O El Niño exige ação imediata e a Amazônia já vive mais um momento de alerta. As previsões dos órgãos de meteorologia apontam que a estiagem deste ano poderá ser uma das mais severas já registradas na Região Norte.
A Amazônia vive mais um momento de alerta. As previsões dos órgãos de meteorologia apontam que a estiagem deste ano poderá ser uma das mais severas já registradas na Região Norte. O fortalecimento do fenômeno El Niño promete elevar as temperaturas, reduzir drasticamente as chuvas, aumentar o risco de queimadas e provocar uma vazante histórica dos rios.
Esses dados não devem ser encarados apenas como números técnicos. Eles representam vidas que poderão ser afetadas. Representam famílias que poderão enfrentar dificuldades para conseguir água, alimento, transporte e atendimento de saúde. Representam comunidades inteiras que poderão ficar isoladas durante meses.
Como acreano, acompanho com preocupação cada previsão divulgada pelos especialistas. Como pessoa com deficiência física e na voz, conheço de perto os desafios enfrentados por quem depende de políticas públicas eficientes para garantir dignidade. E, como Diretor Nacional de Políticas Públicas da Rede Observatório BPC e Coordenador Estadual da Rede Observatório BPC no Acre, acredito que este é o momento de unir esforços e agir antes que a situação se torne ainda mais grave.
O Acre já conhece os efeitos das mudanças climáticas. Nos últimos anos convivemos com enchentes históricas, secas prolongadas, fumaça intensa causada pelas queimadas e temperaturas cada vez mais elevadas. Esses eventos extremos deixaram de ser exceção e passaram a fazer parte da realidade da população amazônica.
As pessoas com deficiência, os idosos, as crianças, as gestantes e os pacientes com doenças crônicas estão entre os grupos mais vulneráveis. O calor excessivo, a baixa umidade do ar e a fumaça provocam agravamento de doenças respiratórias, cardiovasculares e neurológicas. Muitas famílias enfrentam dificuldades até mesmo para se deslocar em busca de atendimento médico quando os rios ficam secos ou as estradas são comprometidas.
É preciso compreender que enfrentar os impactos do El Niño não é responsabilidade apenas da Defesa Civil ou dos bombeiros. Trata-se de um desafio que exige integração entre todas as áreas do poder público: saúde, assistência social, educação, infraestrutura, meio ambiente, segurança pública e desenvolvimento regional.
Faço um apelo ao Governo Federal para que fortaleça o apoio aos estados da Amazônia Legal, garantindo recursos extraordinários para prevenção, combate aos incêndios florestais, assistência às famílias atingidas e reforço da estrutura da saúde pública. Também é fundamental ampliar os investimentos em programas sociais que atendem pessoas em situação de vulnerabilidade, especialmente beneficiários do Benefício de Prestação Continuada (BPC), do Bolsa Família e demais famílias de baixa renda.
Da mesma forma, faço um apelo ao Governo do Estado do Acre e às prefeituras para que instituam comitês permanentes de enfrentamento à estiagem, ampliem os estoques de medicamentos, reforcem o abastecimento de água, preparem planos de contingência para comunidades isoladas e intensifiquem as campanhas de conscientização sobre prevenção às queimadas.
Cada cidadão também tem um papel importante. Evitar queimadas, economizar água, proteger as áreas de floresta e denunciar crimes ambientais são atitudes que ajudam a preservar vidas e reduzir os impactos da seca.
Não podemos tratar esta situação apenas quando os rios secarem, quando os hospitais estiverem lotados ou quando a fumaça tomar conta das cidades. A prevenção custa menos do que a reconstrução.
A Amazônia é um patrimônio do Brasil e do mundo. Cuidar dela significa cuidar das pessoas que vivem nela. Significa proteger nossas crianças, nossos idosos, nossos trabalhadores rurais, nossos povos indígenas, ribeirinhos e todas as famílias que dependem da floresta para sobreviver.
Que este momento sirva como um chamado à responsabilidade coletiva. O El Niño não escolhe quem será atingido. Seus efeitos alcançam toda a sociedade. Mas, com planejamento, união e compromisso dos governos e da população, é possível reduzir danos, salvar vidas e proteger o futuro da nossa região.
O tempo para agir é agora. Esperar não é uma opção.
Por Samoel Andrade

