Ex-volante revelado pelo Atlético-MG, campeão da Série B pelo Joinville, capitão do acesso do Botafogo-SP e hoje gerente de futebol do clube de Ribeirão Preto, Fillipe Soutto jamais imaginou que sua transição de carreira passaria por um set de filmagem da Netflix. O ex-jogador, que interpreta Gerson na série Brasil 70, contou ao portal LeoDias como mergulhou nos bastidores da histórica Seleção de 1970 e revelou a curiosa forma como Rodrigo Santoro se preparava para viver Joel Saldanha.
Segundo ele, Santoro permanecia completamente imerso em Joel Saldanha mesmo quando as câmeras estavam desligadas. “Da hora que chegava no set até a hora de ir embora, ele não era o Rodrigo, ele era o Saldanha. Então ele não me chamava de Fillipe, só me chamava de Gerson. A voz dele era do Saldanha. Era o jeito dele se concentrar”, revelou.
Veja as fotosAbrir em tela cheia Fillipe Souto quando jogava no Botafogo-SPReprodução Minissérie Brasil 70Foto: Alexandre Schneider / Netflix Souto e Mazzeo nos bastidores de Brasil 70Reprodução Minissérie Brasil 70Foto: Alexandre Schneider / Netflix Minissérie Brasil 70Foto: Alexandre Schneider / Netflix Minissérie Brasil 70Foto: Alexandre Schneider / Netflix
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O contraste com outros atores também chamava atenção. Enquanto Santoro mantinha o personagem durante todo o expediente, Bruno Mazzeo impressionava pela rapidez com que transitava entre a descontração e a atuação.
“Ele estava ali conversando comigo sobre o Vasco enquanto fumava um cigarro. Aí vinha ‘ação’, apagava o cigarro e virava o Zagallo. Eu ficava: ‘caraca, como consegue virar a chave tão rápido assim?’”, disse.
Um telefonema que mudou o rumo da carreira
Quando recebeu a ligação do assessor de imprensa, Osvaldo Botrel, Fillipe Soutto ainda vivia o dilema comum a muitos atletas em fim de carreira: continuar jogando ou iniciar a difícil transição para uma nova profissão.
Naquele momento, havia acabado de disputar o Campeonato Mineiro pelo Betim e treinava por conta própria enquanto avaliava propostas para o restante da temporada. O convite que recebeu, porém, tinha uma relação com futebol fora do universo do futebol. A missão seria no universo das artes, não do esporte.
“Ele me contou que ligaram de uma produtora pedindo indicações de jogadores que pudessem ser dublês numa série da Netflix. Eu perguntei se ele tinha falado de mim, e ele disse que passou meu nome e o de outros atletas que conhecia”, contou.
Dias depois veio a ligação da produção. O ex-volante foi convidado para participar de uma oficina de atuação em São Paulo: “Fiquei quatro dias fazendo oficina de atuação, fazendo teste de campo. A partir dali eu já tinha noção de que era uma série sobre a Copa de 70, mas não tinha noção da magnitude do projeto.”
Sem qualquer experiência como ator, Soutto encarou um universo completamente novo: “Minha experiência com câmera era em programas esportivos, coletiva de imprensa, essas coisas. Não havia necessidade de dialogar com a câmera.”
Ao retornar para Belo Horizonte, recebeu a notícia de que havia sido aprovado inicialmente para atuar como dublê de Tostão e Piazza. Só depois de assinar contrato e iniciar a preparação do elenco percebeu o tamanho da produção: “Quando aceitei o convite, assinei o contrato e vim para São Paulo, comecei a ter noção do que era de fato a obra.”
Foi ali que passou a conviver diariamente com Rodrigo Santoro, Bruno Mazzeo, Marcelo Adnet, Nelson Baskerville, Ravel Andrade, Daniel Blanco, Gui Ferraz e outros nomes que davam vida aos personagens de uma das páginas mais emblemáticas do futebol brasileiro.
