, pois as novas gerações não terão noção do tamanho dessa seleção, pois passado no presente não impacta resultados e nem compra respeito.
O futebol sempre abre espaço para renovação, novas forças, e histórias improváveis. Mas há seleções que pertencem ao extraordinário por construção histórica. Quando elas deixam de estar, o vazio que fica no ar é inevitável. A Itália segue sendo histórica. O problema é que, no presente, virou insuficiente para sustentar o peso da própria história.


