A reação à contratação de Virginia Fonseca para um quadro ligado à Copa do Mundo no “Domingão com Huck” virou uma espécie de termômetro da internet: muita indignação, muita conclusão precipitada e pouca gente discutindo o que realmente está acontecendo.
Porque existe uma diferença importante entre “cobrir uma Copa do Mundo” e participar de um quadro de entretenimento dentro de um programa de entretenimento. Virginia não foi escalada para substituir jornalista esportivo, comentar jogo, entrevistar técnico em coletiva ou ocupar uma vaga tradicional da cobertura. Pelo que foi divulgado, a proposta envolve um conteúdo leve, voltado ao universo das esposas dos jogadores; algo que a televisão faz há décadas, em diferentes formatos.
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E talvez esteja aí a primeira distorção dessa história: criou-se uma narrativa de que a influenciadora estaria “roubando” espaço do jornalista. Mas roubando qual espaço exatamente? Porque dificilmente alguém que estudou quatro anos para ser jornalista (em especial quem se especializou no esporte) sonhava entrevistar mulher de jogador num quadro de variedades no maior evento esportivo do mundo. Tem quem queira? Sim. Mas tem também quem odiasse a função.
A verdade é que, gostando ou não dela, Virginia ocupa um espaço de relevância que simplesmente não pode ser ignorado. Ela é uma das mulheres mais seguidas do Brasil e movimenta uma audiência que a televisão aberta, há anos, tenta trazer para perto. Dá para criticar a influenciadora por inúmeros motivos, dá para discordar do conteúdo, dá para não consumir absolutamente nada do que ela faz. O que parece mais difícil é fingir que ela não tem impacto.
E Luciano Huck entendeu isso rapidamente. Talvez Huck seja hoje um dos poucos apresentadores da TV aberta que parecem fazer televisão pensando também no que vai acontecer depois, no celular. Ele não pensa apenas no ibope de domingo. Pensa no corte viral, na repercussão no X, nos comentários, nos vídeos, no debate que continua horas depois do programa acabar.
E, nesse sentido, a missão já foi cumprida porque antes mesmo de entrar no ar, Virginia já virou assunto nacional.
Aliás, não é a primeira vez que a televisão mistura entretenimento, celebridade e Copa do Mundo. Suzana Werner já participou de cobertura em 1998 quando namorava Ronaldo Fenômeno. Em outras épocas, humoristas, atores, cantores e personalidades ocuparam espaços semelhantes. Mais recentemente, houve estranhamento até com a presença de Jojo Todynho e Deborah Secco em conteúdos ligados ao Mundial. A diferença é que hoje a internet amplifica tudo.
Talvez a discussão real não seja “o que Virginia vai fazer na Copa?”. Talvez seja outra: por que ainda existe tanta dificuldade em aceitar que a televisão mudou? E, gostemos ou não, Huck parece ter entendido isso antes de muita gente.



