Entre a ciência e o lúdico: Neymar pode protagonizar o maior roteiro da história das Copas?
A convocação de Neymar colocou o Brasil diante de um conflito raro entre razão e emoção. De um lado, existe a análise fria: lesões sucessivas, baixa minutagem, desempenho irregular e um ambiente que transmite mais espetáculo midiático do que segurança esportiva. Do outro, permanece viva a força irracional que transformou o futebol na maior paixão popular do planeta. No fundo sabemos que a chance dessa história terminar em glória é mínima. Mas cá entre nós: caso aconteça, será a catarse nacional mais impactante da história, construída em cima do personagem mais simbólico, controverso e emocionalmente poderoso do futebol brasileiro nos últimos 15 anos.
Caro leitor, eu exaltei Neymar quando ele retornou ao Santos, com esperança, emoção e memória afetiva. E, no meio do debate acalorado sobre sua convocação, também escrevi um texto totalmente cético, frio e sustentado por números, desempenho e contexto competitivo. As duas ideias dizem exatamente o que penso sobre o astro brasileiro.
Veja as fotosAbrir em tela cheia Neymar Jr.Crédito: Reprodução @neymarjr Endrick e NeymarReprodução O jogador foi às suas redes sociais publicar o vídeo mostrando de perto que estava, de fato, coçando os ouvidosReprodução: Instagram/@neymarjr Neymar discutindo com torcedorCrédito: Reprodução X
Neymar discutindo com torcedorCrédito: Reprodução X Neymar Jr.Créditos: Reprodução @neymarjr e @panini Raphinha e Neymar na SeleçãoReprodução/ Lucas Figueiredo/CBF
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No texto mais racional, citei a análise do jornalista Marcelo Bechler, que definiu Neymar como uma ideologia. E faz sentido. O debate em torno dele deixou de ser puramente futebolístico há muito tempo e virou numa espécie de campo de crença. Um lugar onde muitos já não enxergam mais o jogador, mas sim o símbolo que criaram dele.
Usei dados de sites de estatísticas como sequência física, minutagem e desempenho recente. Tudo isso importa. Futebol é ciência. Preparação física é ciência. Intensidade é ciência. Performance em alto nível é ciência. Mas, ao mesmo tempo, esse esporte nunca foi apaixonante por ser exato. E é aí que entra o outro lado da discussão.
Parafraseando o jornalista Rica Perrone, o que transforma o futebol nesse fenômeno emocional absurdo é justamente o fato dele escapar da lógica o tempo inteiro. Futebol nem deveria ser tão fascinante. Um esporte onde 22 homens correm atrás de uma bola não deveria causar colapso emocional coletivo em milhões de pessoas. Mas causa. Porque existe algo nele que transcende a matemática.
São os rituais, a superstição, estádio pulsando. O grito engasgado. A catarse. A sensação quase religiosa que um gol improvável provoca. Aquele instante onde desconhecidos se abraçam como irmãos. O futebol vive desse delírio emocional que nenhuma ciência consegue explicar completamente.
O debate que virou caricatura
Agora, antes de qualquer coisa, preciso fazer um adendo importante sobre parte dessa discussão que virou uma caricatura constrangedora da imprensa esportiva.
Essa narrativa de que existe uma perseguição política contra Neymar, de que a imprensa odeia ele por lado ideológico, de que há um complô midiático organizado… sinceramente, isso empobrece o debate num nível assustador. E mais: muita gente que critica “militância” faz exatamente a mesma coisa, apenas do lado oposto.
Transformaram análise esportiva numa guerra de bolhas. Tudo vira esquerda, direita, narrativa. É lacração barata de todos os lados. É aí que o futebol desaparece. Permitam esse foca em início de carreira trazer uma visão insignificante no meio dessa barulheira toda: eu acredito, sim, que dá pra fazer jornalismo sem transformar tudo numa trincheira ideológica.
Eu admiro muita coisa que nomes como Rica Perrone e Pilhado fazem. Mas também admiro muito profissionais como PVC e Mauro Cezar. São estilos diferentes. Linguagens diferentes. Visões diferentes. E todos são jornalistas relevantes. O problema começa quando o debate deixa de ser sobre futebol e vira uma necessidade desesperada de alimentar uma torcida política dentro da própria imprensa. Isso esvazia completamente nosso ofício.
Neymar, geração e frustração
Eu vi Neymar nascer pro futebol. Vi o garoto da Copinha. Vi o Santos de 2010. Vi a Copa das Confederações. Vi o Barcelona. Vi o ouro olímpico. Eu já paguei muito pau pro Neymar. Toda vez que ele fez algo absurdo, eu vibrei junto. Sem dúvida é o cara da minha geração.
Assisti Ronaldo, Ronaldinho e Kaká, mas eles já estavam em outro estágio da carreira quando comecei a acompanhar futebol de verdade. Neymar não. Ele eu acompanhei desde o começo.
Pra muita gente de gerações anteriores à minha, Neymar representa a saudade do que o futebol brasileiro já foi. Pra minha geração, ele é a própria memória afetiva. Ele não lembra algo grandioso. Ele é esse algo grandioso.
Deve ser por isso que exista tanto amor e frustração ao mesmo tempo. O hater quase nunca nasce da indiferença. Ele nasce da decepção. Da sensação de ter visto alguém com capacidade de dominar o futebol mundial escolher, inúmeras vezes, alimentar o próprio caos.
Qualquer pessoa minimamente sensata ficou constrangida em vários momentos da carreira dele. E nem foi por política. É questão de postura mesmo. Essa imaturidade em momentos chaves. Um excesso de ruído em torno da própria figura totalmente desnecessário, junto de uma incapacidade quase permanente de fugir de confusões evitáveis.
