Organizações ligadas à defesa dos povos indígenas e da Amazônia divulgaram uma nota pública criticando declarações feitas pelo ex-prefeito de Rio Branco e pré-candidato ao governo do Acre, Tião Bocalom, durante entrevista ao programa “Gazeta Entrevista”.
A manifestação foi assinada pela Conexão Cipó e pela Comissão Transfronteiriça Juruá–Yurúa–Alto Tamaya. As entidades afirmam que as falas do político reforçam estereótipos históricos contra os povos indígenas e minimizam debates considerados importantes sobre proteção ambiental e desenvolvimento sustentável.
Durante a entrevista, Bocalom afirmou que “índio hoje não quer mais ficar lá no mato comendo bicho”, declaração que provocou reação imediata das organizações.
Na nota, as entidades afirmam que o discurso desconsidera a complexidade das discussões sobre preservação ambiental, territórios indígenas e projetos de infraestrutura na Amazônia.
Segundo o documento, declarações desse tipo acabam deslocando o foco de temas como prevenção ambiental, proteção territorial e governança socioambiental para uma visão baseada apenas na aceleração de obras e empreendimentos.
As organizações também argumentam que a fala enfraquece a importância de estudos técnicos, licenciamento ambiental e mecanismos de participação social previstos na legislação brasileira.
Outro ponto destacado pelas entidades é a preocupação com os impactos da abertura de estradas e ramais sem planejamento adequado, especialmente em áreas de fronteira entre Acre e Peru. Conforme a nota, obras sem controle podem facilitar invasões territoriais, grilagem de terras, exploração ilegal de madeira, avanço do narcotráfico e aumento da violência contra comunidades tradicionais.
“As reivindicações dos povos indígenas não são contra o desenvolvimento, mas contra a ausência de planejamento e o desrespeito às leis”, afirmam as organizações no documento.
A nota também rebate posicionamentos favoráveis à abertura de estradas em áreas protegidas sem a realização de estudos ambientais e consultas previstas em lei. Para as entidades, respeitar direitos indígenas e seguir os processos legais não representa obstáculo ao desenvolvimento, mas uma condição necessária para garantir equilíbrio entre crescimento econômico, justiça social e preservação ambiental.
As organizações destacam ainda que o acesso à internet, saúde, educação e infraestrutura é uma demanda legítima dos povos da floresta, mas afirmam que isso não deve ser usado como justificativa para obras realizadas sem planejamento.
Segundo o documento, muitas dessas vias acabam sendo utilizadas historicamente por madeireiros ilegais, grileiros e grupos ligados a atividades criminosas.
As entidades também defenderam a atuação de órgãos ambientais e do Ministério Público Federal (MPF), afirmando que ações para exigir licenciamento ambiental e suspender obras irregulares fazem parte das garantias previstas na Constituição.
Ao final da manifestação, as organizações reafirmaram a defesa dos direitos indígenas, da proteção ambiental e de políticas públicas baseadas em estudos técnicos, participação social e desenvolvimento sustentável na Amazônia.


