O financiamento do filme Dark Horse e o bolsonarismo como projeto político estão mais conectados do que qualquer cartaz de cinema sugere. Antes de uma única cena ser exibida ao público, o caso já revelou algo que talvez seja mais revelador do que o próprio filme: a disposição de uma facção política em usar qualquer meio — inclusive dinheiro de um banco liquidado por lavagem — para fabricar a própria mitologia.
Não é sobre o filme. É sobre o que o filme revela. Enquanto Dark Horse ainda nem chegou aos cinemas, o processo de produção já entregou um retrato mais nítido do bolsonarismo do que qualquer biografia poderia entregar de propósito. Áudios vazados mostram o senador Flávio Bolsonaro negociando diretamente com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master — instituição liquidada por lavagem de dinheiro e hoje no centro de uma operação da Polícia Federal —, tratando o banqueiro como peça essencial para viabilizar a produção. Reportagens indicam que pelo menos R$ 61 milhões dos R$ 134 milhões acordados saíram dos cofres de Vorcaro, parte transitando por um fundo intermediário antes de chegar à produtora.
Isso não é bastidor de cinema. É retrato de método. O bolsonarismo, há anos, opera segundo uma lógica simples: a narrativa importa mais que a verdade, e os meios para construir essa narrativa raramente são examinados com o rigor que deveriam. Se for preciso recorrer a dinheiro de origem investigada para fabricar uma cinebiografia heroica nas vésperas de uma eleição, o movimento parece disposto a pagar esse preço — inclusive com a verba de outra pessoa.
O timing também não é acidente. O lançamento estava planejado para semanas antes do primeiro turno de outubro de 2026, num momento em que o movimento mais precisa de um símbolo capaz de mobilizar a base e desviar a atenção do desgaste político e jurídico que o cerca. Transformar um homem investigado por ataques à democracia em protagonista de uma narrativa de superação não é coincidência de roteiro — é estratégia de campanha disfarçada de produção artística.
E há algo simbolicamente perverso nisso: o bolsonarismo construiu boa parte da sua identidade pública atacando a chamada “grande mídia” e se apresentando como vítima de narrativas hostis. Mas, quando tem recursos disponíveis — mesmo que de origem questionável —, recorre exatamente à mesma ferramenta que critica: a construção deliberada de imagem através de mídia massiva, agora em formato de cinema biográfico com pretensões internacionais.
No fim, talvez o verdadeiro enredo de Dark Horse nunca chegue à tela. Ele já está nos áudios, nas planilhas de transferências bancárias e nas investigações em curso. É a história de um movimento que, mesmo sob escrutínio judicial e financeiro, continua priorizando a construção de mitos acima da prestação de contas — e que está disposto a pagar caro, com dinheiro de qualquer origem, para garantir que essa versão prevaleça.


