A escalada do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã provocou uma forte alta no preço do petróleo e impulsionou as ações da Petrobras na Bolsa de Valores. Os papéis preferenciais PETR4 registraram valorização expressiva nas últimas semanas, acompanhando a disparada da commodity no mercado internacional.
Especialistas avaliam que o cenário atual configura um novo “choque do petróleo”, o terceiro em cerca de 50 anos, após os episódios de 1973 e 1979. Diferentemente do passado, porém, o Brasil chega a esse momento como produtor relevante e exportador de petróleo bruto.
A valorização das ações da estatal está diretamente ligada ao aumento do preço do barril. Em cerca de um mês, os papéis saltaram de pouco mais de R$ 39 para aproximadamente R$ 47, acumulando alta próxima de 20%. No mesmo período, o petróleo Brent passou de US$ 73 para mais de US$ 100, refletindo tensões no Oriente Médio e riscos à oferta global.
“Considerando que todos os outros fatores permaneçam inalterados, os preços do petróleo em alta poderiam aumentar exportações e receitas tributárias [do Brasil], assim como dividendos fluindo para o Tesouro”, afirmam os economistas István Kecskeméti e Zoltan Horváth em análise divulgada no dia 11 de março no site da consultoria húngara OTP Global Markets.
Além do cenário externo, analistas apontam que a Petrobras também se beneficia de fatores internos, como a retomada de investimentos em exploração e a modernização das refinarias. O bom desempenho recente da companhia já vinha sendo observado antes mesmo da crise geopolítica.
Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que a produção brasileira atingiu recorde em fevereiro, com 5,304 milhões de barris de óleo equivalente por dia. Esse avanço reforça a posição do país como exportador, embora ainda dependa da importação de derivados como diesel e gasolina.
Nesse contexto, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, indicou que a estatal pode antecipar a autossuficiência em diesel. “Muito provavelmente, porque a Petrobras adora desafios, quem sabe a gente chega com a possibilidade de ter um novo plano de negócios capaz de entregar a autossuficiência do Brasil em diesel”, disse na quarta-feira (1º).
Apesar dos ganhos para a empresa e para as contas públicas, o cenário também traz preocupações. A alta do petróleo tende a pressionar preços de combustíveis e insumos estratégicos, como fertilizantes, com impacto direto sobre a inflação e a produção agrícola.
“Para a economia brasileira, a grande preocupação centra-se no diesel – e, acima de tudo, nos fertilizantes”, afirma o ex-vice-presidente do Banco Mundial Otaviano Canuto em artigo publicado na quarta-feira (1/4) no site do Centro de Política para o Novo Sul (Policy Center for the New South).
O governo federal acompanha os desdobramentos da crise e já adotou medidas para conter os efeitos, como redução de tributos e subsídios ao diesel. Ainda assim, episódios recentes, como um leilão de gás de cozinha com preços elevados, geraram reação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Foi feito um leilão, eu diria que uma cretinice, bandidagem que fizeram”, disse.
Historicamente, o valor das ações da Petrobras reflete tanto o cenário internacional quanto fatores internos. Em 2021, durante a pandemia, os papéis chegaram a R$ 23. Já em 2022, impulsionados pela guerra na Ucrânia, alcançaram R$ 32, antes de oscilar com incertezas políticas.
“Desde janeiro de 2023, o que se vê é um processo de recuperação do valor das ações”, sustenta.
A recente valorização também evidencia a forte correlação entre o preço do petróleo e o desempenho da estatal. O Brent chegou a ultrapassar US$ 116 em março, diante da ameaça de bloqueio do estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa cerca de um quinto da produção mundial.
Para especialistas, o momento atual combina fatores conjunturais, como o conflito no Oriente Médio, com aspectos estruturais da Petrobras, incluindo aumento da produção no pré-sal e melhora na lucratividade.
“Este ano, a Petrobras já subiu mais de 50% [em valor de mercado]. Em março, ela subiu 18%. Isso decorre de fato do conflito no Oriente Médio, com a alta dos preços dos combustíveis”, explica o professor Maurício Weiss.
Ao mesmo tempo, o cenário global reforça desafios de longo prazo. A dependência de combustíveis fósseis ainda é dominante, embora países como a China avancem na diversificação energética.
“A China tem petróleo, carvão e minerais críticos, mas tem apostado nos últimos anos na não-dependência do petróleo.”
Diante desse contexto, analistas defendem que a Petrobras amplie sua atuação para além do petróleo, acompanhando a transição energética global.
“O futuro vai depender dessa relação de forças. Se, por um lado, esse modelo americano, que considero insustentável, permanecer por mais tempo, isso adiará a transição energética. Se houver uma mudança de direção nos Estados Unidos, com um governo mais preocupado com isso, crescerá o espaço para políticas que vão no mesmo sentido”, finaliza.
Com informações do G1.


