A morte do fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley, de 22 anos, gerou grande repercussão após o atestado de óbito apontar cardiomiopatia hipertrófica como causa da morte súbita do jovem. A condição, considerada grave e muitas vezes silenciosa, afeta diretamente o músculo do coração e pode levar a complicações fatais, inclusive em pessoas jovens e aparentemente saudáveis. Em entrevista ao portal LeoDias, os cardiologistas Dr. Giulio Cesare e Dr. Edmo Atique Gabriel explicaram os riscos da doença, os sinais de alerta e a possível relação entre o quadro e o uso de anabolizantes.
Segundo Dr. Giulio Cesare, a cardiomiopatia hipertrófica é uma alteração estrutural importante no coração. “A cardiomiopatia hipertrófica é uma doença do músculo cardíaco onde as paredes da musculatura do coração ficam muito espessadas, bem mais que o normal, na maioria dos casos, possui origem genética e é responsável por quase 90% das mortes súbitas em pacientes menores que 35 anos. O problema é que esse espessamento pode dificultar o enchimento e a saída do sangue do coração, além de aumentar muito o risco de arritmias graves.”
Veja as fotosAbrir em tela cheia Gabriel Ganley em podcastFoto: Reprodução Gabriel Ganley tinha 22 anos de idadeReprodução: Instagram/@ganleygabriel Gabriel Ganley relatou ter sofrido confusão mental após uso de insulina semanas antes de morrerFoto: Reprodução Gabriel GanleyReprodução: Instagram/@ganleygabriel Gabriel Ganley faleceu neste sábado (23/5), aos 22 anosReprodução: Instagram/@ganleygabriel
Com mais de 2 milhões de seguidores, Gabriel Ganley era um dos nomes mais conhecidos no cenário de fisiculturismo nacional.Reprodução/@ @ganleygabriel Gabriel GanleyFoto: Reprodução/Instagram @ganleygabriel Gabriel GanleyFoto: Reprodução/Instagram @ganleygabriel Gabriel GanleyReprodução: Instagram/@ganleygabriel Gabriel Ganley morreu neste sábado (23/5).Reprodução/@ganleygabriel
Fisiculturista Gabriel Ganley morre aos 22 anosInstagram @ganleygabriel Fisiculturista Gabriel Ganley morre aos 22 anosInstagram @ganleygabriel Fisiculturista Gabriel Ganley morre aos 22 anosInstagram @ganleygabriel Instagram @ganleygabriel Fisiculturista Gabriel Ganley morre aos 22 anos após quadro de hipoglicemiaInstagram @ganleygabriel
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Na mesma linha, Dr. Edmo Atique Gabriel destacou que o espessamento progressivo do músculo cardíaco compromete o funcionamento do órgão ao longo do tempo. “Esta doença consiste no espessamento das paredes do coração . O músculo cardíaco vai engrossando de forma progressiva, podendo ter causas genéticas ou também ser causada pelo estímulo de substâncias como anabolizantes .”
Os especialistas alertam que a doença pode permanecer silenciosa por muitos anos. Dr. Giulio explicou que “Na maioria das vezes é assintomática, e quando aparecem sintomas, os principais são falta de ar, dor no peito, palpitações, tontura, desmaios e queda de desempenho físico. Em casos mais graves, pode ocorrer logo de cara arritmia e até morte súbita.”
Complementando a explicação, Dr. Edmo afirmou que “Esta doença passa despercebida durante muito tempo e só vai dar sintomas em fases mais avançadas, quando o grau de espessamento do músculo cardíaco é severo.”
Questionados sobre a possibilidade de morte súbita em jovens, os dois médicos foram categóricos ao afirmar que a cardiomiopatia hipertrófica está entre as principais causas desse tipo de ocorrência em atletas e pessoas abaixo dos 35 anos.
“Sim. A principal causa de morte súbita em jovens atletas e pessoas abaixo dos 35 anos. Acontece que com o espessamento da musculatura do coração “para dentro”, pode provocar arritmias graves, especialmente durante esforço físico intenso, quando o coração é mais exigido. Muitas vezes, a pessoa não apresenta sintomas prévios, o que torna a doença ainda mais perigosa quando não diagnosticada”, afirmou Dr. Giulio.
Dr. Edmo acrescentou: “Sim , nos casos mais avançados, pode ocorrer morte súbita . O coração vai ficando muito ‘duro’ , muito rígido, tendo dificuldades para bater adequadamente e começa a apresentar arritmias (desorganização dos batimentos) e perda de força para bombear os sangue”
Sobre o caráter hereditário da doença, ambos reforçaram a importância da investigação familiar e do acompanhamento cardiológico preventivo. “Na maioria dos casos, tem origem genética, por isso recomendamos avaliação em familiares de portadores da doença ou com morte súbita”, explicou Dr. Giulio.
Já Dr. Edmo ressaltou: “Esta doença , em alguns casos, pode ter caráter hereditário. Quando for identificado este traço familiar , deve ser feito acompanhamento cardiológico rigoroso nos descendentes. O exame mais direto que se faz é o ecocardiograma transtorácico com doppler colorido”.