Aprendendo um novo jogo
Acostumado à pressão dos estádios, Soutto imaginava que seu maior desafio seria atuar diante das câmeras. Descobriu rapidamente que o futebol o havia preparado para muito mais do que imaginava: “Ajudou muito. Eu vivi a vida inteira no vestiário, e o futebol é uma mini sociedade. As mesmas coisas que acontecem na rua acontecem no futebol, só que de uma forma muito mais intensa.”
Para ele, os dois universos convivem diariamente com críticas, elogios, pressão por desempenho e exposição pública: “Eu já sabia como funciona essa oscilação de humor, da valorização, das pessoas que te avaliam e te julgam. Eu sei como é a pressão de buscar resultado. Isso tem muito a ver com a televisão, com o audiovisual.”
A disciplina adquirida ao longo de quase vinte anos como atleta também fez diferença: “No futebol você aprende a obedecer horários, processos. No treino ou no jogo, você precisa estar concentrado. Na arte acontece a mesma coisa.”
A diferença apareceu nos detalhes. Enquanto uma partida permite improvisos, uma filmagem exige precisão quase cirúrgica: “Às vezes você tem meia hora para gravar uma cena. Se estiver desconcentrado e ela ficar ruim, no dia seguinte você não grava de novo. No máximo cortam a cena. O erro é desperdício do tempo da diária.”
A repetição constante dos takes também chamou sua atenção: “Se você faz o primeiro take parado e com a mão no bolso, no segundo tem que fazer igual. Se não estiver concentrado, erra. Depois, na edição, aquilo aparece.”
Sotaque e personagem inventado
Outro detalhe curioso envolvia Ravel Andrade, intérprete de Tostão. Gaúcho, o ator recorria ao próprio Soutto para reproduzir o jeito mineiro de falar. “Ele perguntava: ‘cara, como você fala “tô com fome”?’ Eu respondia e ele dizia que ia falar daquele jeito para ficar original.”
Já Marcelo Adnet impressionou pela criatividade. Segundo Soutto, enquanto boa parte do elenco buscava referências históricas conhecidas, o humorista precisou praticamente inventar um personagem: “Ele pegou fragmentos de locutores da época, mas o personagem dele foi ele quem criou.”
Quem ensinou Gerson a fumar
Nem todos os desafios estavam no roteiro. Para interpretar Gerson com fidelidade, Soutto precisou aprender um hábito que nunca havia feito parte da sua vida.
Como o Canhotinha de Ouro aparecia fumando em algumas cenas, Bruno Mazzeo virou um professor improvisado: “O Bruno era fumante na época. Ele chegava e falava: ‘o jeito que você está pegando no cigarro está estranho. Não é assim’.”
Enquanto os trejeitos com o cigarro precisavam ser imaginados a partir de poucas fotografias disponíveis, dentro de campo o trabalho era diferente: “Tinha muito mais material. Os jogos são conhecidos, famosos. Isso facilitava não só para mim, mas para todos os outros.”
Vestindo Gerson
Interpretar Gerson também carregava um simbolismo particular. Canhoto e meio-campista durante toda a carreira, Fillipe Soutto cresceu admirando justamente as características que eternizaram o Canhotinha de Ouro.
“Eu joguei na mesma posição que ele jogou. Já existia uma relação. Eu já o via como uma referência”, relata. Essa identificação vinha de muito antes da série: “Às vezes eu dava um lançamento e alguém falava: ‘caramba, esse lançamento foi de Gerson’.”
O mergulho na Seleção de 1970, porém, fez com que sua admiração extrapolasse o personagem que interpretava. Entre todos os campeões mundiais, um deles passou a ocupar um lugar especial.
“O Tostão eu já admirava porque sou mineiro. Meu avô falava muito dele. Depois fui entender toda a história. Um cara que parou de jogar com 26 anos por causa de uma lesão extremamente rara e depois virou médico, professor, cronista esportivo… É um exemplo a ser seguido”, constatou.
Mas foi uma madrugada gelada, durante uma gravação em São Paulo, que fez Soutto perceber definitivamente o tamanho do desafio que havia aceitado: ” A cena da chuva. Nunca tinha sentido tanto frio na minha vida.”
