19 de junho de 2026

Canetas emagrecedoras intensificam pressão por magreza e preocupam especialistas

Canetas emagrecedoras intensificam pressão por magreza e preocupam especialistas
Foto: Receita Federal/Divulgação.

O uso de canetas emagrecedoras tem crescido no Brasil e reacende o debate sobre pressão estética e padrões de beleza, especialmente diante do aumento do consumo desses medicamentos sem acompanhamento médico ou indicação clínica.

Apesar dos resultados expressivos no tratamento clínico, especialistas alertam que a popularização do uso sem acompanhamento médico reforça padrões estéticos e pressões sociais relacionadas ao corpo.

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Para a professora da Universidade de São Paulo (USP), Fernanda Scagluiza, esse fenômeno está ligado ao que ela define como “economia moral da magreza” — um sistema social que atribui valores diferentes aos corpos.

Segundo a pesquisadora, corpos magros costumam ser associados a disciplina, controle e sucesso, enquanto pessoas gordas ainda enfrentam estigmas como preguiça, desleixo e falta de competência — estereótipos que não correspondem à realidade.

Esse cenário, segundo ela, gera desigualdade nas relações sociais, com privilégios para quem se encaixa no padrão e exclusão para quem está fora dele.

Pressão estética e padrões de beleza

A especialista destaca que padrões de beleza sempre existiram, mas tendem a excluir grande parte da população. “Quando você cria um padrão, automaticamente deixa muita gente de fora”, afirma.

Ela também chama atenção para o papel da indústria, que se beneficia dessa exclusão ao oferecer soluções para atingir esses padrões, como dietas, procedimentos e agora medicamentos.

Na avaliação da professora, a atual popularização das canetas pode estar reforçando um retorno à valorização da magreza extrema, inclusive em ambientes como a moda.

Impactos na saúde mental

Outro ponto de preocupação é o efeito desses medicamentos na relação das pessoas com a alimentação.

Segundo a pesquisadora, há casos em que o uso das canetas leva à restrição alimentar extrema e à chamada “medicalização” do comportamento alimentar — quando comer deixa de ser um ato natural e passa a ser tratado como intervenção médica.

Relatos analisados por estudos apontam que algumas pessoas passam a ver o medicamento como uma forma de eliminar a fome, o que pode gerar comportamentos prejudiciais e riscos à saúde.

Efeito sobre mulheres e sociedade

A pressão estética tende a afetar especialmente as mulheres, que já enfrentam desigualdades sociais e culturais. Para a especialista, o foco excessivo na busca pela magreza pode desviar a atenção de questões mais amplas, como direitos e igualdade.

Ela alerta que esse movimento ocorre em um contexto de avanço de discursos conservadores, o que torna o cenário ainda mais preocupante.

Debate necessário

Embora reconheça os benefícios clínicos das canetas quando usadas corretamente, a especialista reforça que o debate precisa ir além da eficácia e considerar os impactos sociais, culturais e psicológicos desse fenômeno.

Com informações da Agência Brasil.