A recente fala da personal trainer Carol Borba, ao dizer que oferece whey protein e creatina para a filha de 3 anos, acendeu um alerta, o argumento parece simples: “é melhor que achocolatado”, mas essa comparação ignora um ponto central: suplementos esportivos não foram feitos para crianças.
Antes de qualquer debate, existe um fato objetivo: a Anvisa exige que esses produtos tragam no rótulo a frase: “Este produto não se destina a menores de 19 anos.” Isso não é excesso de zelo. É falta de evidência de segurança.
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Creatina: funciona em adultos
A creatina é um dos suplementos mais estudados no mundo. Em adultos, há consenso: ela melhora o desempenho em exercícios de alta intensidade ao otimizar a produção de energia. Em crianças, os estudos existem quase exclusivamente em contextos clínicos, como doenças neuromusculares e erros metabólicos raros. Para crianças saudáveis, não há dados de segurança a longo prazo. E aqui entra um ponto básico: o organismo infantil ainda está em desenvolvimento, especialmente rins e fígado. Introduzir creatina sem necessidade clínica vai contra o princípio mais importante da pediatria: não expor ao risco sem benefício comprovado.
Whey protein: não é comida saudável, é ultraprocessado (principalmente falando de crianças)
O whey protein costuma ser visto como sinônimo de saúde, mas na prática ele é um produto ultraprocessado. A maioria das versões contém:
adoçantes artificiais
aromatizantes
corantes
Estudos, mostram que adoçantes artificiais podem alterar a microbiota intestinal e prejudicar o metabolismo da glicose. Isso é ainda mais acentuado quando falamos da população pediátrica, que ainda está em processo de formação da sua microbiota. Além disso, existe um risco menos óbvio: excesso de proteína na infância, que pode parecer loucura no momento hiperproteico que o mundo vive, mas a verdade é que a maior parte da população não precisa de tanta proteína, ainda mais quando falamos em pediatria.
A chamada Hipótese da Proteína Precoce mostra que ingestões elevadas nessa fase aumentam hormônios como IGF-1 e insulina, favorecendo:
maior acúmulo de gordura
ganho de peso acelerado
maior risco de obesidade e diabetes no futuro
Ou seja: tentar “nutrir melhor” pode, na prática, programar o metabolismo para adoecer depois.
O mito do “melhor que achocolatado”
Comparar whey com achocolatado cria uma falsa escolha. Não é preciso decidir entre açúcar ou ultraprocessado proteico. Existe outras milhares de opções, com comida.
Leite, frutas, ovos, iogurte natural, pão, verduras, legumes… Sem rótulo chamativo, sem promessa exagerada, e com muito mais valor nutricional real.
O prejuízo invisível: o paladar infantil
Aqui está o ponto mais negligenciado, e talvez o mais importante. A infância é a fase em que o cérebro aprende a comer. Textura, cheiro, sabor, mastigação, tudo isso constrói a relação da criança com a comida. Quando a alimentação é substituída por líquidos doces e artificiais:
o paladar se condiciona ao excesso de doçura
aumenta a rejeição a alimentos naturais
cresce a neofobia alimentar (medo de novos alimentos)
Uma vitamina de whey nunca vai ensinar:
a crocância de uma cenoura
a cremosidade de um abacate
o sabor real de uma fruta madura
E isso não aparece em tabela nutricional, mas impacta a saúde por décadas.
A armadilha da praticidade
Os “wheys prontos” parecem solução fácil para colocar nas lancheiras, mas para crianças, trazem problemas claros:
Proteína em excesso
Uma única caixinha pode entregar quase toda a necessidade diária de proteína de uma criança (dependendo da idade)
Falta de mastigação
Alimentos líquidos não geram a mesma saciedade e prejudicam o desenvolvimento da mastigação e da face.
O que oferecer no lugar?
Sem radicalismo:
pão com ovo;
iogurte natural com fruta;
queijo quente;
frutas com aveia;
pipoca;
milho cozido;
bolo simples;
crepioca;
tapioca com recheio de frango;
cuscuz com ovo;
vitamina de abacate;
muffins caseiros (banana + aveia + ovo);
homus (pasta de grão de bico) com cenoura;
ovos de codorna com tomate cereja;
wrap com pasta de ricota temperada;
suco de fruta para maiores de 2 anos entre outras opções.
Quando suplementar faz sentido?
Sim, existe espaço para suplementação na infância. Casos como:
desnutrição;
doenças crônicas;
condições neurológicas.
Nessas situações, são usadas fórmulas pediátricas específicas, desenvolvidas para essa faixa etária, completamente diferentes de suplementos esportivos ou de qualquer suplemento destinado a população adulta.
O ponto final
Criança não precisa de whey.
Criança não precisa de creatina.
Criança precisa de:
variedade
comida
experiências com o alimento
O desenvolvimento saudável não vem de um pote. Vem do prato.
Lista de Referências
SUEZ, J. et al. Artificial sweeteners induce glucose intolerance by altering the gut microbiota. Nature, v. 514, n. 7521, 2014.
ANVISA. Resolução RDC nº 243, de 26 de julho de 2018 (Suplementos Alimentares).
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, 2019.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Guia Alimentar para População Brasileira, 2014.
SBP. Manual de Orientação de Nutrologia: Alimentação da Criança e do Adolescente. 5ª Ed., 2023.


