23 de junho de 2026

Crítica: “Fafá de Belém, O Musical” mostra que nunca deixamos de ser de onde viemos

Crítica: “Fafá de Belém, O Musical” mostra que nunca deixamos de ser de onde viemos
Crítica: “Fafá de Belém, O Musical” mostra que nunca deixamos de ser de onde viemos

Há espetáculos que contam uma história e outros que fazem o público revisitar a própria trajetória. “Fafá de Belém, O Musical” pertence à segunda categoria. Ao longo de quase três horas de duração, a montagem não se limita a apresentar a trajetória de uma das maiores vozes da música brasileira. A produção transforma a vida de Fafá de Belém em um símbolo de milhares de brasileiros que deixaram sua terra natal em busca de oportunidades, carregando consigo a memória, os costumes e a identidade de onde vieram.

É impossível assistir à peça sem lembrar dos versos de Dona Ivone Lara em “Alguém Me Avisou”: “Eu vim de lá, eu vim de lá, pequenininho”. A frase parece ecoar em cada cena da menina paraense que sai de Belém e desembarca em um Sudeste que pouco conhecia o Norte do país. É uma montagem que transcende, que coloca o espectador para refletir sobre a sua vida, principalmente para aqueles que vieram de outra região.

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Veja as fotosAbrir em tela cheia “Fafá de Belém, o Musical” conta com Lucinha Lins, Helga Nemeczyk e a neta da cantora, Laura SaabCrédito: Nil Caniné – Divulgação “Fafá de Belém, o Musical” conta com Lucinha Lins, Helga Nemeczyk e a neta da cantora, Laura SaabCrédito: Nil Caniné – Divulgação “Fafá de Belém, o Musical” conta com Lucinha Lins, Helga Nemeczyk e a neta da cantora, Laura SaabCrédito: Nil Caniné – Divulgação “Fafá de Belém, o Musical” conta com Lucinha Lins, Helga Nemeczyk e a neta da cantora, Laura SaabCrédito: Nil Caniné – Divulgação “Fafá de Belém, o Musical” conta com Lucinha Lins, Helga Nemeczyk e a neta da cantora, Laura SaabCrédito: Nil Caniné – Divulgação

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Mais do que uma biografia, o espetáculo é uma declaração de amor à Amazônia. A floresta, os rios, o modo de viver amazônico e a cultura paraense atravessam a narrativa do início ao fim. A sensação é de que Fafá nunca deixou Belém para trás. Pelo contrário, passou a vida inteira carregando sua terra consigo. E, além dela, não se esquece de suas raízes ainda mais tradicionais: Portugal.

Nascida em Belém, ela é filha de pais portugueses e dona de dupla cidadania desde 2011, dividindo sua vida entre os dois continentes. A relação de Fafá com o país europeu é tão profunda que a cantora costuma ser apresentada pela imprensa portuguesa como a única artista estrangeira com permissão para cantar fados.

Em tempos em que tantas trajetórias artísticas parecem moldadas para caber em padrões globais, a montagem escrita por Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche, com idealização e produção artística de Jô Santana, mostra uma mulher que construiu sua carreira insistindo em ser exatamente quem era.

A força desse discurso aparece de forma contundente em uma das passagens mais impactantes da peça, quando executivos da indústria musical tentam enquadrá-la em padrões estéticos. A resposta de Fafá é firme. Ela se recusa a moldar o corpo para atender expectativas externas e reafirma sua identidade artística. A cena dialoga diretamente com discussões que seguem atuais sobre pressão estética, especialmente para mulheres na indústria do entretenimento.

Quem dá vida a essa fase da artista é a atriz Helga Nemeczyk, responsável por interpretar Fafá entre a juventude e a maturidade. “Faço a Fafá dos 17 até mais ou menos os 50 anos! É um desafio, porque é um período. E não só essa questão da idade, também de tudo o que ela passou, porque é a fase boa, que ela estoura e faz sucesso; é a fase ruim, que ela começa a ser questionada e impõe padrões estéticos e de conteúdo; e emenda na parte da questão política, das Diretas Já, onde ela foi perseguida”, explicou a atriz ao portal LeoDias, horas antes de a peça começar.

