O relato de Brad Pitt sobre sofrer de prosopagnosia, condição conhecida popularmente como “cegueira facial”, voltou a chamar atenção para um transtorno neurológico ainda pouco conhecido pelo grande público. O ator revelou ter dificuldade para reconhecer rostos, inclusive de pessoas próximas, e afirmou temer ser visto como arrogante ou desinteressado por não identificar conhecidos em encontros do cotidiano. Apesar do apelido “cegueira facial”, a condição não está relacionada à visão, mas sim à maneira como o cérebro processa e reconhece faces. Para explicar melhor o diagnóstico do astro hollywoodiano, o portal LeoDias conversou com o neurologista Dr. Carlos Regoto.
Segundo um estudo publicado em 2023 na revista científica Cortex, por pesquisadores da Harvard Medical School e do VA Boston Healthcare System, uma em cada 33 pessoas pode apresentar algum grau de prosopagnosia. A pesquisa aponta ainda que uma em cada 47 pessoas convive com a forma leve do transtorno, enquanto uma em cada 108 apresenta quadros graves.
Veja as fotosAbrir em tela cheia Brad PittFoto: Reprodução / FOX Brad Pitt com Cliff Booth em “Era uma vez em… Hollywood”Reprodução/Sony Pictures Brad Pitt com Cliff Booth na continuação de “Era uma vez em… Hollywood”Just Jared/Reprodução Brad Pitt com Cliff Booth em “Era uma vez em… Hollywood”Reprodução/Sony Pictures Brad Pitt como protagonista de F1: O FilmeDivulgação / Apple TV+ Warner/Divulgação Brad PittReprodução / YouTube Brad PittReprodução Reprodução
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Segundo o especialista, “A prosopagnosia é condição neurológica adquirida ou congênita. Ela compromete a capacidade de reconhecer rostos, mesmo que seja alguém do convívio cotidiano. Dificuldade ou incapacidade de reconhecer rostos, como familiares, amigos ou até o próprio rosto no espelho em casos mais graves. A visão costuma estar preservada; o problema está no reconhecimento facial.”
O médico explica ainda como a condição interfere nas relações sociais e profissionais. “A condição pode gerar dificuldades importantes na vida social e profissional. Muitas pessoas deixam de reconhecer colegas, amigos e até familiares em encontros do cotidiano, o que pode causar constrangimento, ansiedade e isolamento. Em muitos casos, o paciente passa a identificar as pessoas por outros elementos, como voz, cabelo, roupas ou jeito de andar.”
De acordo com o neurologista, a dificuldade não está nos olhos, mas no processamento cerebral das imagens faciais. “O problema não está na visão em si, mas sim como o cérebro processa e identifica rostos. A pessoa consegue enxergar normalmente, identificar olhos, nariz e boca, mas o cérebro não consegue reconhecer aquele rosto como pertencente a alguém conhecido. A prosopagnosia é causada por anormalidades, danos ou comprometimento de uma parte do cérebro, áreas do lobo temporal e occipital, chamada giro fusiforme, que controla a percepção facial e a memória.”
Sobre as causas da condição, o especialista afirma: “A prosopagnosia pode surgir após AVC, traumatismos cranianos, tumores ou doenças neurodegenerativas que afetem áreas do cérebro ligadas ao reconhecimento facial. Também existem casos congênitos, em que a pessoa nasce com a condição, sem uma lesão cerebral identificável.”
Ele reforça ainda que o transtorno pode acompanhar o paciente desde a infância ou surgir ao longo da vida. “Sim. A forma congênita acompanha a pessoa desde a infância e muitas vezes só é percebida mais tarde, porque o paciente desenvolve estratégias para compensar a dificuldade. Já a forma adquirida aparece após danos cerebrais, especialmente em regiões responsáveis pelo reconhecimento de faces.”
Ao diferenciar a prosopagnosia de esquecimentos comuns, o neurologista detalha: “A diferença essencial em relação a uma dificuldade comum de memória é que na prosopagnosia a falha é específica para rostos, a visão e a memória geral funcionam normal. A dificuldade é persistente e desproporcional. Diferente de uma distração ou “memória ruim”, o problema é específico para reconhecimento facial e costuma causar impacto funcional importante. O principal sintoma é a dificuldade persistente para reconhecer rostos familiares. Diferente do esquecimento comum, a memória global costuma estar preservada. A pessoa sabe quem é o indivíduo, mas não consegue identificá-lo apenas pela face, recorrendo a pistas secundárias para reconhecê-lo.”
Sobre o diagnóstico, o especialista explica que o processo envolve diferentes etapas. “O diagnóstico requer uma combinação de avaliações neurológicas, associada a testes cognitivos específicos e estudos de imagem cerebral, como a Ressonância Magnética que pode ajudar a identificar lesões cerebrais associadas. Pesquisadores ressaltam que “a prevalência da doença depende dos critérios de diagnóstico, e atualmente não existe um critério amplamente aceito”.”
Atualmente, não há cura para a condição. “Não existe cura para a prosopagnosia. O tratamento consiste no desenvolvimento de estratégias compensatórias para minimizar o impacto do transtorno no dia a dia. Em casos mais complexos, alguns pacientes podem se beneficiar de terapias cognitivas que os ajudem a encontrar formas de compensar a dificuldade no reconhecimento de rostos e a reduzir os impactos sociais e emocionais da condição”
Já em relação à prevenção, o médico destaca: “Na forma congênita não há prevenção conhecida. Já nos casos adquiridos, o controle de fatores de risco pode ajudar a reduzir as chances de lesões cerebrais associadas à condição. A prevenção passa pelo controle dos riscos vasculares e neurológicos (hipertensão, diabetes, etc.). O diagnóstico e a orientação adequada também contribuem para minimizar os impactos no dia a dia. Um estudo de Harvard mostrou que a condição “não é tão rara quanto se pensava inicialmente”, com estimativas apontando que cerca de 1 em cada 33 pessoas nos EUA pode apresentar algum grau de cegueira facial. O diagnóstico precoce ajuda muito na adaptação social e emocional do paciente”