A sequência foi gravada durante o inverno, nas proximidades do Estádio do Canindé: “Era madrugada, água gelada, vento assustador. A cada ‘corta’, a gente ficava esperando arrumar a cena e congelava.”
Nem os atores mais experientes escaparam: “Até o Rodrigo Santoro falou: ‘cara, eu tô morrendo de frio’. E ele estava de roupa de frio. A gente não. A gente estava simulando um jogo no calor.”
Entre risos, Soutto admite que aquele foi o momento em que mais testou seus limites: “Se fosse na primeira semana de gravação, acho que eu tinha pedido as contas.”
Quando o personagem mudou a própria vida
Enquanto vivia Gerson diante das câmeras, Fillipe Soutto também atravessava um dos períodos mais delicados da carreira. Aos poucos, começava a entender que a maior mudança provocada pela série não aconteceria no roteiro, mas fora dele.
Ao fim de três temporadas no Botafogo-SP, onde se tornou capitão e participou do acesso da Série C para a Série B, o ex-volante já havia recebido um convite para iniciar a transição para a gestão. Na época, porém, ainda não se sentia pronto para abandonar os gramados: “Eu já tinha um convite do clube, mas não me sentia à vontade porque queria jogar mais tempo. Me sentia bem para isso.”
A decisão foi adiada. Soutto acertou com o Betim para disputar o Campeonato Mineiro e, quando a competição terminou, voltou a ser procurado pela diretoria botafoguense: “Novamente o presidente daqui do Botafogo me ligou e me convidou para ser gerente. Não vim na ocasião porque ainda queria jogar.”
Foi justamente nesse intervalo que surgiu a oportunidade de participar de Brasil 70. As gravações atravessaram boa parte de 2024 e, quando caminhavam para o fim, o telefone tocou mais uma vez: “Nos finais das gravações ele me ligou novamente e fez mais uma vez o convite. Ali estava aceito.”
O curioso é que o dirigente sequer sabia que Soutto estava envolvido em uma produção da Netflix: “Ele não sabia que eu estava gravando. Contei para ele e ele falou: ‘quando terminar essas gravações a gente conversa’.”
Hoje, o ex-volante ocupa um papel completamente diferente daquele que desempenhou durante quase duas décadas dentro de campo: “Eu ajudo na comissão técnica, estou no dia a dia dos atletas, estou nas decisões mais estruturais também. Estou gostando, está sendo um momento novo ainda para mim, porque ainda dá saudade de jogar às vezes.”
O outro lado do futebol
Muito antes de pendurar as chuteiras, Soutto já se preparava para o momento da aposentadoria. Formado em Administração de Empresas, acumulou cursos de gestão esportiva promovidos pela CBF, Conmebol e Universidade do Futebol enquanto ainda era atleta. Mesmo assim, admite que nenhum diploma substitui a rotina: “O que me ensina, na verdade, é a prática. É o dia a dia, são as decisões, a necessidade de tomar decisões.”
Ter exercido cargos de liderança durante a carreira também facilitou a adaptação: “Até aqui no Botafogo fui capitão e tive que tomar a frente em alguns processos, até mesmo com relação à imprensa, torcida, representando os jogadores.”
Ainda assim, a maior mudança foi perceber que agora ocupa o outro lado da mesa: “Eu entendo o que o jogador pensa, mas ao mesmo tempo eu defendo o que a instituição prioriza. São coisas que naturalmente vão mudando na minha cabeça. Vai virando a chave.”
Foi justamente essa mudança de perspectiva que mais o surpreendeu. Segundo Soutto, muitos detalhes da rotina de um clube passam despercebidos para quem vive apenas o ambiente dos vestiários: “O jogador não tem muita noção do custo de uma viagem, por exemplo. De como aquilo impacta.”
Hoje, cabe a ele encontrar o equilíbrio entre desempenho esportivo e responsabilidade financeira: “Tem que tomar decisões que não atrapalhem o rendimento do jogador, mas que sejam viáveis para o clube.”
