14 de junho de 2026

Arqueologia Amazônica: Cientistas descobrem rede de 350 km de estradas pré-colombianas no Acre

Estudo internacional revela quase mil vias projetadas com precisão astronômica pela 'Civilização Aquiry' séculos antes da colonização europeia; dados desconstroem o mito da floresta historicamente intocada.

Arqueologia Amazônica: Cientistas descobrem rede de 350 km de estradas pré-colombianas no Acre

Uma pesquisa internacional de alta relevância científica está revolucionando o entendimento global sobre a demografia e a capacidade de engenharia dos povos originários na Amazônia sul-ocidental. Um consórcio de pesquisadores do Brasil e da Finlândia identificou e mapeou uma impressionante rede de estradas pré-colombianas que se estende por cerca de 350 quilômetros no território do Acre. O achado, publicado na prestigiosa revista científica Antiquity, revela que a floresta abrigava um tecido urbano e logístico hiperconectado muito antes da chegada dos colonizadores europeus.

O levantamento cartográfico, que cobriu uma área monumental de 135 mil quilômetros quadrados, catalogou 634 estradas largas (com mais de 15 metros de largura) e 321 vias secundárias mais estreitas. Os dados cronológicos indicam que o complexo viário começou a ser erguido séculos antes da Era Cristã, mantendo-se ativo e em expansão até o ano 1.000 d.C. Diante da robustez das evidências e da identidade cultural identificada, os cientistas batizaram o grupo de Civilização Aquiry — termo de origem apurinã que batizava originalmente o Rio Acre.

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“A descoberta enterra em definitivo o antigo paradigma eurocêntrico de que a Amazônia pré-colonial era um ‘vazio demográfico’ habitado por grupos nômades de subsistência. A precisão milimétrica das vias alinhadas aos pontos cardeais e o desenho estético em formato de leque na entrada dos geóglifos provam a existência de um pensamento urbanístico complexo, planejamento estatal ou comunitário de longo prazo e um domínio sofisticado de conceitos de engenharia e astronomia.” — Análise de leitura antropológica e impacto histórico.

De acordo com o renomado pesquisador Alceu Ranzi, do Laboratório de Pesquisas Paleontológicas da Universidade Federal do Acre (Ufac) e coautor do projeto, as vias funcionavam como artérias multifuncionais: cerca de 40% delas conectavam as aldeias diretamente aos eixos de navegação fluvial (com forte densidade na região estratégica de Boca do Acre), enquanto outras serviam como acessos ornamentais e cerimoniais aos geóglifos — os famosos monumentos de terra que operavam como terreiros rituais de festividades, sem vestígios de habitação doméstica crônica.

O trabalho de fôlego cruzou dados de imagens de satélite com expedições terrestres de validação, contando com especialistas da Universidade de Turku, Universidade de Helsinque e do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Para os próximos passos, a equipe planeja utilizar a tecnologia Lidar (Light Detection and Ranging), um sistema de varredura a laser capaz de penetrar a copa das árvores e mapear a topografia oculta, prometendo revelar a metade ainda desconhecida dessa rede viária que acabou engolida pelo tempo.

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