A prática intensa de exercícios físicos também pode representar risco em pessoas que já possuem a condição. Dr. Giulio fez questão de diferenciar a doença do chamado “coração de atleta”. “É importante enfatizar que a pessoa precisa ter a doença. Em um indivíduo saudável, isso não acontece, nem a cardiomiopatia hipertrófica será desenvolvida pela atividade física, o que encontramos no exercício intenso, algumas vezes, é o ‘coração de atleta’, bem diferente da cardiomiopatia hipertrófica. Em pessoas portadoras da doença, a atividade física intensa pode aumentar o risco de eventos graves, incluindo desmaios e morte súbita. Muitas vezes alguns fazem uso de anabolizantes o que favorece e muito o desenvolvimento da doença.”
Dr. Edmo também destacou os riscos do excesso: “Sim, existe esta relação em caso de atividades físicas executadas em grandes proporções e com intervalos muito curtos entre cada data de treino . Para exemplificar, se a pessoa treina pesado praticamente todos os dias, pode haver o agravamento”.
O uso de anabolizantes foi outro ponto abordado pelos especialistas. Dr. Giulio afirmou que “Sim e muito. O uso de esteroides anabolizantes pode aumentar significativamente os riscos cardiovasculares em pessoas com cardiomiopatia hipertrófica, elevando o risco de insuficiência cardíaca e morte súbita, especialmente durante esforço físico intenso. Estudos mostram que há um aumento de até 3x mais o risco de morte súbita e no fisiculturismo que usa anabolizante esse aumento chega até a 7 vezes mais”.
Dr. Edmo reforçou o alerta. “Com certeza , visto que os anabolizantes são hormônios que , dependendo da dose e da frequência de utilização, podem estimular o aumento da massa muscular do coração. Muitas vezes este crescimento do músculo cardíaco é absolutamente desproporcional, podendo levar a falência progressiva do coração e morte.”
Em relação ao diagnóstico, os médicos destacaram exames considerados essenciais para identificar a doença precocemente. “Os principais exames são o eletrocardiograma e, principalmente, o ecocardiograma, exames simples e comuns de serem feitos. Outros exames também ajudam, como a ressonância magnética e avaliação genética, mas esses dois já são excelentes para o diagnóstico e rastreio”, explicou Dr. Giulio.
Dr. Edmo completou: “O exame mais direto seria o ecocardiograma transtorácico com doppler colorido. Para aprofundar esta investigação, a ressonância magnética do coração ajuda bastante”.
Os especialistas ainda afirmaram que é possível conviver com a doença após o diagnóstico, desde que haja acompanhamento médico adequado e mudanças no estilo de vida.
“Muitos pacientes conseguem ter boa qualidade de vida após o diagnóstico, principalmente quando há acompanhamento adequado. E hoje, diferente de como era antigamente, exercícios não são totalmente contra indicados, a depender da particularidade de cada paciente. O tratamento depende da gravidade, medicamentos para controlar sintomas e arritmias, restrições a exercícios intensos em alguns pacientes, acompanhamento cardiológico regular e, em situações específicas, implante de desfibrilador cardíaco para prevenção de morte súbita”, disse o Dr. Giulio.
Já Dr. Edmo afirmou: “Sim , está convivência depende do estágio da doença , ou seja , em casos não avançados , a pessoa consegue manter uma rotina relativamente normal . O tratamento começa mudando os hábitos e o estilo de vida , especialmente não usando anabolizantes sem orientação adequada . Em casos mais avançados, pode ser necessário um procedimento cirúrgico .”
Antes da divulgação do atestado de óbito, chegou a ser levantada a hipótese de que Gabriel pudesse ter sofrido hipoglicemia após o uso de insulina para fins estéticos. Sobre essa possibilidade, Dr. Giulio explicou que “A hipoglicemia grave pode provocar uma descarga de adrenalina, aumentando a frequência cardíaca e favorecendo arritmias. Em pessoas com cardiomiopatia hipertrófica, isso pode elevar ainda mais o risco de complicações cardiovasculares graves.”
O médico ainda alertou para os perigos do uso inadequado da substância. “O uso inadequado de insulina por pessoas não diabéticas, especialmente para fins estéticos ou de performance, pode ser extremamente perigoso. A insulina vem sendo utilizada por alguns fisiculturistas de forma inadequada na tentativa de aumentar o ganho muscular e melhorar o armazenamento de glicogênio no músculo. Isso ocorre porque a insulina é um hormônio altamente anabólico, capaz de aumentar a entrada de glicose e aminoácidos nas células. A principal complicação é a hipoglicemia grave, que pode causar sudorese, tremores, confusão mental, perda de consciência, convulsões e até morte.”
Dr. Edmo também comentou a relação entre o uso inadequado de insulina e o agravamento da doença cardíaca. “Sim, existe a possibilidade deste tipo de uso da insulina piorar o quadro de hipertrofia do coração e também causar fraqueza e falta de energia devido a hipoglicemia. A insulina é um hormônio também e seu uso exagerado pode favorecer o crescimento descontrolado do músculo cardíaco”.