Outra descoberta foi a carga de trabalho: “O jogador treina um período e normalmente tem um período de descanso. O dirigente não. Ele fica no clube o dia inteiro, cheio de demandas para resolver.”
A rotina, segundo ele, funciona quase ao contrário daquela vivida pelos atleta: “O dia de folga do jogador normalmente é o dia que a gente mais trabalha, porque é quando precisamos tomar decisões para que, quando ele volte, não encontre os problemas que teve na semana anterior.”
Resolver sem entrar em campo
Se como atleta o maior desafio foi estrear profissionalmente, e como ator enfrentar uma madrugada congelante durante a gravação da cena da chuva, como dirigente Soutto acredita estar vivendo outro tipo de aprendizado.
Ele compara a estreia no futebol profissional ao nascimento de um filho: “É o dia do sonho, da realização, mas também é o dia em que começam as responsabilidades maiores. É como esperar a gestação da esposa. Quando o filho nasce é maravilhoso, mas depois tem que cuidar, trocar fralda, botar para dormir.”
Hoje, porém, a pressão tem outra natureza. O Botafogo-SP atravessou recentemente uma sequência de dez partidas sem vitória, e a experiência lhe mostrou que nem sempre é possível resolver os problemas diretamente: “Uma coisa é jogar. Dentro de campo eu tentava resolver. Dava certo ou não, mas eu tentava resolver.”
Agora, as respostas passam por decisões administrativas: “Sem jogar, são outras decisões que precisam ser tomadas. Esse talvez seja meu principal desafio nesse momento.”
Apesar disso, ele reconhece que ainda está apenas no começo da nova caminhada: “Tenho muita coisa para viver nesse cargo. Tem muita coisa para descobrir ainda.”
Construir antes de vencer
Ao falar sobre o futuro do Botafogo-SP, Soutto evita promessas e prefere recorrer a um exemplo que acompanha de perto no futebol paulista: “Vejo o Mirassol como exemplo exatamente disso que estou falando: crescimento sustentável.”
Segundo o gerente, o sucesso do clube é consequência de anos de planejamento: “Quem é do futebol sabe que lá existe processo, existe investimento. O CT foi construído com a venda de um atleta para o São Paulo e todo o dinheiro foi investido na estrutura. Uma hora os frutos vão sendo colhidos.”
Na visão dele, o futebol costuma analisar apenas pelo imediatismo e, muitas vezes, ignora o trabalho realizado nos bastidores: “Às vezes o resultado não traduz todo esse trabalho da gestão, mas isso no curto prazo.”
É justamente essa filosofia que ele acredita que o Botafogo-SP deve seguir: “Desde o dia que pisei aqui pela primeira vez vejo o Botafogo em um processo de grande evolução. Temos uma gestão séria, sem atrasos salariais, sem impeditivos para fazer boas campanhas.”
Ao mesmo tempo, faz questão de reforçar que crescimento exige responsabilidade: “Ninguém vai dar um passo além de onde a perna pode ir. Crescer para depois ter uma queda brusca não é o caminho.”
Embora o sonho da Série A exista internamente, Soutto evita alimentar uma cultura em que qualquer resultado abaixo do acesso seja tratado como fracasso: “Se vier, é maravilhoso. Mas eu não posso vender a ideia de que qualquer coisa menos do que isso é crise.”
Ainda assim, demonstra confiança no projeto: “Vejo o Botafogo com capacidade e boa perspectiva de chegar à Série A. Quero fazer parte desse processo.”
Três profissões, a mesma essência
Ao olhar para trás, Fillipe Soutto percebe que viveu três profissões que, à primeira vista, parecem não ter relação entre si. Primeiro, precisou interpretar o jogo dentro das quatro linhas. Depois, interpretou um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro diante das câmeras. Agora, longe dos gramados e dos sets, administra atletas, lidera processos e ajuda a escrever novos capítulos para o clube onde se tornou ídolo.
Mudaram os cenários, os personagens e os desafios. Mas a essência continua a mesma: entender pessoas, tomar decisões e saber que, tanto no futebol quanto na arte, os grandes resultados raramente acontecem por acaso.



