O tradicional som da sanfona e o rastro de poeira no tablado ganham uma roupagem profundamente teatral e engajada a partir da noite desta sexta-feira (12). A Praça da Revolução, no centro da capital, sedia a abertura oficial do 18º Circuito Junino de Rio Branco. O festival, organizado pela Liga de Quadrilhas Juninas do Acre (Liquajac) em parceria com a prefeitura municipal, consolidará nesta temporada uma tendência que vem amadurecendo nos arraiais acreanos: o uso do espaço festivo como alto-falante para reflexões e denúncias sociais.
A primeira noite de competições colocará três gigantes do movimento junino local frente a frente, cada uma defendendo uma tese cênica completamente distinta. A meta é arrancar pontos dos jurados não apenas pela precisão técnica das evoluções e do alinhamento dos casais, mas pela capacidade de emocionar e provocar o público presente.
Infância analógica e apagamento histórico
Quem abre os trabalhos na arena é a Quadrilha Amor Junino, que retorna aos circuitos oficiais com o tema “Do Clique ao Pique”. A proposta do grupo é contrapor a frieza das telas digitais à nostalgia dos quintais de antigamente. Com figurinos lúdicos que misturam elementos de Alice no País das Maravilhas e do Sítio do Picapau Amarelo, a agremiação recria brincadeiras clássicas de rua para lembrar que o afeto e a infância real acontecem fora da internet.
Na sequência, a Explode Coração sobe ao tablado com o espetáculo “Era uma vez, um conto que a história não conta”. A apresentação faz um resgate crítico das narrativas e personagens que foram deliberadamente silenciados ou esquecidos pelos livros didáticos oficiais. O grupo aposta na força da tradição oral e do folclore para questionar quem detém o poder de escrever a história e quais identidades acabam invisibilizadas com o passar das décadas.
Alerta contra a violência doméstica
O encerramento da primeira noite caberá à tradicional Matutos na Roça, do bairro Aeroporto Velho. Com o enredo “Hoje Eu Recebi Flores”, a junina traz para o centro do arraial o debate urgente sobre a violência doméstica e o feminicídio. A montagem acompanha a história de uma personagem que vivencia o ciclo de abusos dentro de casa e expõe como pedidos de desculpas e presentes tentam mascarar agressões físicas e psicológicas.
Com um contingente de cerca de 90 componentes, a Matutos na Roça inseriu na coreografia elementos de utilidade pública, como menções à Lei Maria da Penha e a encenação de táticas reais de socorro — como o conhecido código de simular o pedido de uma pizza por telefone para acionar a polícia de forma discreta. A apresentação promete equilibrar o peso dramático do tema com a energia e as coreografias tradicionais do São João.
Por: Victor Bastos



