Opinião: “Altas Horas” perde a essência e aposta em especial sem conexão entre atrações
Encontro entre Sertanejo Série A e Trem da Alegria evidencia a falta de um conceito que dê unidade ao programa comandado por Serginho Groisman
*As informações contidas neste texto são de responsabilidade dos colunistas e não expressam necessariamente a opinião do portal LeoDias.
Serginho Groisman com Luciano Nassyn, Patrícia Marx e Juninho Bill no “Altas Horas” (Reprodução/Instagram)
O “Altas Horas” já foi um dos programas mais inteligentes da televisão aberta. Durante muitos anos, Serginho Groisman conseguiu transformar um programa de auditório em um espaço onde música, comportamento, entrevistas, debates e histórias conviviam de forma orgânica. Era justamente essa mistura que fazia a atração ser diferente. Hoje, porém, essa identidade parece cada vez mais diluída.
A edição deste sábado (11), que reuniu o projeto Sertanejo Série A e a formação original do Trem da Alegria, escancarou esse problema. A proposta era celebrar diferentes fases da música brasileira e promover um encontro entre gerações. Na prática, porém, o programa transmitiu a sensação de que duas atrações completamente independentes foram colocadas lado a lado sem que houvesse uma ideia que justificasse essa união. O que exatamente conectava o sertanejo universitário ao grupo infantil que marcou os anos 1980? Quase nada.
Carla Bittencourt
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Não havia um eixo narrativo que costurasse os convidados. Nem uma conversa que aproximasse aqueles universos. Ficou a impressão de um especial montado para preencher espaço, sem um conceito capaz de dar sentido ao encontro. Parecia mais uma sucessão de apresentações musicais do que um programa pensado como experiência televisiva.
E esse talvez seja o maior problema atual do “Altas Horas”. Nas redes sociais, muitos telespectadores fizeram exatamente essa observação. Há quem lembre com saudade da época em que o programa alternava música com discussões sobre comportamento, ciência, atualidades, sexualidade, cinema, literatura e participação intensa da plateia.
Outros apontam que as homenagens, antes reservadas para ocasiões especiais, se tornaram frequentes demais e perderam o impacto. Também houve quem comparasse o formato atual ao de outros programas de auditório da Globo, dizendo que as atrações passaram a parecer muito parecidas entre si, todas baseadas em shows musicais, celebridades recorrentes e grandes tributos.
O curioso é que Serginho Groisman continua sendo um excelente apresentador. Mantém a curiosidade, a capacidade de ouvir e a naturalidade que sempre foram sua marca. O desgaste não parece estar na condução, mas no formato.
O “Altas Horas” ficou conhecido por ser uma espécie de “vida inteligente na madrugada”, justamente porque conseguia ir além do entretenimento puro. Era comum assistir a um show, em seguida acompanhar um debate relevante e, logo depois, ouvir uma entrevista que rendia reflexões. Essa alternância mantinha o programa vivo, imprevisível e interessante.
Hoje, a música passou a ocupar praticamente todo o espaço. E, quando ela não vem acompanhada de um conceito forte que una os convidados, sobra a sensação de um programa sem direção clara.
O especial deste sábado é um bom exemplo disso. Trem da Alegria e sertanejo são dois fenômenos importantes da cultura brasileira, mas colocá-los juntos, sem uma narrativa que justificasse esse encontro, acabou produzindo um resultado que soou aleatório. Não faltaram artistas talentosos. Faltou uma ideia.
Talvez o “Altas Horas” não precise de uma grande reformulação. Talvez precise apenas voltar a confiar naquilo que um dia fez dele um programa único: boas conversas, temas diversos e encontros que façam sentido — e não apenas uma sequência de atrações musicais reunidas no mesmo palco.
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Conteúdo reproduzido originalmente em: Leo Dias por Carla Bittencourt.


