12 de julho de 2026

E agora, Valdemar? (por Mary Zaidan)

E agora, Valdemar? (por Mary Zaidan)
Beto Barata/PL

Valdemar Costa Neto, dono do PL, tinha metas auspiciosas para 2026: disputar a eleição presidencial com o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL-DF), chapa que considerava imbatível, e eleger uma bancada recorde de 120 deputados federais e 30 senadores. O roteiro começou a ruir a partir da opção dinástica do chefe do clã pelo primogênito. Teve de engolir a candidatura de Flávio, ficando sem um puxador de votos no Rio de Janeiro. Já não tinha concorrente de peso ao Senado em São Paulo desde que o deputado cassado Eduardo preferiu o Tio Sam ao Brasil, com custo para lá de nocivo para a legenda. Não bastasse, perdeu Michelle, sua maior aposta, que pode até se eleger, mas deixou de ser cria sua.

O presidente do PL é um daqueles estereótipos de político que desabona a categoria. É a raposa, o espertalhão que está sempre em torno do poder. Foi aliado e opositor ferrenho do tucano Fernando Henrique Cardoso. Apoiou Lula em 2002 e, embora tenha auxiliado nas articulações do impeachment da petista Dilma Rousseff, foi indultado por ela. Assim, livrou-se da condenação de sete anos que tivera no Mensalão. Agora, está enrolado em novas suspeitas de peculato e corrupção, desta vez por manipulação de emendas parlamentares, que, na sexta-feira, lhe impuseram o bloqueio judicial de R$ 119 milhões – apenas uma parte de um patrimônio inexplicável e inescrupuloso para quem vive da política.

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Deputado por seis mandatos, Costa Neto renunciou por duas vezes para não ser cassado por delitos cometidos e impedido de disputar o pleito seguinte. Em 2022 decidiu não se candidatar para comandar o partido que mais dinheiro público recebe. A sigla, dona da maior bancada legislativa, abocanha anualmente cerca de R$ 200 milhões do Fundo Partidário, valor tímido perto dos mais de R$ 880 milhões do fundão eleitoral deste ano.

Toda essa dinheirama explica o poder absurdo que o ex-deputado detém e, óbvio, os motivos pelos quais briga para que o seu partido tenha uma grande bancada. Antes de tudo, aponta por que ele depende tanto dos Bolsonaros: só conseguiu fazer o seu PL crescer e aparecer com a ida do ex para a legenda. Certo de que a filiação mudaria o curso da sigla, Costa Neto fez vistas grossas às acusações de que era corrupto, feitas por Bolsonaro em 2018 e reverberadas nas redes pelo rebento Zero Dois, Carlos. Em resumo, Bolsonaro é seu céu e seu inferno.

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do Metrópoles

No dia a dia da política, Costa Neto gosta de se apresentar como um conciliador que a todos ouve. Tenta imitar o jeito Gilberto Kassab de ser. Mas, ganancioso ao extremo, só de olho para cifrões, passa longe da eficiência e elegância do dono do PSD, articulador descolado, ex-secretário de Tarcísio, com três ministros no governo Lula e pré-candidato a vice na chapa de Ronaldo Caiado, crítico de Lula e Flávio.

Em seu favor, diga-se, mexe em um angu bem mais encaroçado do que o de Kassab, que não tem de conviver com a permanente cizânia no clã Bolsonaro, as diatribes entre eles e entre aliados. As perturbações são tamanhas que, além dos tiros nos pés que a família adora disparar, o próprio Costa Neto tem errado a mira. E feio.

Inventou e cuidou de Michelle, dando a ela a direção do PL Mulher, infraestrutura e grana para percorrer o país. Depois do vídeo em que ela rompe de vez com Flávio, dizendo ser “maltratada” e “humilhada” pelo enteado, o presidente da legenda até tentou esfriar os ânimos. Mas perdeu. Michelle não foi ao encontro com mulheres promovido pela campanha de Flávio, esvaziado também pelas ausências das senadoras Tereza Cristina (MS) e Damares Alves (DF), aliadas da ex-primeira-dama. Abandonou o PL Mulher e ameaça (só ameaça) não disputar o Senado pelo PL no Distrito Federal, eleição tida como garantida.

Costa Neto nem parecia um político safo quando anunciou a extinção da direção nacional do PL Mulher.“Você sabe mulher como é que é, né? Arruma enguiço com 20”. Com a desastrada frase, afastou ainda mais as mulheres, público avesso a Flávio. Fez coro a um dos mais fiéis assessores do candidato, o blogueiro Paulo Figueiredo, para quem “mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente mulheres solteiras” e que “mulheres casadas em geral tendem a acompanhar o voto do marido”.

Mais uma vez, seus tiros foram parar na culatra ao escancarar o que muita gente no país crê quanto ao comportamento de Bolsonaro, condenado e cumprindo pena em prisão domiciliar. “Ele está com a saúde complicada por causa da situação que ele está. Se ele sair de lá, sai pulando de alegria. Sara na hora.” À frente de uma campanha sem o brilho que pretendia, Costa Neto acabou por acender desconfianças, jogando luzes no não descartado teatro do ex.

Mary Zaidan é jornalista 


Conteúdo reproduzido originalmente em: Metropoles por Da Redação.