Para construir a personagem, Helga mergulhou profundamente não apenas na obra de Fafá, mas também na cultura amazônica. “Fico feliz de fazer musical brasileiro e eu sempre me emociono. Temos muita história para contar e muita música maravilhosa. Depois que a Fafá foi nos ensaios, tirei algumas dúvidas. Mas antes disso comecei a pesquisar muito, ouvir discos, assistir entrevistas e shows. Nós que ficamos aqui no Sudeste não temos muito contato e conexão. Tive tempo de estudar, ouvir e me inteirar da história dela”, contou.

Essa brasilidade tão presente na montagem também chamou a atenção de Lucinha Lins, responsável por interpretar a Fafá dos dias atuais. Na peça, é ela quem conduz a narrativa, revisitando as próprias memórias. “Eu achei que era brincadeira, porque eu sou loira de olho azul! E ela é essa índia, cabocla, brasileira linda. E aí você entra na mágica do teatro, que faz com que a plateia de repente… Tem horas que você é igual a Fafá. É impossível ser igual a Fafá, mas a inspiração que essa mulher me deu é tão grande! Somos contemporâneas e vivemos coisas muito parecidas. Eu a conheço, ela tem um agito parecido comigo. Tive que trabalhar melhor minha gargalhada para poder brincar de Fafá de Belém, mas tem o lado prazer que não tem preço, é um privilégio”, disse a veterana.

A atriz acredita que a importância do musical ultrapassa a homenagem a uma artista. “É mais do que um espetáculo brasileiro, porque é de uma brasilidade fora do comum. Ele traz a cultura do Norte para que todos conheçam alguma coisa. Ele desperta curiosidades, ele fala das encantarias e dessa menina que veio da floresta. Fafá foi a mulher que trouxe o Norte para o Sudeste. Ela mesma dizia que parecia que o Brasil terminava na Bahia”, afirmou.

O espetáculo também revisita momentos fundamentais da história recente do país. A participação de Fafá no movimento “Diretas Já” surge como um dos capítulos mais emocionantes da narrativa. Sua voz deixa de ser apenas artística para se tornar política, ecoando em uma das maiores mobilizações populares da redemocratização brasileira.

Outro aspecto explorado é sua relação com a religiosidade: o Círio de Nazaré, devoção à Nossa Senhora de Nazaré, é uma das maiores manifestações religiosas do mundo e aparece como elemento da identidade paraense. O espetáculo também toca em uma das manifestações mais singulares da festa: a Festa da Chiquita, tradicional evento LGBTQIA+ realizado durante o período do Círio e reconhecido como símbolo de resistência cultural na região.

Musicalmente, a narrativa acompanha as várias reinvenções da artista. Da explosão nacional aos momentos de reinvenção da carreira, passando pela parceria com Chitãozinho & Xororó em “Disfarce” e chegando à redescoberta por uma nova geração através do remix de “Emoriô”, a peça mostra como Fafá conseguiu atravessar diferentes épocas sem perder sua essência.

Mas é no desfecho que a montagem alcança seu ponto mais alto. Quando “Vermelho” toma conta do palco, o musical deixa definitivamente de ser uma biografia para se transformar em uma celebração da Amazônia. A entrada do Boi Garantido, referência ao Festival de Parintins, provoca uma explosão visual e emocional que sintetiza tudo o que foi construído até então.

Não se trata apenas da história de Fafá. É a história de quem saiu de longe. De quem precisou provar seu valor em territórios desconhecidos. De quem ouviu que precisava mudar para ser aceita. E de quem resistiu. Ao final, a sensação é de que o espetáculo fala menos sobre fama e mais sobre pertencimento.

Nota: 10/10