A prisão de Adriana (Leticia Colin) em “Quem Ama Cuida” provocou um raro fenômeno nas redes sociais: até telespectadores completamente envolvidos pela trama passaram a questionar a condução da investigação da morte de Arthur Brandão (Antonio Fagundes).
Não se trata daquela velha discussão sobre realismo em novelas. A teledramaturgia nunca teve compromisso absoluto com a realidade. Como costuma dizer Gloria Perez, o público precisa aprender a voar. E voa mesmo. Aceita coincidências improváveis, personagens que sobrevivem ao impossível e reviravoltas que dificilmente aconteceriam fora da ficção.
Leia Também
Carla Bittencourt
Globo acaba com isolamento e libera internet para participantes do “Estrelas da Casa”
Carla Bittencourt
“Quem Ama Cuida” cresce pela terceira semana seguida e repete desempenho de “Três Graças”
Carla Bittencourt
Pedro e Adriana finalmente se beijam em “Quem Ama Cuida”, mas romance já nasce ameaçado
Carla Bittencourt
Opinião: O desconforto provocado por Brigitte é o que faz a personagem de Tatá Werneck funcionar
O problema surge quando a própria lógica interna da história parece ser ignorada.
A investigação que levou Adriana à prisão passou essa sensação. Bastou Pilar (Isabel Teixeira) informar ao delegado que a cunhada havia viajado para Botucatu para que a denúncia fosse tratada praticamente como prova de tentativa de fuga. Não houve grande esforço investigativo, não houve aprofundamento das circunstâncias e tampouco uma análise mais cuidadosa dos demais suspeitos.
E aí está o ponto que incomodou parte do público.
Pilar talvez seja justamente a personagem que mais deveria despertar atenção da polícia naquele momento. Ela tentou interditar Arthur, foi responsável por dopá-lo, mantinha uma relação conflituosa com o irmão e não escondia seus interesses na fortuna da família. Tudo isso era conhecido pelos personagens da trama. Ainda assim, a possibilidade de Pilar estar envolvida no crime parece ter sido descartada antes mesmo de ser considerada.
A consequência foi uma sensação de artificialidade. Não porque Adriana tenha sido presa — a prisão dela, dramaticamente, faz sentido e movimenta a novela. O problema é o caminho escolhido para levá-la até lá.
“Quem Ama Cuida” continua exibindo qualidades inegáveis. A direção artística de Amora Mautner segue impecável, o elenco está afiado e o mistério envolvendo a morte de Arthur mantém o público interessado. Justamente por isso, a trama merecia uma construção mais cuidadosa.
Quando uma novela é boa, o telespectador aceita embarcar em qualquer voo. O que ele não gosta é de sentir que foi empurrado para dentro do avião sem explicação.