O problema do Neymar nunca foi pessoal. O lance mesmo é: como ignorar essa relação de uma figura do tamanho dele com a própria responsabilidade? Ter personalidade e ser descolado é completamente diferente de escolher deliberadamente ser sem noção. E isso a gente sabe que ele foi muitas vezes. Vai ver que essa babação de ovo e isenção de crítica dos que os cercam tenha contribuído para tal.
A redenção perfeita já está roteirizada
Dentro disso tudo, existe algo extremamente poderoso nessa convocação, porque ela alimenta o impossível. Ninguém vai ficar triste se Neymar destruir essa Copa. Ninguém. O crítico do Neymar quer muito ser calado por ele dentro de campo. Motivo pra comemorar. Voltar a sentir orgulho pleno daquele jogador que um dia parecia destinado a colocar o futebol brasileiro novamente no topo do mundo. E é aí que mora o lado lúdico nesse contexto, pois se isso acontecer, será provavelmente a maior redenção da história do futebol.
O roteiro está pronto. Jogador desacreditado, histórico de lesão, cercado por críticas, questionado fisicamente…. e ainda pode ser protagonista de uma última dança improvável. Caso Neymar consiga transformar esse cenário em glória, será uma catarse coletiva num nível absurdo de explicar.
O país inteiro vai chorar junto. Por um instante, ninguém vai querer saber de esquerda, direita, bolsonarismo, progressismo, imprensa, narrativa ou lacração. Os muros desaparecem. O futebol faz isso. A Copa faz isso. Ela cria um raro momento onde o Brasil lembra que ainda consegue vibrar junto por alguma coisa. Nessas horas, até inimigo se abraça, e ao menos por 1 segundo, toda polarização desse país vai se dissipar.
A parte racional aponta para outro lugar
Essa parte lúdica representa talvez 0,1% da realidade. Pois quando a emoção baixa e os fatos entram em campo, o cenário muda brutalmente. E os acontecimentos hoje apontam muito mais para uma Seleção confusa do que para uma candidata sólida ao título.
A convocação em si já transmite contradições difíceis de ignorar. Ancelotti fala constantemente sobre liderança, experiência e hierarquia competitiva, mas deixa fora um Thiago Silva de 41 anos atuando em alto nível no futebol europeu, enquanto leva nomes que sequer vivem qualquer resquício de protagonismo em seus próprios contextos atuais.
Sem desmerecer os que foram. Mas existe uma incoerência evidente no discurso. Se liderança pesa tanto, por que um dos maiores líderes da história recente da Seleção, como Thiago Silva, ficou fora? Se momento importa, como explicar algumas escolhas e cortes?
Esse 0,1% dentro desse roteiro carrega infinitas variáveis, contextos e possibilidades imprevisíveis. E antes que algum fiscal da literalidade apareça, eu sei que futebol não se mede assim matematicamente. Aqui fala um cara completamente de humanas. O número é figura de linguagem. Embora o futebol seja científico em preparação, desempenho e intensidade, ele jamais será uma ciência exata. E justamente por isso ainda existe espaço pro acaso atravessar o destino.
Essa porcentagem é mínima, mas ela existe. E o quanto ela aumenta ou diminui depende diretamente da forma como Neymar vai lidar consigo mesmo daqui pra frente.
É nítido que existe ali uma dopamina completamente desregulada. Milhões de seguidores. Idolatria. Um celular cheio de estímulos. Poder. Status. Atenção constante. Todo tipo de distração possível cercando alguém que vive num nível de exposição impossível de dimensionar normalmente.
A sensação passada muitas vezes é a de alguém sempre buscando uma válvula de escape pra alimentar esse sistema nervoso acelerado. E isso aparece nos comportamentos repetitivos da carreira, polêmicas evitáveis, desgaste emocional, chiliques em campo, necessidade de responder tudo, tensão pública desnecessária.
Só que o caminho pra alcançar essa porcentagem improvável passa justamente pelo oposto disso. Menos ruído. Menos personagem. Menos distração. Treino. Sono. Recuperação física. Foco mental. Reconexão com o jogo. Talvez até tenha que aprender a ser mais coadjuvante dentro de um grupo que começa finalmente a criar novos protagonistas. Entender com humildade que existem outros talentos pedindo passagem. É enxergar, através deles, escolhas e posturas que ele próprio poderia ter tido lá atrás.
Endrick parece carregar muito disso. Vinicius Júnior também chega diante da grande oportunidade da carreira pela Seleção. A chance de finalmente transportar pro Brasil o protagonismo que já assumiu no Real Madrid. Vai ver a grande história dessa Copa nem seja Neymar voltando a ser o que era, mas sim entendendo, pela primeira vez, o que ele ainda pode ser.
O produto
A impressão passada pela CBF é de uma Seleção transformada em produto permanente de audiência. Um reality show esportivo movido por hype, engajamento, espetáculo e impacto midiático. O constrangimento daquela convocação no Museu do Amanhã parecia simbolizar exatamente isso: fumaça, evento, repercussão, emoção, marketing e pouquíssima sensação de organização esportiva verdadeira.
Tudo gira em torno de Neymar. Tudo. A convocação. O debate. A atmosfera. A pressão. A narrativa. O marketing. O engajamento. O espetáculo inteiro parece depender emocionalmente de um jogador que, racionalmente falando, não apresenta hoje nenhum indício concreto de que conseguirá sustentar qualquer protagonismo em uma Copa do Mundo.
O retrato final dessa Seleção
Esse é o grande retrato do Brasil às vésperas da Copa. Uma Seleção dividida entre aquilo que o futebol exige racionalmente, mais no que o país insiste emocionalmente em acreditar. Entre a ciência e o delírio coletivo. Agora resta esperar qual dos dois vai entrar em campo quando a bola rolar.