Há atores que passam anos tentando provar que são versáteis. Outros simplesmente mostram isso quando surge a oportunidade certa. Este parece ser o momento de Kelzy Ecard, que está no ar em “Três Graças” e “Dona Beja”.
Premiada no teatro muito antes de ganhar projeção na televisão, a atriz foi apresentada ao grande público em Segundo Sol. Desde então, construiu uma trajetória consistente na TV, quase sempre associada a personagens mais vulneráveis; mulheres humildes, sofridas, marcadas por conflitos sociais ou emocionais.
Leia Também
Carla Bittencourt
Opinião: Ausência de Sophie Charlotte no “Melhores do Ano” é difícil de explicar
Carla Bittencourt
Opinião: Xamã pode ir muito além do bandido de gíria afiada de “Três Graças”
Carla Bittencourt
Opinião: Alana Cabral transforma dor de Joélly em atuação de alto nível em “Três Graças”
Carla Bittencourt
Opinião: Nilson Klava surpreende e renova Nova York no “Globo Repórter”
Agora, porém, Kelzy vive um momento particularmente interessante da carreira: está no ar em duas produções muito diferentes, com personagens que revelam dimensões opostas do seu repertório.
Na novela “Três Graças”, ela interpreta Helga, uma bandida de primeira linha e braço esquerdo da vilã Arminda, personagem de Grazi Massafera. Trata-se de uma figura dura, estratégica e perigosa — dessas que falam pouco, mas sempre deixam claro que são capazes de tudo para proteger os interesses do seu grupo.
Já em “Dona Beja”, no ar na HBO Max, o caminho é completamente diferente. Lá, Kelzy vive Augusta, uma beata conservadora que se coloca como uma das principais opositoras da protagonista Beja, também interpretada por Grazi Massafera. É uma personagem marcada por um moralismo agressivo: uma mulher que usa a religião para justificar discursos gordofóbicos, homofóbicos e profundamente machistas.
O mais interessante é que não se trata apenas de dois papéis diferentes. A atriz parece desaparecer dentro deles.
A Helga de “Três Graças” é seca, contida, quase sempre calculando o próximo movimento. Já Augusta, em Dona Beja, é movida por um fervor moral que transborda em gestos, olhares e discursos inflamados. Até visualmente as duas figuras parecem pertencer a universos distintos.
Essa transformação não surpreende quem acompanha a trajetória de Kelzy nos palcos. No teatro, ela sempre foi reconhecida pela capacidade de composição e pela entrega física às personagens; qualidades que agora aparecem com mais evidência para o grande público.
Há também um detalhe simbólico nesse momento da carreira: Kelzy Ecard não pertence à geração de atrizes reveladas ainda adolescentes pela televisão. Sua chegada ao horário nobre foi relativamente tardia, depois de anos de estrada no teatro. Talvez por isso mesmo cada personagem venha carregada de um repertório dramático mais maduro.
Ao aparecer simultaneamente em duas produções importantes e com personagens tão opostos, Kelzy reforça algo que a televisão às vezes demora a reconhecer: estamos diante de uma atriz capaz de transitar com segurança entre registros muito diferentes.


