Um levantamento realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) identificou uma série de desafios relacionados ao envelhecimento da população brasileira e apontou a necessidade de ampliar políticas públicas voltadas à saúde, acessibilidade e assistência aos idosos.

A pesquisa foi conduzida em 70 municípios distribuídos por todas as regiões do país e avaliou diferentes aspectos que afetam a qualidade de vida das pessoas com mais de 60 anos.
Entre os problemas mais frequentes identificados está a hipertensão arterial. Segundo o estudo, três em cada dez idosos brasileiros convivem com a condição, que aumenta significativamente o risco de complicações graves de saúde.
A aposentada Maria da Salete, de 77 anos, conhece bem os impactos da doença. Ela relata que já enfrentou situações críticas em decorrência da pressão alta.
“Já chegou a ponto de dar derrame, eu dei dois derrames”, contou.
A epidemiologista e coordenadora da pesquisa, Maria Fernanda Costa, explicou que, embora muitos pacientes estejam em tratamento, nem sempre o controle da doença é alcançado de forma eficaz.
“Isso aí aumenta risco de infarto miocárdio, de acidente vascular cerebral, de demência vascular e o que acontece é que a maioria deles está tratada, mas o tratamento não está eficaz”, destacou.
Além das questões de saúde, o estudo avaliou a infraestrutura urbana das cidades brasileiras, considerada fundamental para garantir segurança e autonomia à população idosa.
Os dados mostram que mais de 42,7% dos entrevistados afirmaram sentir medo de cair ao caminhar pelas calçadas. A preocupação está relacionada às condições de acessibilidade e aos riscos presentes nos espaços públicos.
Situações como essa já provocaram acidentes. Raimunda, de 81 anos, sofreu uma queda ao caminhar pela rua.
Segundo relato de seu cuidador, o episódio ocorreu quando ela estava acompanhada do marido.
“Ela estava saindo de casa com o marido dela, só que não tem muito apoio no corpo. Aí passou um carro, ela se assustou, soltou a mão dele e acabou caindo”, relatou.
Outro dado apontado pela pesquisa está relacionado à perda da capacidade funcional. Aproximadamente 20% dos idosos brasileiros apresentam dificuldade para realizar pelo menos uma atividade cotidiana sem auxílio, como tomar banho, vestir-se, alimentar-se ou levantar-se.
De acordo com o levantamento, cerca de 6,5 milhões de pessoas possuem algum grau de comprometimento da autonomia. Apesar disso, menos de 40% dos idosos com limitações recebem assistência adequada.
Especialistas alertam que o envelhecimento acelerado da população exigirá mudanças estruturais para garantir qualidade de vida e proteção social nos próximos anos.
Para Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional da Longevidade Brasil, o principal desafio do país está na construção de uma cultura voltada ao cuidado com a população idosa.
“O maior desafio que o Brasil hoje tem em relação ao envelhecimento é implementar uma cultura do cuidado, uma cultura do cuidado que significa que todos nós possamos ter a confiança de estarmos protegidos e termos segurança”, afirmou.
Kalache também destacou que o Brasil possui atualmente cerca de 35 milhões de idosos, número que representa aproximadamente 16% da população nacional. Segundo ele, esse contingente deverá dobrar nos próximos 25 anos.
Para os especialistas, sem planejamento adequado nas áreas de saúde, assistência social, mobilidade e acessibilidade, o aumento da população idosa poderá ampliar desafios já enfrentados por milhões de brasileiros.
Em centros de acolhimento espalhados pelo país, muitos idosos dependem diariamente de cuidadores para realizar atividades básicas. Para Leyla Oliveira, que atua na área, o trabalho exige dedicação constante.
“Tem que ter muito carinho, dedicação, determinação, paciência e amor”, concluiu.


