8 de julho de 2026

Opinião: Antes mesmo do último capítulo, “Três Graças” já pode ser chamada de um novelão

Opinião: Antes mesmo do último capítulo, “Três Graças” já pode ser chamada de um novelão
Opinião: Antes mesmo do último capítulo, “Três Graças” já pode ser chamada de um novelão

Esta coluna entra oficialmente de férias nesta quarta-feira (13). E talvez por isso exista uma pequena licença afetiva neste texto. Faltando ainda alguns capítulos para o fim de “Três Graças”, não vou esperar o último capítulo ir ao ar para dizer algo que, neste momento, já parece bastante claro: a novela de Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva é uma das melhores produções da dramaturgia brasileira dos últimos anos.

E talvez o mais interessante nisso tudo seja justamente o fato de que pouca gente apostava nisso lá atrás. A novela estreou cercada por desconfiança. Muito por causa do desgaste deixado por “Vale Tudo”. Embora tenha sido um sucesso comercial e de audiência, a releitura da clássica novela acabou ficando muito abaixo da expectativa artística que existia em torno dela. O público passou a olhar para as novelas das nove da Globo com um certo pé atrás. E “Três Graças” herdou diretamente esse ambiente.

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Só que a trama fez exatamente o que uma grande novela precisa fazer: conquistou o público no boca a boca, no capítulo a capítulo, sem precisar de escândalos artificiais ou repercussões vazias de rede social para se sustentar.

A grande força de “Três Graças” está justamente na combinação que parece cada vez mais rara na televisão: é uma novela popular, mas sem ser popularesca. Aguinaldo Silva conseguiu conversar com o grande público sem abrir mão de texto, construção de personagem e identidade autoral.

Existe ritmo, humor, melodrama e emoção de forma orgânica, bem escrita e muito consciente do universo que a novela quer construir.

A trama também acertou ao apostar em personagens fortes e facilmente reconhecíveis pelo público. Gerluce (Sophie Charlotte), Arminda (Grazi Massafera), Ferette (Murilo Benício), Paulinho (Romulo Estrela), Joélly (Alana Cabral), Raul (Paulo Mendes) e tantos outros entraram rapidamente no imaginário popular. E isso não acontece por acaso. A novela conseguiu fazer algo que muitas produções recentes têm dificuldade: criar personagens que parecem vivos fora da tela.

Outro mérito importante está na direção de Luiz Henrique Rios, que deu à novela uma estética moderna sem descaracterizar o DNA clássico do novelão das nove. “Três Graças” tem identidade visual, tem cenas impactantes, tem trilha marcante e tem aquele senso de acontecimento que durante muito tempo parecia ter desaparecido das novelas.

E talvez exista aí o principal ponto dessa análise: “Três Graças” devolveu ao público a sensação de acompanhar uma novela das nove de verdade. Uma novela que movimenta conversa, cria expectativa para o capítulo seguinte, gera torcida por personagens e entrega grandes momentos sem parecer refém de algoritmo ou de tentativa desesperada de viralização.

No fim das contas, a Globo acertou em cheio ao trazer Aguinaldo Silva de volta. E esta coluna espera sinceramente que o autor ainda não pense em aposentadoria. Mas, se resolver pendurar as chuteiras, sairá de cena da melhor maneira possível: entregando um novelão como a televisão brasileira já não via há bastante tempo.